Cinema por quem entende mais de mesa de bar

A Lula e a Baleia (ou sobre um filme “sem final”)

(THE SQUID AND THE WHALE), de De Noah Baumbach. Com Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, William Baldwin, Anna Paquin.

Fui perguntar pra minha querida irmã, o que ela tinha achado de A Lula e a Baleia. Sua resposta: “é muito bom mas… não tem final!!”. É… O fato é que ela não está de todo errada. Mas o sentido desse, e de tantos outros filmes está justamente nisso. Não há fim, quando a história não acaba, e quando não há uma lição a ser tirada. Há apenas um episódio da vida daquelas pessoas a ser acompanhado por nós.

E no caso de A Lula… o episódio é dos mais corriqueiros: uma família, começa a ver suas estruturas se abalarem, quando os patriarcas Bernard (Jeff Daniels) e Joan (Laura Linney – como é talentosa essa mulher não?!) decidem se separar. O que acompanhamos na cena inicial é o que vai acontecer em (quase) todo o filme: o caçula Frank (Owen Kline) fica do lado da mãe, e o mais velho Walt (Jesse Eisenberg) , ao lado do pai, com que se identifica bastante.

Cada um dos componentes dessa família tem uma característica bem própria, e ao mesmo tempo bem peculiar, o que não faz com que nos identifiquemos com os personagens em si, mas com o momento que estão vivendo. O pai, está frustrado por não ter sido bem sucedido em sua carreira de escritor, se vira dando aulas de literatura e acaba se sentindo atraído por uma aluna. A mãe por sua vez se lança na carreira de escritora, incentivada pelo então marido, e passa a fazer sucesso, embora desconte suas frustrações do antigo casamento tendo casos com alguns homens da vizinhança (normais, nunca intelectuais, diz Bernard a seu filho, numa das várias falas muito bem escritas deste roteiro que concorreu ao Oscar). Frank, está descobrindo sua vida sexual agora, e se espelha muito em seu pai, tentando ser o intelectual que aquele homem representa para ele, plageando até uma música do Pink Floyd (Hey You, que das poucas coisas que conheço deles, é certamente a mais bonita) para impressioná-lo. E por último Walt, que no início da puberdade, experimenta todas as bebidas alcoólicas da mãe e tem manias digamos um pouco… estranhas. O fato é que, como não há uma história, apenas um episódio, eles não são assim; apenas estão assim.

Toda a atmosfera do filme, principalmente a fotografia, remete a um senso de realismo muito grande. A direção, repleta de cortes rápidos, nas cenas e na trilha (muito boa diga-se de passagem), é muito ágil, e é muito interessante a auto-referência a esse tipo de edição, quando Bernard cita Acossado de Godard. E não seria de se surpreender se o filme tivesse algo de auto-biográfico, tanto pelas especifidades das situações, tanto pela época em que é ambientado – na década de 80.

Pais tão fracos e infantis quanto os filhos, insegurança e novas descobertas, a necessidade de se manter um contato amigável apesar da dor que uma separação acarreta (a cena da conversa na porta da casa de Joan com Bernard é muito bonita), o momento em que os pais passam a ser figuras desmitificadas… Tudo isto está lá. Muito bem amarrado e filmado em um filme enxuto, que não apela para diálogos emocionantes para emocionar. O que está em jogo é a solidão daqueles personagens, que se mostra ainda mais presente dado o momento que vivem. E no caso dos filhos principalmente, como passam a viver com isto, agora que já não tem o amparo dos pais.

E voltando ao assunto do fim, ou melhor, do fim que não existe, uma referência ao tílulo: quando Walt volta ao Museu de História Natural, para visitar a estátua da Lula e da Baleia que costumava ver quando criança com sua mãe, e não sente o medo que costumava sentir. Não é só a estátua que consegue ver com seus próprios olhos, sem a descrição da mãe: é o mundo mesmo.

E talvez o filme seja sobre isso: sobre como aquelas pessoas passam a viver sem uma referência que tinham e que não existe ou não é mais a mesma (no caso a família). E não há um final feliz aqui. Agora é hora de continuar vivendo.
Totalmente recomendável (sem exageros…)

Vou dedicar esse post pra ela então… (ana rita, a propósito!!)