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Crítica: 118 Dias

Poster do filme 118 DiasA história de Maziar Bahari foi complicada. Natural do Irã, o jornalista estava no país para cobrir as eleições presidenciais de 2009 pela Newsweek, foi preso e somente liberado após 118 dias. Sem contar a tortura que sofreu por ser considerado um espião e a noiva grávida que deixou em casa, em Londres, durante o período. Dois anos depois, ele lançou o livro Then They Came for Me: A Family’s Story of Love, Captivity and Survival, relatando o que passou por lá. Interessado na história comovente de Bahari, o também jornalista Jon Stewart resolveu levá-la para a telona em 118 Dias (Rosewater, EUA, 2014), uma adaptação bem feita, mas que não nos envolve em quase nenhum momento e falha em pontos cruciais.

A produção inicia relatando um pouco o passado de Maziar (Gael García Bernal), ao lado da família no Irã quando criança, e depois vai para 21 de junho de 2009, data em que foi preso na casa da mãe no Irã (os anos que viveu no Canadá não são mencionados). Quando está no carro em direção à prisão de Evin, o roteiro nos leva a 11 dias antes do acontecimento, no apartamento do protagonista, e acompanhamos sua chegada a Teerã, a cobertura das eleições, os conflitos nas ruas e os longos e duros meses que passou na prisão antes de ser libertado.

De maneira geral, a adaptação do estreante Stewart é fiel à vida de Bahari. A questão familiar, seu trabalho como jornalista e a contextualização histórica foram bem feitos, incluindo até certas críticas a atitudes do governo americano no passado, a fim de atender os seus próprios interesses, independentemente do que aconteceria no Irã. Isso até me lembrou a introdução de Argo para ser sincera. O cineasta ainda utiliza de recursos de flashback para simular conversas com o pai (Haluk Bilginer) e irmã (Golshifteh Farahani) já mortos.

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Além disso, foi interessante ver a exploração do diretor no ambiente pré, durante e após as eleições, focando, obviamente, nas expectativas do povo em relação ao candidato reformista Mir Hussein Mussavi. Um dos debates ocorridos foi exibido, uma entrevista de Bahari com Alireza (Amir El-Masry), garoto propaganda de Mahmoud Ahmadinejad, e, é claro, a insatisfação geral com o resultado das eleições, a qual culminou em fortes protestos no país e dezenas de mortos, sem contar os milhares de presos. Destaco também que mensagem de esperança e mudança que fica não é nova, mas a maneira que é apresentada no desfecho consegue nos tocar consideravelmente.

Por outro lado, 118 Dias falha em pontos cruciais. Primeiramente, o filme dá a entender que o personagem principal foi preso principalmente em função de imagens que captou da violência nas ruas e um civil sendo morto, as quais foram exibidas globalmente depois. Na verdade, o maior motivo pelo qual foi preso foi a entrevista que deu ao comediante Jason Jones (interpreta ele mesmo), na qual brinca que é um espião americano. A mesma chega a ser mencionada em um dos diversos interrogatórios que sofre no futuro, mas não como fator chave para ter sido detido.

Crítica do filme 118 Dias

Em segundo lugar, o homem que dá título ao longa, Rosewater (Kim Bodnia), é muito mal estudado. Você pensa: “Ok, deram o nome dele ao longa, então vamos ter uma atenção especial a ele”. Mas não. O ator é excelente e as cenas que compartilha com Bernal são ótimas em alguns momentos – o mexicano também está impecável -, só que o roteiro simplesmente o deixa de lado. Stewart focou tanto em Bahari que acabou esquecendo do seu interrogador e isso prejudica muito a história. Apesar de ser comovente ver as esperanças do jornalista irem diminuindo com o tempo e ele mal esperar para ver a família novamente, especialmente a mulher que espera um bebê seu, foi difícil se envolver. Os diálogos que têm são, em sua maioria, sem conteúdo, restando, majoritariamente, cenas de xingamentos, ameaças e torturas que nem são tão impactantes (somente uma em que Rosewater faz o preso ligar para esposa e outra em que puxa o gatilho de uma arma descarregada).

Outra falha foi o fato de Stewart não ter explorado no enredo a parte externa à prisão de Evin, somente nos minutos finais. Talvez se ele tivesse mostrado mais cenas da esposa Paola (Claire Foy) e mãe (Shohreh Aghdashloo) sofrendo e buscando ajuda com jornais e órgãos internacionais, o espectador sentiria mais emoções e torceria ainda mais para Bahari sair logo da prisão. Sem contar que faltou revelar nos créditos que ele foi solto após o pagamento de uma fiança de 300 mil dólares.

No fim das contas, mesmo com os dois protagonistas fazendo um excelente trabalho, assim como o restante do elenco, e uma tentativa ousada de contar ao mundo a história de Bahari, 118 Dias fica abaixo das expectativas. Talvez Stewart devesse ter feito um filme tão complexo e polêmico como esse com mais experiência atrás das câmeras, pois, assim, não teria deixado de lado tantas informações importantes e até mesmo o título teria sido outro.

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