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Diabo a Quatro

FALE EM MARX HOJE EM DIA E A IMAGEM IMEDIATA AINDA SERÁ O BARBUDÃO DO KARL, mesmo que a maioria de suas idéias tenha ficado soterrada sob a poeira do muro de Berlim. Mas o cinema já presenteou o mundo com uma trupe de comediantes em família que, ainda mais com tanta comédia acéfala surgindo por aí nas telas grandes e pequenas, merece ser revista sempre para lembrar que pode existir mais do que escatologia no humor: os irmãos Marx.

Dos quatro, o mais famoso é Groucho Marx. O bigode estranhamente pintado e os óculos redondos, lembrando aqueles óculos de plástico com nariz e bigode acoplados, tornaram seu rosto icônico, e muitas de suas frases ainda são célebres – não é difícil encontrar algumas, como “Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio“, em assinaturas de e-mails ou fóruns de discussão. Mas se Zeppo Marx definitivamente não tinha a mesma graça, Chico e Harpo também eram palhaços de primeira linha.

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“Diabo a Quatro” traz os irmãos Marx em sua melhor forma, com gags físicas bem ensaiadas e tantas piadas por minuto que é difícil acompanhar tudo de primeira. Também há uma abundância de trocadilhos, então certifique-se que a legenda seja bem traduzida. Eu assisti a uma cópia com legenda lusitana, do tipo que escreve “oiro” em vez de “ouro”. Uma cousa de doudo.

No filme, Groucho Marx é o líder de um pequeno e fictício país, a Freedonia. Ter Groucho como governante é um disparate tão grande quanto ver Carlitos comandando a Tomania em “O Grande Ditador” ou, sei lá, George W. Bush presidente dos Estados Unidos. Ele não tem pudor em sacanear seus ministros, nem em declarar guerra pelos motivos mais bestas – chegando, ele próprio, a lutar nas loucas batalhas que encerram o filme.

Chico e Harpo, por sua vez, são dois espiões com a missão de roubar informações do líder da Tomania. Os dois são excelentes, mas o destaque é Harpo, que não diz uma palavra, tem a mania de cortar coisas alheias (cabelos, pedaços de roupas) com sua tesoura e vive tirando objetos absurdos do bolso, como um Pernalonga em carne e osso. A melhor seqüência do filme é quando Chico e Harpo se disfarçam como Groucho, incluindo o pijama com gorrinho que ele vestia na hora, dando origem a cenas memoráveis como a do espelho, tão imitada posteriormente em zilhões de filmes e cartuns.

Mesmo com seu tempo curto (meros 70 minutos), “Diabo a Quatro” é freqüentemente citado na lista dos melhores. O American Film Institute, por exemplo, o elegeu como o sexagésimo melhor filme de todos os tempos e a quinta melhor comédia. Não sei se o considero perfeito desse jeito – admito que os números musicais não me apetecem muito – mas fica a dica de um humor diferente, para quem costuma evitar a prateleira de comédia da locadora achando que tudo é Adam Sandler ou Todo Mundo em Pânico. E quantos filmes têm a honra de terem sido proibidos por Benito Mussolini em pessoa?

“Duck Soup”, 1933
Direção de Leo McCarey