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Coringa (com spoilers)

Coringa é o filme do Batman ao contrário.

ESTE REVIEW CONTÉM SPOILERS. APRECIE COM MODERAÇÃO!

ASSISTA À CRÍTICA DA DANI PACHECO, SEM SPOILERS, AQUI.

 

Os filmes do Batman partem da perspectiva de um bilionário socialmente isolado, que usa seus infinitos recursos financeiros e tempo livre para cometer atos violentos porque nunca superou o trauma psicológico de ter perdido os pais. Coringa (EUA, 2019) parte da perspectiva de alguém às margens da sociedade, socialmente isolado, com problemas psicológicos, que começa a cometer atos violentos.

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Mas as semelhanças entre os filmes terminam por aí. Coringa parece ter sido feito como uma antítese às produções do Batman.

Nos longas do homem-morcego, como na maior parte dos filmes de ação, a violência e a morte são justificadas porque são feitas contra criminosos ou terroristas. Não é raro que retratem esses indivíduos como pertencentes a minorias, estrangeiros ou desajustados.

Coringa não é uma dessas produções. Não é um filme de ação. Não tem criminosos ou terroristas. O “herói” não ganha no final. Coringa mata exatamente seis pessoas; pelo menos duas em legitima defesa. É uma contagem de corpos muito menor do que as de muitos heróis do gênero ação.

Nos filmes do Batman, o vilão é apresentado como um psicopata brilhante, com planos super elaborados para instigar o caos social. Esse tipo de Coringa funciona sempre como um nêmesis para o herói. A violência do homem-morcego se torna justificável a partir das ações de seu antagonista.

O Coringa de Todd Phillips é praticamente a definição de um “loser”, um esquisitão, um pária social. Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) cuida da mãe doente e faz trabalho de palhaço no hospital para alegrar crianças com câncer. Não elabora nenhum plano brilhante, pelo contrário, é levado pelas circunstâncias. E o caos social já está instalado na cidade.

Enquanto a Gotham City dos filmes do Batman é retratada como uma cidade corrupta sempre assolada por ondas de crimes, justificando a presença do herói mascarado, em Coringa, Gotham também é decadente, mas por outros motivos. Logo no inicio da película, ao invés de ondas de crime, ficamos sabemos sobre uma persistente greve de lixeiros.

Uma constante no roteiro é o foco em como a desigualdade da cidade agrava os problemas sociais. Um dos pontos para a piora no estado mental de Fleck não é ser jogado em um poço de produtos químicos, mas o fato da prefeitura cortar o financiamento público para o atendimento à saúde mental.

Principalmente nos filmes do Christopher Nolan, Batman se esforça para ser um símbolo. Um símbolo de justiça, mesmo que o vigilante aja fora da lei como uma pessoa anônima e mascarada.

Coringa também se torna um símbolo no filme dele, mas totalmente sem querer. Na verdade, o estopim para o caos social vem de cima, de Thomas Wayne (Brett Cullen) – pai de Bruce Wayne -, quando o bilionário diz que os desfavorecidos têm inveja dos ricos e chama aqueles que não conseguiram ser “vencedores” de palhaços.

É a partir daí que a máscara do palhaço torna-se um símbolo de protestos e manifestações populares. Uma espécie de equivalente à máscara de Guy Fawkes, que se tornou, no começo dos anos 2000, popularizada pelo grupo Anonymous, um símbolo de rebelião e anarquia.

Coringa sempre encarnou a antítese do que o Batman representa: enquanto o herói representa a ordem, o vilão é uma força do caos. O filme Coringa levou essa dicotomia um pouco mais além: enquanto Batman legitima a força do indivíduo e o poder do dinheiro, Coringa representa o outro lado da moeda: a revolta dos que foram coletivamente esquecidos e deixados por baixo.