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Crítica de O Informante (1999)

crítica o informanteVIVEMOS UM MOMENTO NO NOSSO JORNALISMO EM QUE REVISITAR O INFORMANTE (The Insider, 1999) é uma bela maneira de refletir sobre o que está acontecendo com as denúncias do jornal The Intercept contra as ações do ex-Juiz Sérgio Moro que levaram à prisão do ex-Presidente Lula.

Antes de mais nada é preciso reforçar que o papel do jornalismo, no sentido mais raiz da palavra, deu origem a produções inesquecíveis. Como ignorar Todos os Homens do Presidente e a cobertura do escândalo de Watergate? Ou o recentemente premiado Spotlight, sobre a pedofilia? 

O jornalismo sério é implacável. Quando encontra uma notícia, não solta o osso até conseguir publicar tudo que sabe e derrubar aqueles que cometeram crimes. Em O Informante, o jornalismo bate de frente com os interesses dos administradores do jornal. Ou seja, a ética profissional se depara com as necessidades financeiras. Boa parte da narrativa é dedicada para mostrar esse obstáculo que cala a voz de milhares de profissionais.

Michael Mann é um cineasta talentoso e com um estilo muito próprio de realizar suas narrativas. Sua câmera documental balança o tempo inteiro e se aproxima de seus personagens para mostrar sua tensão, seus pensamentos, seus medos. Impossível não viver as obras do diretor como se fizessemos parte da história. 

Ao trabalhar numa narrativa que combate a indústria do tabaco, Mann consegue envolver seu público e mexer diretamente nas emoções de quem conviveu com pessoas viciadas. Quando temos o depoimento de um executivo afirmando, em julgamento, que o cigarro não vicia, nós sentimos indignação e raiva da cara de pau. Esse sentimento permanece conosco na medida em que aumenta nosso desejo de justiça para ver esses executivos pagando pelas suas mentiras. 

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Assim como em outras obras, como Fogo contra Fogo e Colateral, Michael Mann e o diretor de fotografia Dante Spinotti trabalham muito com a paleta de cor azul para mostrar o estado de espírito de seu protagonista. Em determinada cena de O Informante, Al Pacino aparece descansando na sua casa de praia e assistimos a um espetáculo azulado que representa tudo que aquele personagem sente: contentamento e tristeza com as decisões dos grandes executivos, mas ao mesmo tempo… ele está em contato com a natureza, com a força renovadora do oceano. Isso significa transformação e um incentivo a mais para mudar o jogo – como ele acaba fazendo. 

Em comparação com a nossa realidade, a mensagem do filme seria algo como: questionem tudo, questionem sempre. E nunca acreditem que as pessoas são incorruptíveis. Ao ser colocado em descrédito, o jornalista vivido por Pacino coloca toda sua energia em fazer valer a sua palavra e o que prometeu para a sua fonte. Ele compra uma briga com o sistema e mesmo vencendo no fim, sai derrotado ao constatar que é tudo mais podre do que ele imagina. 

O Informante recebeu 7 indicações ao Oscar de 2000, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor (única indicação da carreira de Michael Mann, inclusive). Infelizmente não se consagrou em nenhuma das categorias, mas deixa uma reflexão crua sobre a realidade do mundo dos negócios: não importam as suas intenções ou o quanto o crime é grave, se houver dinheiro envolvido, ele sempre vai ter a palavra final. 

Obrigatório para qualquer estudante de comunicação que queira descobrir os melhores filmes de jornalismo. Clique abaixo para assistir a crítica de O Informante em vídeo na edição 202 do projeto 365 Filmes em um Ano:

https://youtu.be/jNWqpjNtMQg