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Crítica de Colateral (2004)

poster do filme colateralO CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Colateral possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

ENGANA-SE QUEM PENSA QUE O VAMPIRO LESTAT DE ENTREVISTA COM O VAMPIRO É O ÚNICO VILÃO DA CARREIRA DE TOM CRUISE. O astro da franquia Missão: Impossível viveu um grisalho e implacável matador de aluguel sob as câmeras de Michael Mann no thriller Colateral, de 2004.

A maioria das pessoas costuma associar Cruise ao mocinho ou galã das produções. Consciente disso, o próprio ator trata de mudar o visual e deixa o diretor conduzi-lo por uma narrativa fora dos padrões a que o público está acostumado quando se pensa em Cruise. Colateral apresenta a história de um motorista de táxi (Jamie Foxx) sequestrado por um matador, que executa um alvo em cada “parada” do trajeto.

Colateral não funcionaria tão bem se não tivesse um Jamie Foxx inspirado para contracenar com Cruise. Foxx é carismático e convence a gente que é um cara cheio de ambições, mas que é frustrado pela realidade. Por isso mantém o sonho (há 12 anos cada vez mais distante) de ter sua empresa de limousines, como se fosse uma desculpa para continuar dirigindo um táxi. 

O roteiro tem algumas coisas “engraçadinhas”, como o sarcasmo do matador. Ele demonstra uma calma além do comum, que é até aceitável ao pensar que se trata de um matador. No entanto, ver o personagem de Foxx entrando um pouco no jogo acaba sendo um pouco esquisito – mas não ao ponto de estragar a narrativa e o belo trabalho de Mann apresentando a trama. 

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Gosto das rimas presentes na história. Em determinado momento, Cruise diz que Los Angeles é uma cidade fria em que ninguém se importa com ninguém, e conta a história de um homem que morreu no metrô e demorou horas até alguém notar. O próprio personagem de Cruise morre num vagão e nos faz pensar se alguém vai notar seu corpo esfriando.

Existem algumas breves participações especiais ao longo da narrativa: Jason Statham faz 30 segundos de participação nos minutos iniciais; Javier Bardem aparece como um traficante cheio de traumas com o Papai Noel; e Mark Ruffalo é um policial que desconfia de algo, mas morre antes de mostrar maior importância para a história. Acredito que a intenção de Michael Mann, mais que “imitar” Quentin Tarantino ou Terrence Malick com seus grandes elencos, seja mostrar a frieza da vida. Não é porque “reconhecemos” aquele rosto que ele necessita ter espaço para servir para algum propósito diferente de aparecer e morrer.

Por fim, assim como se repetiria em Miami Vice, Michael Mann coloca uma canção do Audioslave para representar os seus personagens. “Shadow in the Sun”, faixa do disco homônimo da banda, é ouvida numa sequência em que Foxx e Cruise se veem diante uma raposa no meio da cidade. Aceitando que será mais uma vítima do assassino eventualmente, o motorista decide ligar o foda-se, pisar fundo no acelerador e causar um acidente. 

Colateral é indicado para todos os fãs de produções de suspense feitas com carinho e atenção de quem entende do assunto. Michael Mann, como já fiz questão de deixar bem claro em outras oportunidades, está entre os grandes cineastas dos últimos anos (procure Fogo Contra Fogo, O Informante ou até Inimigos Públicos para se certificar disso), e seu trabalho aqui é mais uma amostra do quanto é eficiente contando histórias. 

Crítica do filme Colateral no 365 Filmes em um Ano no nosso canal no YouTube: