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1917 (Crítica do filme)

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de 1917 possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação

poster 1917ACONTECE COM FREQUÊNCIA DE ASSISTIR A DETERMINADO FILME e acabar gostando menos do que eu gostaria. Não se trata de desgostar. Não se trata de ver apenas pontos negativos. Se trata de reconhecer valor, mas não conseguir se envolver o suficiente para tornar a obra importante o suficiente para ter um espaço memorável numa lista (quase) infinita de obras favoritas.

1917 (2019, Sam Mendes) é um desses casos. A obra se passa durante a complexa Primeira Guerra Mundial e se aproveita de uma narrativa que usa dois (como bem observado na análise de Pablo Villaça, do Cinema em Cena) planos-sequência falsos para mostrar dois personagens saindo de um ponto A para um ponto B em tempo real (ou mais ou menos próximo disso).

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Por se tratar de uma obra sobre a Guerra, a ousadia de um plano-sequência (independente dos efeitos visuais usados para disfarçar os cortes) em “tempo real” é o suficiente para despertar curiosidade. O diretor de fotografia Roger Deakins (vencedor do Oscar por Blade Runner 2049) é o verdadeiro “Artista” de 1917, e até Sam Mendes aceita isso. A câmera nos deixa totalmente imersos e sufocados numa história contada a partir da perspectiva dos protagonistas, mas todo o virtuosismo técnico acaba por abafar o que realmente importa enquanto dedicamos nosso tempo para assistir filmes.

Embora o espectador consiga ficar tenso com as passagens de 1917 (posso citar inúmeros momentos campeões de tensão, como o rato fazendo cagada nos túneis; o avião alemão caindo; a perseguição noturna; o salto no rio; a épica corrida pela linha de frente do exército; enfim, não faltam bons momentos), nós sentimos um pouco de dificuldade em nos conectar emocionalmente com os protagonistas.

1917 é como uma canção de metal melódico em que existe tanta técnica que o feeling é deixado em segundo plano. Sabemos que os personagens estão cumprindo uma missão, mas a impressão de distanciamento é forte demais para conseguirmos definitivamente nos permitir sentir algo por eles. É curioso, no entanto, que ao final da missão, o público se sinta igualmente esgotado depois de acompanhar tudo que o soldado passou para concluir sua tarefa.

Além da fotografia, podemos elogiar bastante o trabalho de trilha sonora. A sequência noturna perderia metade do seu impacto sem os temas de Thomas Newman, parceiro de longa data de Mendes. Mais que uma experiência visual, 1917 acaba ganhando o reforço técnico de uma trilha sonora que logo corresponde ao sucesso das suas sequências. De forma pouco discreta, claro, até mesmo porque o volume é realmente para ser notado, Newman faz um dos melhores trabalhos de trilha sonora da temporada.

Sam Mendes merece todo o reconhecimento que vem recebendo, especialmente porque trouxe para o cinema uma história contada pelo avô. Porém, me surpreende negativamente, que o mesmo cineasta responsável por Beleza Americana e Estrada Para Perdição tenha feito um filme em que deixa de lado o aspecto psicológico e emocional de seu protagonista para destacar quase que exclusivamente a técnica. Se ele queria provar pra alguém que podia dirigir um filme de Guerra em plano-sequência, conseguiu. Mas deixando de valorizar as histórias e dramas de seus personagens…

1917 é um belo trabalho digno de todo o reconhecimento que vem merecendo, mas que fora suas façanhas técnicas (fotografia e trilha sonora) é desprovido de um toque humano para nos fazer envolver por completo. Longe de ser um filme ruim, até porque Sam Mendes é provavelmente incapaz de realizar uma obra medíocre, mas a verdade é que eu queria ter gostado mais de 1917. Ao invés disso, prefiro relembrar Steven Spielberg contando uma história de um grupo de soldados tentando resgatar um tal de Ryan…

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