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Crítica: Campo de Jogo – Mostra de SP

Campo de Jogo (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Eryk Rocha. Escrito por Eryk Rocha e Juan Posada.

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #54

Como experimento, o documentário Campo de Jogo é surpreendentemente bem sucedido: ao longo de mais de uma hora, o filme dirigido por Eryk Rocha se propõe a registrar a final do campeonato carioca de favelas, disputada entre os times Geração (representante da favela Matriz) e Juventude (representante da favela Sampaio), concentrando-se estritamente na ação transcorrida em campo enquanto a bola rola e conseguindo manter o espectador não só atento ao que se passa na tela, mas também intelectualmente disposto a refletir as implicações sociais de um evento que, em última análise, funciona como instrumento de identidade e fortalecimento da auto-estima de seus participantes e torcedores. Infelizmente, o longa acaba sendo sabotado por sua própria proposta, pois, pois mais interessante que seja (e é), ele jamais deixa de funcionar apenas como uma experiência curiosa.

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Partindo de planos gerais a closes dos rostos suados e inserts dos pés embarrados e da bola surrada e utilizando câmera na mão, câmera lenta, planos subjetivos e todo recurso de linguagem que se possa imaginar para registrar uma simples partida de futebol, Rocha faz em Campo de Jogo um filme não sobre o esporte em si, mas sobre tudo o que aquele evento representa para a vida daquelas pessoas humildes e de esperanças limitadas – e basta observar, logo no início da projeção, a “garra” excessiva demonstrada pelos atletas durante os treinamentos e a entrega que eles demonstram já nas rezas do Pai Nosso e da Ave Maria que antecedem a partida decisiva para compreender que, mais do que a supremacia diante da favela rival, o que está em jogo são os sentimentos de pertencimento, realização pessoal (ainda que fugaz) e, principalmente, visibilidade.

Pouco preocupado com o jogo propriamente dito e sempre interessado nos homens que o fazem (é comum que o diretor enquadre uma jogada específica apenas para perder a bola de vista e manter-se focado em determinado jogador e suas reações momentâneas), Rocha demonstra seu humanismo ao trazer ao centro do “espetáculo” figuras tradicionalmente esquecidas pelas transmissões esportivas tradicionais de eventos de projeção nacional, como os gandulas, os defensores que aguardam a cobrança de uma falta ou os torcedores fanáticos que depositam no que acontece no gramado a responsabilidade por sua felicidade. A ideia não tem nada de muito original, claro, já que desde o Império Romano sabe-se que o circo costuma ser servido como substituto do pão, mas a maneira fluída e genuinamente antropocêntrica com a qual Rocha a desenvolve torna Campo de Jogo um exercício narrativo eficaz e estimulante.

Exercício esse que, limitado a uma proposta de alcance limitado, não chega a gerar um filme memorável – mas que, dentro das quatro linhas de seus 71 minutos de projeção, funciona como uma janela aberta para uma realidade dura e enfeitada às duras penas pela ilusão do futebol.