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Superman II – as duas versões


SUPERMAN II
TEVE UMA PRODUÇÃO PROBLEMÁTICA. As filmagens começaram emendadas à do bem-sucedido Superman – O Filme sob o comando do mesmo diretor, Richard Donner (também responsável por Os Goonies e os quatro Máquina Mortífera). Mas uma série de desentendimentos levou à substituição de Donner por seu xará Richard Lester (dos beatlefilmes Os Reis do Iê-iê-iê e Help!), mesmo que Donner já tivesse filmado três quartos do filme. Lester fez o resto que faltava e ainda refilmou grande parte das cenas já gravadas, mantendo meros 30% do material de Donner no corte final.

Superman II – A Aventura Continua foi lançado nos cinemas em 1980 e apenas Lester foi creditado como diretor. O filme teve uma recepção boa, embora inferior à da primeira parte, e durante décadas ficou no ar a inevitável pergunta: como teria sido a versão de Richard Donner? Pois em 2006 a Warner chamou Donner para retrabalhar seu material esquecido e lançou Superman II – The Richard Donner Cut, oferecendo aos fãs a chance de revisitar um filme conhecido com um olhar bem diferente. Neste post, vamos comparar as duas versões de Superman II e ver qual dos Richards se saiu melhor.

Superman II – A Aventura Continua (1980)
Direção: Richard Lester

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Logo de início, somos reapresentados a três bandidos kryptonianos que já haviam aparecido no primeiro filme. O líder da corja é o arrogante General Zod (Terence Stamp), que tem uma fixação por mandar que os outros se ajoelhem (“Kneel before Zod!“, repete o filme inteiro) e apesar da patente parece chefiar só os dois lacaios. Sarah Douglas vive a integrante feminina do grupo, que atende pelo nome pouco sexy de Ursa. E o ex-boxeador Jack O’Halloran é Non, um brutamontes caladão “tão sem pensamento quanto é sem fala”, na descrição de um personagem. Na cena inicial, os três são pegos no flagra cometendo um crime, presos em bambolês autogiratórios, julgados e exilados num quadradão unidimensional, tudo em questão de minutos. Ah, se nossa Justiça fosse assim.


A história de Superman II segue a chegada da quadrilha kryptoniana à Terra, libertados acidentalmente quando o Superman explode uma bomba no espaço, ao mesmo tempo em que aprofunda a complicada relação entre Superman/Clark Kent e a repórter Lois Lane.

Christopher Reeve, até hoje o Superman definitivo, continua sua atuação primorosa de duas personalidades tão distintas separadas apenas por um par de óculos. Você aquele sujeito gago e abobalhado, e o cara é um Clark Kent perfeito. Ele tira os óculos, corrige a postura, emposta a voz, e você tem o Superman na mesma hora. É impressionante.

Lois Lane (Margot Kidder) parece determinada a comprovar sua teoria de que Kent na verdade é o Homem de Aço – aparentemente, Lois é a única pessoa no planeta que não tem 20 graus de miopia. Ela chega até a se jogar nas Cataratas do Niágara pra fazer com que Clark vire o Superman e salve sua pele, mas só consegue provar que estava certa na cena em um quarto de hotel em que Clark tropeça no tapete e cai com a mão no fogo sem se queimar. Fala a verdade, Clark Kent: foi mesmo um tropeção ou você só tava afim de desculpinha pra exibir a superforça para a Srta. Lane?


Como namorar não é fácil nem quando se é super, logo surge um porém: em uma visita à Fortaleza da Solidão, espécie de retiro de inverno do herói no Pólo Norte, Superman se comunica com as memórias da mãe falecida (Susannah York) e descobre que, para namorar/casar/consumar a relação com Lois Lane, ele precisa renunciar aos superpoderes e viver como um mortal. A ordem surge totalmente avulsa, ainda mais por ser dada pela mãe e não por Jor-el, pai do herói, que o guiava no primeiro filme. (A explicação vem do bolso e de fora das telas: a participação de Marlon Brando na parte dois, embora já filmada por Richard Donner, foi cortada da versão de Lester porque o ator exigia porcentagem de bilheteria.) Mas curioso mesmo é que, quando Superman perde os poderes em uma “câmara molecular” (basicamente um microondas de cristal), o uniforme azul-e-vermelho também sofre uma supertransformação e vira blusa social e calça jeans. Prático, hein?

Outros superpoderes inéditos também dão as caras, como o famigerado superbeijo do esquecimento no final; super-holografias que se movem independentemente; e um infame superpapel celofane que o herói lança em um dos vilões, embrulhando-o pra presente. Os facínoras de Krypton também têm sua parcela de poderes bizarros, incluindo a telecinese (nunca manifestada no Superman) e uma supercriatividade ao transformar os presidentes americanos esculpidos no Monte Rushmore em seus próprios rostos como num passe de mágica.


Gene Hackman reprisa seu papel de Lex Luthor. Das tiradas do personagem à trilha estilo Tom & Jerry, Luthor é quase sempre usado como alívio cômico, principalmente quando acompanhado de seus capangas mocorongos. É de se espantar que um autoproclamado gênio do crime se cerque sempre de subordinados tão tapados. Luthor pode ser um gênio do mal, mas não entende nada de RH.

No final das contas, Superman II – A Aventura Continua não funciona tão bem quanto o primeiro Superman, mas é um bom entretenimento. O elenco continua jóia, a história de Mario Puzo (O Poderoso Chefão) tem seus bons momentos e a trilha (composta por John Williams para o primeiro filme e minimamente alterada por Ken Thorne) ajuda a engrandecer cenas que seriam triviais. É a opção de Lester em colocar comédia em quase todas as cenas, às vezes ultrapassando a linha do humanamente aceitável, que acaba sabotando muito do potencial desta seqüência.

Continua por aqui? Então vamos à segunda parte do post:

Superman II – The Richard Donner Cut (2006)
Direção: Richard Donner

Quão diferente pode ser um filme com a mesma história, o mesmo elenco e muitas cenas virtualmente idênticas? Ao assisti ao Superman II de Richard Lester e a este The Richard Donner Cut um depois do outro, a conclusão é: bastante. Se este é realmente “o filme como foi originalmente concebido”, é impossível saber – quase 30 anos se passaram entre as filmagens e a montagem final, e muitas decisões tomadas em 2006 poderiam ter sido outras nos anos 70. Mas não importa. Com diferenças fundamentais em termos de tom e roteiro, o Superman II de Richard Donner é um filme mais sério, mais redondo, e essencialmente melhor.

Pra começar, cai a participação algo insossa da mãe do Homem de Aço e entra a presença marcante de Marlon Brando como Jor-el. O filme já abre com Brando condenando os criminosos kryptonianos, sem mostrá-los sendo presos e julgados instantaneamente. Agora é Jor-el quem descreve cada um dos três vilões, e não os membros do Conselho de Krypton, e é interessante notar pequenos detalhes que aperfeiçoam os diálogos, como Jor-el chamando o grandalhão Non de “this” e não pelo nome.

Todas as cenas que envolviam um atendado terrorista em Paris no início do filme de 1980 também foram pro brejo. A explicação de como os bandidos são libertados agora tem ligação direta com o final do primeiro filme e soa mais integrada e orgânica. Novos (d)efeitos especiais foram criados para representar essas cenas, que não chegaram a ser filmadas antes. São efeitos toscos que seriam inaceitáveis para um filme de 2006, mas acabam coerentes com o clima oitentista do material original.

As cenas que envolvem Lois Lane determinada a provar que Clark é super têm aqui o mesmo propósito, mas execução diferente. Lois não pula mais nas Cataratas do Niágara, mas da janela do Planeta Diário, terminando a cena com o rosto vermelho de tomate e melancia, lembrando sangue. É mais impactante do que vê-la molhada e irritadinha, ralhando com Clark. E quando ela constata que seu colega de trabalho é de fato o Superman, tanto a maneira que ela usa para descobrir (o tropeção no tapete dá lugar a uma arma de fogo) quanto a resolução da cena, que transforma Clark em um superbobo, funcionam melhor.

A versão de Lester…

…e a versão de Donner.

Superman virando Clark Kent com uma canetinha preta: cena exclusiva do Donner Cut

Toda aquela história de que o Superman precisa perder os poderes para ficar com Lois Lane, embora ainda soe arbitrária, é desenvolvida com mais eficácia no Donner Cut. Christopher Reeve oferece uma performance forte ao discutir com o finado pai, e a forma com que ele recupera os superpoderes “irreversivelmente perdidos” – um furo grave de roteiro do filme de 1980 – traz uma bem-vinda carga dramática ao mostrar Jor-el se despedindo do filho pela última vez.

Ah, e nada de fantasia virando roupa social. Grande parte dessas gracinhas inseridas por Richard Lester não aparecem na versão de Donner. Não há aquelas gags absurdas na cena do supersopro na cidade, como um sujeito falando ao telefone mesmo depois que cai no chão com orelhão e tudo. Nem sinal do Monte Rushmore redesenhado (aqui os vilões destroem um obelisco) ou do supercelofane. E a resolução do conflito amoroso entre Lois e Clark é contada de uma forma mais séria e até mais adulta.

Mas aí, a cinco minutos do encerramento, vem Richard Donner com sua mania irritante de botar o Superman pra girar a Terra ao contrário e alterar o passado. É decepcionante que um filme que caminhava tão bem termine com um recurso de roteiro tão trapaceiro, preguiçoso, que invalida tudo o que acabamos de ver e ainda soa como cópia do final de Superman – O Filme. Podia ter passado sem essa.


Mesmo assim, quando se coloca no ringue a versão de 1980 contra a remontagem de 2006, o resultado é inegável: o The Richard Donner Cut dá uma surra no filme de Richard Lester. E ainda embrulha em papel celofane.

Cotação:
Superman II – A Aventura Continua (1980):

Superman II – The Richard Donner Cut (2006):

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