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A Escolha Perfeita

A Escolha Perfeita

A ESTRUTURA DE FILMES DE COMPETIÇÃO (seja ela esportiva, musical ou de qualquer outro tipo) raramente reserva surpresas para o público – e em A Escolha Perfeita não é diferente. Do modo como o grupo de cantoras a capela se desmantela, precisa se recompor e eventualmente enfrenta as inevitáveis crises internas até a forma como avança rumo às finais de um renomado campeonato, o roteiro se agarra com vigor à cartilha de convenções, investindo ainda em um romance central conturbado e em desentendimentos típicos entre pais e filhos. Todavia, o longa acaba conseguindo agradar não só por apostar em uma estrutura naturalmente envolvente, apesar de previsível e problemática, mas também pelos eficientes e atípicos números musicais e pelas investidas cômicas, que funcionam sempre que o esforço para arrancar o riso não se sobressai.

No roteiro, escrito por Kay Cannon com base no livro de Michael Rapkin, a aspirante a DJ Beca (Anna Kendrick) ingressa a contragosto na universidade de Barden para satisfazer o desejo de seu pai, mantendo como hobby a atividade de mixagem de músicas. Ao perceber a falta de apego da filha com a vida acadêmica, o Dr. Mitchell (John Benjamin Hickey) propõe que Beca se envolva em alguma atividade extracurricular e promete, como recompensa, apoiar seu projeto de tentar a sorte como DJ em Los Angeles, caso este ainda seja seu desejo no final do ano letivo. Assim, a garota acaba se juntando às Belas de Barden, um grupo decadente que interpreta covers a capela – isto é, utilizando apenas a boca para reproduzir os instrumentos e, obviamente, o vocal – e que, pela primeira vez em anos, se viu obrigado a admitir garotas com perfis variados para evitar o próprio definhamento.

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Lideradas pela autoritária e tradicionalista Aubrey (Anna Camp), as Belas de Barden formam o típico grupo desajustado dominado por mulheres estereotipadas, que vão desde a sonsa libidinosa até a gordinha engraçada, passando pela protagonista apática que praticamente não esconde a insatisfação de fazer parte do time. Mesmo não tendo muito a acrescentar individualmente, as Belas funcionam suficientemente bem em grupo, permitindo que as atrizes deem vazão aos traços marcantes das personalidades das personagens de forma bastante bem humorada – e enquanto a Lilly de Hana Mae Lee consegue arrancar boas gargalhadas graças à sua hilária performance silenciosa, a divertidíssima e requisitada Rebel Wilson surge como o maior (trocadilhos à parte) destaque cômico do longa como a participativa e ingênua Amy Gorda, se entregando sem concessões à persona cinematográfica que vem estabelecendo desde Missão Madrinha de Casamento (e que também pode ser vista em O Que Esperar Quando Você Está Esperando e Quatro Amigas e um Casamento).

Já a simpática Anna Kendrick é parcialmente sabotada pela intensa apatia inicial de Beca – e não fosse o carisma da atriz e de seu parceiro de cena, Skylar Astin, o romance formulaico do casal possivelmente jamais emplacaria. Fechando o elenco, Elizabeth Banks e John Michael Higgins vivem os narradores do campeonato musical e recebem a função ingrata de, em meio ao constrangimento de comentários absolutamente sem graça, enfatizar para o público o enfado causado pelas apresentações das Belas, visto que o show das garotas não parece tão ruim a princípio, sob a ótica de um leigo. Aliás, os números musicais, de modo geral, são uma grata surpresa, uma vez que o elenco compensa com bastante entusiasmo e energia o fato de a grande maioria precisar ser dublado durante as cantorias.

A Escolha Perfeita

Estreando no Cinema após uma carreira pouco expressiva na televisão, Jason Moore não assume qualquer risco na direção e conduz o longa de forma burocrática, excedendo-se de forma problemática em alguns momentos (especialmente no início da projeção) – e ainda que seja fácil entender o humor que se pretende com a dramatização exacerbada em torno dos nódulos vocais de Chloe (Brittany Snow) ou do burrito que atinge Amy Gorda, é impossível ignorar que tais investidas destoam do restante por serem levadas a sério demais pelas personagens. Por fim, o roteiro peca ao levantar, em certo momento, uma discussão sobre a previsibilidade de desfechos hollywoodianos, criando involuntariamente uma espécie de obrigação ou responsabilidade de não fazer feio no próprio final – e cheguei a acreditar que isso seria possível quando (spoilers levíssimos adiante), inspirando-se no desfecho de Rocky – O Lutador (citado durante uma das tais conversas), Cannon opta por omitir o resultado da final do concurso. A cena seguinte, entretanto, não faz jus ao depósito de confiança.

Explorando o frenesi das relações de poder na hierarquia colegial estadunidense com uma pegada musical pop que remete involuntariamente ao seriado Glee, A Escolha Perfeita não possui um roteiro bom o bastante para justificar a cantoria e nem uma cantoria boa o bastante para que ignoremos as fraquezas do roteiro – mas em meio às várias escolhas imperfeitas do projeto, a escalação certeira de Rebel Wilson retorna à mente e a lembrança de seus bons momentos no longa ampara a impressão incerta de que o investimento pode ter, no fundo, valido a pena.

Título original: Pitch Perfect
Direção: Jason Moore
Roteiro: Kay Cannon, baseado no livro de Michael Rapkin
Elenco: Anna Kendrick, Skylar Astin, Rebel Wilson, Brittany Snow, Anna Camp, Ben Platt, Hana Mae Lee, Ester Dean, Alexis Knapp, Adam DeVine, John Benjamin Hickey, Freddie Stroma, Jinhee Joung, Christopher Mintz-Plasse, Elizabeth Banks e John Michael Higgins.
Lançamento: 7 de Dezembro de 2012
Nota:[três]

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