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Filme: Amor à Flor da Pele

(IN THE MOOD FOR LOVE), de Wong KarWai. com Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Rebecca Pan.

Wong Kar Wai, tem uma certa originalidade em relação aos diretores orientais que surgiram nos útlimos anos. Conserva o cuidado com a parte visual de seus filmes, mas tem uma sensibilidade muito particular para tratar de um tema sempre recorrente neles, tornando-se já sua marca registrada: o amor.
No caso de Amor a Flor da Pele, é sobre o amor latente, aquele que nunca chega a se concretizar, e nem por isso menos valoroso. Pelo menos no caso de Chow e Li-Zhen (Tony Leung Chiu-Wan e Maggie Cheung). Os dois acabam de se mudar para um hotel e se tornam vizinhos. Logo descobrem que seus cônjudes, nunca presentes, são amantes, e usam suas viagens de trabalho como desculpa pra se encontrar.
Como eu já dito, a direção de Wong Kar Wai é o que faz a diferença no filme. A fotografia, sempre dá um tom de melancolia; os vestidos de Li-Zhen tem sempre os mesmos modelos, embora as estampas nunca se repitam; o fato de nunca mostrar os rostos do marido de Li-Zhen, e da esposa de Chow, transmitindo a idéia de distância e de desapego afetivo (e o diretor brinca com essa técnica em determinado momento do filme, de uma forma bem inteligente); os planos em câmera lenta, ao som de Quizás, quizás, quizás, nos trazem a uma atmosfesra triste, e a todo momento romântica.

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Outro mérito de Kar-Wai é nos deixar sentir, em determinados momentos do filme, a mesma confusão experimentada pelos personagens: não se sabe se o sentimento é de amizade, ou de amor realmente. Quando descobrem a traição, Li-Zhen e Chow tentam imaginar como o envolvimento teria começado, encenando momentos que teoricamente sua esposa e marido teriam vivido (o momento em que se declararam pela primeira vez, jantares, coisas do tipo). E a forma como mantém aquela situação, como se não quisessem abrir mão do companheirismo e da cumplicidade que estão enfim experimentando. Mesmo traídos estão felizes por terem encontrado alguém para dividir seus momentos mais corriqueiros, o que não tinham no seus casamentos. E não deixa de ser interessante o modo com que se preocupam em serem vistos juntos, o que demonstra mais uma vez que existe ali um sentimento de atração, e o dado da culpa típica de amantes.
E temos a bela sequência final, que simboliza o amor que permanece em segredo, e que não precisa ser expresso em palavras para que exista (as coisas entre os dois começam a se complicar quando o sentimento é verbalizado).
Agora é só aguardar o que Wong Kar-Wai fará com seu belo elenco em sua primeira empreitada hollywoodiana (Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz e Norah Jones!), Um Beijo Roubado, que estréia este ano…