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A Vila

No post de “O Fim dos Tempos” rolou a maior discussão já vista no Cinema de Buteco. Fato é que todo mundo ignorou o assunto principal e danou a falar mal de outro longa do diretor M. Night Shyamalan, “A Vila“, de 2004. Creio que este talvez seja a obra que mais dividiu opiniões nos últimos tempos. Sendo amado ou odiado, está sempre presente em conversas sobre filmes bons ou ruins. Mas qual seria o motivo?

Talvez o maior problema tenha acontecido na sua divulgação, quando muitos pensaram que se tratava de uma fita de terror. Com toda a expectativa para o novo filme do diretor de O Sexto Sentido, muitos se decepcionaram com o resultado da trama. Quem imaginava que poderia se tratar de um filme que misturava fantasia, drama, romance, suspensa e questões sociais? Obviamente, poucos gostaram do produto final e tenho orgulho em estar nesse (quase) seleto grupo. A Vila é um dos melhores filmes do M. Night Shyamalan e mostra uma faceta diferente da sociedade em que vivemos, com sua história de fundo e que parece ser ignorada pelo grande público.

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Mas vamos reconhecer que não é um filme fácil. Quando vi pela primeira vez em 2004, o que mais me chamou a atenção foi que estava estudando assuntos parecidos com o que foi abordado no roteiro. A ideia de uma sociedade soberana, longe das leis e liderada por um conselho de anciões, bateu de frente com os ensinamentos de Ciência Política, Sociologia e Filosofia. Tudo facilitou para que eu gostasse já de primeira e fosse atrás para rever os conceitos que Shyamalan apresenta.

Sim, conceitos. Apesar de ser uma obra de ficção e que tem como foco principal a relação dos personagens de Joaquin Phoenix e Bryce Dallas Howard, o filme apresenta um modelo de comportamento e regras bem diferentes das habituais. Havia política, mas não tinha dinheiro. Tudo que acontecia no vilarejo tinha que passar pelo crivo dos velhos, liderados pelo personagem de Willian Hurt, que é o pai da personagem cega de Bryce Dallas. Todas as decisões são tomadas em conjunto, buscando o melhor para os filhos e parentes. Inclusive, criando advertências quanto aos “monstros” da floresta.

Os tais “monstros” seriam atraídos pela cor vermelha (uma das marcas registradas do diretor, assim como o espanhol Pedro Almodovar) e por todos aqueles que cruzassem os limites da vila e entrassem na floresta. Essa era a grande estratégia que os anciões usavam para manter o controle sobre sua comunidade: aproveitando-se de um mito, alimentaram o medo no coração de suas crianças que ao crescerem, iriam continuar respeitando o espaço que lhes pertencia, evitando que fossem atravessar a floresta e consequentemente, por em risco a vida “perfeita” que todos levavam. Quantas vezes já nos deparamos com mentiras em forma de “fantasmas” para nos impedir de correr atrás de alguma coisa? A própria guerra contra o medo que o presidente dos EUA fez. Não seria a mesma estratégia usada pelos personagens de Shyamalan para manter a ordem? Colocar o foco no medo? Em algo que está além do alcance?

O ponto alto de “A Vila” é mostrar exatamente a forma de controle que podemos ser submetidos. Os personagens vieram de vários dramas pessoais, que os levaram a criar um tipo de vida distinto e longe dos perigos da vida moderna. Longe da corrupção. Talvez nesta explicação, Shyamalan não tenha sido tão eficaz e deixou tudo espalhado e sem emoção demais. Faltou intensidade no discurso, nas razões. A decisão do experimento sociológico do personagem de Willian Hurt acabou sendo fácil demais, muito simples. Poderiam ter trabalhado mais nesse detalhe e não deixar as peças tão soltas. Mas é a força da história, os dramas que nos levam a fugir de nossa realidade e os preços que precisamos pagar para manter vivos os nossos sonhos.

Encerrando a defesa da produção, fico com uma das frases finais do filme, quando a personagem de Bryce Dallas vai buscar ajuda para o seu amado: “São em nossos filhos que residem a esperança para manter nosso sonho vivo“. O nosso amanhã poderia depender só de nós mesmos também, não?

Ficha Técnica:
A Vila (The Village, 2004)
Dirigido: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Genêro: Drama
Elenco: Joaquim Phoenix , Bryce Dallas Howard , Adrien Brody, Willian Hurt
Trailer
Trechos


Final Alternativo (haha)

Nota: