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Cinzas do Paraíso

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CINZAS DO PARAÍSO É UM DOS POUCOS FILMES EM QUE EU NÃO ME INTERESSEI MUITO PELA HISTÓRIA. Aliás, se você for reparar, a história não é nada original. É a famosa fórmula do triângulo amoroso, só que usada inteligentemente no meio do Texas – um ambiente hostil para qualquer ser humano e com um calor que pode causar a discórdia a qualquer vida. Interessante mesmo é a fotografia, que dá o tom da narrativa. Esse truque já é consagrado por Terrence Malick, diretor do filme, que usa do recurso como força motriz em suas obras até hoje. A diferença aqui é que esse é um Malick jovem, em seu segundo longa-metragem, mostrando ao mundo o quão inovador poderia ser. Do fim dos anos 60 ao fim dos anos 70, Hollywood produziu em massa filmes vanguardistas e uma nova leva de artistas formada pela juventude contraculturalista. Após o sucesso de Terra de Ninguém, lançado cinco anos antes, Malick voltou com uma superprodução (independente!) que contava com jovens atores como Richard Gere e Sam Shepard.

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O filme é curto (tem 94 minutos de duração) e a trama se desenvolve rapidamente, sem enrolação: os três personagens centrais Bill (Richard Gere), Abby (Brooke Adams) e Linda (Linda Manz) vivem em Chicago no início do século XX – alto industrialismo, más condições de trabalho, a pobreza assola o país. Já no início, vemos Bill bater boca com o seu superior. Ouve-se pouco o conteúdo da conversa entre o barulho da maquinaria. De repente, Bill dá um soco em seu chefe; ele cai morto. Linda, a garota, começa então a contar a história dela e de seu irmão. Eles viviam juntos até que Bill se apaixonou por Abby, transformando a dupla em trio. Para esconder das pessoas que são um casal sem terem se casado – um escândalo para os costumes da época -, Bill e Abby fingem ser irmãos.

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Andarilhos e nômades, os três vagavam os EUA atrás de emprego. Na época, as colheitas proviam trabalhos temporários a milhões de americanos. Eles vão para a região do Cabo de Frigideira do Texas (Panhandle, em inglês; existem dez regiões americanas informalmente assim chamadas por terem o formato de “cabos de frigideira”, de penínsulas) e conseguem emprego na fazenda do Fazendeiro (Sam Shepard), jovem rico e moribundo. Bill, interesseiro, vê que o Fazendeiro gosta de Abby e, ao descobrir que ele tem pouco tempo de vida, convence-a a casar-se com o rapaz a fim de herdar toda sua fortuna. Mas o tempo passa e o Fazendeiro não morre e as relações entre os envolvidos começam a se fragilizar…

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O tempo também dita o temperamento da história. À medida em que caminhamos para o final, o calor sulista aumenta e as cenas ficam mais estressadas. As imagens vão ficando com cores ainda mais quentes, o suor exala por todos os lados. Gafanhotos peregrinos invadem as plantações, devorando a safra e destruindo a colheita. O Fazendeiro desconfia de um caso entre “os irmãos”. Um incêndio colossal acontece (numa sequência fantástica, por sinal). Não sou fã de Richard Gere, mas ele foi bem usado neste filme. O personagem dele é detestável não pela atuação, mas pela natureza de sua personalidade. E ele vai ficando cada vez mais detestável e traiçoeiro à medida em que o enredo se desenlaça. Não existem atuações excelentes. De fato, isso não importa muito, uma vez que a parte principal da obra é a forma. Tudo é muito previsível assim como os ares trágicos (anunciados pela melancólica trilha sonora) e, no fim das contas, ficamos ansiosos para ver como as coisas vão acontecer – e não necessariamente para saber o que vai acontecer.

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Muito mais interessante que a trama propriamente dita, a estética Cinzas do Paraíso (péssima tradução de Days Of Heaven) é experimentalismo puro: na fotografia, cores fortes e belíssimas irradiam da tela o calor e o pôr-do-Sol texano, dos campos em chamas, dos momentos de tensão, da labuta árdua e mal paga. Mérito total ao trabalho primoroso e vencedor do Oscar de Melhor Fotografia feito por Néstor Almendros. Já a edição e a condução das cenas são altamente reflexivas, eruditizadas, de senso crítico apurado como só Malick poderia fazer. O voice over (gravação em off) usado pelo diretor é diferente de seus outros trabalhos porque neste usou-se uma personagem secundária narrando de maneira inusitada – uma garota é a responsável por guiar pela história e, claro, o faz como crianças fariam: sem muitos detalhes, vemos apenas o que ela vê; o resto fica por conta da imaginação. A atriz Linda Manz foi chamada já na pós-produção para improvisar enquanto assistia as cenas, resultando em monólogos ricos, formados de pequenos comentários que transformaram Linda – a personagem – em uma menina sábia, prática e objetiva. Diferentemente dos outros filmes que já fez, o roteiro de Malick desta vez não enuncia lirismo e abstrações com tanta intensidade. A poesia está a cargo da fotografia, da narração infantil e da música. Esta, produto do gênio e mestre Ennio Morricone,  maravilhosa  e tão viva como qualquer outro personagem, aponta com emoção o que está por vir, causando espanto e admiração aos espectadores. Curiosidade: a música dos créditos iniciais é “Aquarium” do compositor francês Camille Saint-Saëns, que muito se assemelha à trilha de A Bela e a Fera da Disney, lançado muitos anos depois.

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Não se pode esquecer de Jack Fisk, diretor de arte, cenógrafo e designer de produção de Malick desde os primórdios. Graças a ele, acreditar que atores tão modernos nos anos 70 eram pessoas vivendo no início do século passado numa fazenda texana foi possível. Toda a construção de cores e conceito deve-se a ele e a Almendros, unidos num projeto que marcou a história do cinema americano.

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O maior trunfo do simplista enredo de Cinzas do Paraíso é mostrar a praticidade do coração humano em se tratando de amor e realidade. Futuro, riqueza, segurança, amor arrebatador e amor construído… Em Cinzas do Paraíso não há conto-de-fadas ou amor de novela. Bill, Abby e o Fazendeiro são pessoas de carne e osso, que amam e ao mesmo tempo odeiam, desconfiam, são boas e ruins, enganam e são enganadas, que têm ambições e procuram meios que (acham que) justificarão os fins.

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Título original: Days of Heaven
Direção: Terrence Malick
Produção: Bert Schneider e Harold Schneider
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Richard Gere, Brooke Adams, Linda Manz, Sam Shepard, Robert J. Wilke e Jackie Shultis
Lançamento: 1978
Nota:[quatro ]