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Filme: As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto (Mostra de São Paulo 2015)

As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto

Em um longo (e metalinguístico) prólogo que abre esta primeira parte de suas Mil e Uma Noites, o cineasta Miguel Gomes em carne e osso explica sua proposta para o projeto: esta não é, como os letreiros que abriram a projeção já deixaram claro, uma adaptação da antologia clássica narrada por Xerazade – embora se inspire em sua estrutura. Ao invés disso, Gomes decidiu impor a si mesmo o desafio de contar histórias ficcionais envolventes (assim como fazia a esposa do rei Xariar) ao mesmo tempo em que as usa para comentar a caótica situação econômica em que Portugal e boa parte da Europa encontram-se mergulhados – uma tarefa que, ao menos neste O Inquieto, ele consegue fazer apesar da estrutura desconjuntada que adota.

Pois não é preciso mais de meia hora de projeção para percebermos que a opção de Gomes (e dos co-roteiristas Telmo Churro e Mariana Ricardo) de envolver segmentos aparentemente tão aleatórios na “moldura” das Mil e Uma Noites (há inclusive pequenas sequências que estabelecem um tempo-espaço desconhecido no antigo mundo árabe como ponto de origem das histórias, apesar do anacronismo) tem um único objetivo compreensível: criar alguma estrutura, qualquer que seja, que organize em uma ordem mais ou menos lógica todas as suas ideias acerca de… bem, de praticamente qualquer tema que lhe apeteça discorrer.

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É claro que, principalmente depois de assistirmos a um prólogo tão autoexplicativo, é impossível não enxergar o diretor desenvolvendo suas teses sociopolíticas “por trás” das historinhas normalmente engraçadinhas que atravessam a tela: em uma, um grupo de políticos prestes a tomar uma decisão importante é enfeitiçado por uma magia que deixa seus pênis ininterruptamente eretos – em um comentário óbvio (mas divertidinho) sobre a incapacidade dos governantes do país de se preocuparem com qualquer outra coisa que não seja suas próprias necessidades imediatas; já em outra, um galo começa a cantar o dia inteiro e a criar antipatia entre os moradores de uma pequena cidade – neste caso, há até um diálogo expositivo ajudando os mais desatentos a entender a analogia à necessidade do povo “levantar a voz” diante dos abusos impostos pelas autoridades.

Caminhando sempre sobre a finíssima linha que separa ficção e documentário, o longa volta e meia leva suas câmeras às ruas de Portugal, registrando o desespero de homens e mulheres que não só perderam seus empregos como têm enfrentado terríveis leis de austeridade fiscal – e se boa parte da projeção soa um tanto indecisa e sem foco em relação aos reais objetivos do projeto, seu terceiro ato, dedicado a depoimentos de desempregados que precisaram partir para os planos B, C e D para manter suas casas e famílias, funciona como um retrato triste e honesto de uma nação em frangalhos.

A conclusão a que chegamos ao final das mais de duas horas deste As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, portanto, é que menos é mais – e tanto uma câmera na mão em meio a uma multidão enraivecida quanto um quadro estático diante de trabalhadores humilhados pelo descaso de seus representantes pode falar muito mais que um grande projeto épico dividido em três partes enormes.

Uma lição que, a julgar pelos maravilhosos Aquele Querido Mês de Agosto e Tabu, Gomes já parecia ter aprendido há muito tempo.

As Mil e um Noites: Volume 1, O Inquieto (Idem, Portugal, 2015). Escrito e dirigido por Miguel Gomes. Com Crista Alfaiate, Dinarte Branco, Carloto Cotta, Adriano Luz, Joana de Verona, Rogério Samora, Maria Rueff, Cristina Carvalhal, Luísa Cruz, Américo Silva, Diogo Dória, Bruno Bravo, Tiago Fagulha, Teresa Madruga, Chico Chapas, Carla Maciel e Margarida Carpinteiro.

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