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Cashback


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BEN WILLIS (SEAN BIGGERSTAFF) ESTÁ NO PRIMEIRO ANO DA FACULDADE DE ARTES,  COINCIDENTEMENTE ESTÁ TERMINANDO SEU PRIMEIRO NAMORO, e compara a situação com uma batida de carro, já que, segundo as suas palavras, é um momento onde se pisa nos freios em direção a um impacto emocional. “É necessária uma força de 227 kilos para esmagar o crânio humano. Mas a emoção humana é muito mais delicada.”, ele diz. É em meio às viagens entre as sensações de um jovem com o coração partido, suas impressões sobre a vida e sobre este sentimento estranho de um namoro recém terminado, que o diretor Sean Ellis coloca o espectador no seu encantador Cashback, seu filme de estréia em longas.

Se antes o argumento era o de um curta metragem de 18 minutos (que concorreu ao Oscar em 2004), agora Cashback desenvolve melhor a história deste jovem que terminou seu namoro apenas por não saber como fazer sua namorada feliz. Por ainda amá-la, acaba sendo acometido por uma insônia que lhe deixa oito horas a mais pensando no namoro encerrado. Para passar o tempo Ben passa a trabalhar durante as madrugadas num supermercado. 

As noites sem sono parecem ter lhe colocado numa realidade diferente: Ben não consegue mais sonhar, já que não dorme, mas por outro lado o filme instaura uma sensação de irrealidade que contribui para o rumo fantasioso que a história toma. Para fazer com que suas horas no supermercado passem mais rápido, Ben desenvolve a capacidade de parar o tempo, congelá-lo, para que assim, com seu olhar de artista, possa perceber a beleza das coisas, dos mínimos detalhes, capturando-a em seus desenhos e pinturas.

Portanto, se o argumento do jovem desiludido com o amor (bastante explorado pelo cinema) está presente, serve apenas como meio de falar sobre este olhar sensível do garoto artista (característico daqueles que tem esta inclinação, que o personagem parece demonstrar possuir desde cedo, como percebemos nos flashbacks). As formas femininas atraem o olhar de Ben. Mas não apenas como homem. O olhar de Ben se volta para as mulheres que frequentam o supermercado praticando um dos hábitos mais ordinários (fazer compras) e ali opera buscando todos os detalhes, imperfeições, curvas, de uma beleza que se mostra despreparada para o olhar do outro, e por isto mesmo, aparece da maneira mais espontânea possível. É quando passa a se interessar por Sharon (Emilia Fox), a bela caixa que também tem sonhos que vão além daquele lugar…

Como um filme leve, que não se furta em entregar momentos memoráveis, como nas cenas em que Ben congela o tempo, ou nos diálogos espertos e originais (também escritos por Sean Ellis), pontuados por uma trilha sonora que vai desde música erudita até The Knife, Cashback poderia estar naquelas categorias de filmes desconhecidos, porém imperdíveis. É um achado que mostra que se o amor existe, não pode ser entendido através de pretensas definições racionais. Há que senti-lo e descobri-lo na beleza que se esconde na rapidez dos momentos prosaicos. Recomendo.


Cashback, 2006
Direção: Sean Ellis
Roteiro: Sean Ellis

Elenco: Sean Biggerstaff, Emilia Fox, Shaun Evans, Michelle Ryan,Stuart Goodwin, Michael Dixon, Michael Lambourne, Marc Pickering, Nick Hancock