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As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne

TINTIM É UM FILME VISUALMENTE INCRÍVEL. Mescla os traços cartunescos do material original com texturas realistas, quase palpáveis. Prova que a animação com captura de movimentos, embora ainda longe de perfeita, já consegue convencer não só com monstrinhos e gorilões, mas com personagens humanos. As transições entre uma cena e outra são bem inventivas e o 3D vale os tostões a mais no ingresso. São tantos atrativos que a gente até releva o fato de que a história é um pouco insípida.

As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (nome e sobrenome do projeto) é uma parceria inédita entre dois pesos-pesados do cinemão-pipoca, Steven Spielberg e Peter Jackson. Spielberg dirigiu, Jackson produziu. O roteiro, um três-em-um que costura três HQs escritas e desenhadas pelo belga Hergé nos anos 40, narra o primeiro encontro do personagem-título com seu parceiro Capitão Haddock e um mistério envolvendo o antigo navio Licorne, que em inglês é “Unicorn”. Sábia decisão não chamar o filme de “O Segredo do Unicórnio” e causar a impressão errada.

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Porque Tintim não é um filme de fantasia – não há bichinhos falantes, criaturinhas mágicas ou vilões do além, e desta vez o Spielberg se controla e não enfia alienígena onde não deve (vide A.I. e Indiana Jones 4), o que é um alívio. Mas tampouco é um filme pé-no-chão. Vale aquela lógica de desenho animado: o personagem toma sopapo e raio na testa, se estrumbica todo, e na cena seguinte já está de pé, pronto pra outra. Há uma gag muito boa, aliás, envolvendo aqueles passarinhos que surgem quando alguém leva uma pancada na cabeça nos desenhos.

A ambientação de As Aventuras de Tintim é acertada e respeita o fato de Tintim ser um jovem repórter europeu de meados do século 20. Mantiveram a trama no passado, os personagens usam câmeras e carros antigos, Tintim datilografa em uma máquina de escrever – ótimo, porque ver o Tintim procurando pistas no Google seria de doer. A cidade onde a história começa é uma capital europeia indefinida, pode ser Paris, pode ser Bruxelas. Como o filme é americano, os personagens falam inglês, mas todo o elenco principal é britânico e o sotaque não soa fora de lugar. E quem conhece as HQs originais vai sacar um monte de referências, do letreiro de aeroporto nos créditos iniciais (onde se lê “Congo”, “Shanghai” e outras localidades visitadas por Tintim nos quadrinhos) à homenagem a Hergé na divertida cena inicial.

Apesar de já ter dirigido dinossauros e etês criados digitalmente, esta é a primeira animação propriamente dita de Steven Spielberg. E a técnica dá ao cineasta uma liberdade muito bem-vinda. Ele se esbalda nos movimentos de câmera impossíveis e nas transições malucas de uma cena pra outra. Um aperto de mão vira uma cena no deserto. A tomada aérea de um barquinho no meio do mar vira uma poça d’água na cidade. As sequências em que um personagem conta uma história e o filme alterna entre o presente e o flashback fluem sem cortes, uma caneta se transformando em faca, o narrador em terra firme virando um pirata em alto-mar. As cenas de ação também são primorosas, com destaque para aquela dentro de um avião sob uma tempestade, que inclui até gravidade zero; a luta final entre o Capitão Haddock e o vilão do filme; e o longo e primoroso plano-sequência da perseguição a um pedaço de papel.

Jamie Bell (o Billy Elliot) dá voz e movimentos a Tintim. Bell faz um trabalho correto, mas a verdade é que, convenhamos, Tintim não é exatamente o personagem mais supimpa do mundo. É meio certinho demais, de idade indefinida, motivações pouco claras, falta de uma personalidade mais marcante. Lembra assim um Luke Skywalker que empalidece diante do Han Solo que é o Capitão Haddock. Vivido por Andy Serkis (o sujeito na pele virtual de Gollum, King Kong e o César do novo Planeta dos Macacos), Haddock é um beberrão inveterado que não se furta em encher a cara nem mesmo quando a única opção é álcool cirúrgico. Rouba a cena toda vez que aparece. O trio de protagonistas se completa com o esperto fox terrier Milu, que apesar de todo branquinho e fofinho e peludinho, mostra que é macho pra cacete.

Outros nomes famosos integram o elenco, mas não se saem tão bem quanto Andy Serkis. O 007 Daniel Craig interpreta Ivan Ivanovitch Sakharine, o pouco memorável vilão do filme. O dueto gordo-e-magro Nick Frost e Simon Pegg (de Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Paul), que não podiam ser mais diferentes na vida real, fazem dois detetives atrapalhados praticamente idênticos (exceto por um detalhe do bigode), Dupond e Dupont – não me perguntem qual é qual. Eles protagonizam as tentativas de humor mais óbvias do filme, bem pastelão mesmo, que às vezes funcionam, às vezes não.

Mas minha principal ressalva a As Aventuras de Tintim é que, apesar de toda sua originalidade visual, a história deixa um certo gosto de déjà-vu. É uma trama de MacGuffin – expressão que designa aquele objeto essencial para o personagem, mas irrelevante para o espectador. Basicamente, Tintim precisa juntar diferentes partes de um enigma para descobrir a localização de um tesouro. Quantos milhões de filmes já não usaram a mesmíssima desculpa para alavancar a ação? Os Caçadores da Arca Perdida, do próprio Spielberg, é o exemplo mais fácil de lembrar. A revelação do MacGuffin, sem o peso de uma Arca da Aliança ou um Santo Graal, também decepciona, assim como a cena final, que usa uma trilha sombria e um mordomo suspeitíssimo, criando um clima de suspense que fica só na promessa.

O mais provável é que a parceria Spielberg-Jackson se inverta no próximo filme: Jackson dirigindo, Spielberg na produção. Boto fé: é só acertarem na escolha da HQ a ser adaptada, trazer coadjuvantes mais engraçados (meu voto vai pro Professor Girassol) e a sequência de O Segredo do Licorne tem tudo pra ser um filmaço. Por enquanto, contentemo-nos com esta primeira aventura, que pode não ser perfeita, mas definitivamente está no caminho certo.

Título original: The Adventures of Tintin
Direção: Steven Spielberg
Produção:  Peter Jackson, Kathleen Kennedy, Steven Spielberg
Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish, com base nos quadrinhos de Hergé
Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Simon Pegg, Nick Frost
Lançamento:  Outubro de 2011 (Europa) / 20 de janeiro de 2012 (Brasil)
Nota: