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Crítica de Promising Young Woman: Um Soco na Cultura do Silêncio

Dani Pacheco analisa a poderosa crítica social de Emerald Fennell.

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Crítica de Promising Young Woman: Um Soco na Cultura do Silêncio

A cultura do silêncio é um dos principais males da humanidade. É quase impossível não existir uma pessoa no seu ciclo social que não tenha sofrido algum tipo de assédio sexual, seja na vida profissional ou pessoal. Ou em ambas. Você pode até dizer que não conhece alguém, mas é bem possível que não conheça porque esse alguém não lhe contou. Ou até contou, mas você diminuiu o ocorrido sem nem perceber. Sabe aquele cara que puxa o seu cabelo na balada? Passa a mão na sua bunda? Ele está te assediando. Sabe quando seu namorado insiste em fazer sexo com você, mesmo com você dizendo que não quer, e consegue? Ele te estuprou porque não foi um ato consensual. É mais comum do que você imagina.

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Enredo

Em Promising Young Woman (EUA, 2020), a estreante Emerald Fennell literalmente dá um soco nessa doença que domina o mundo há tanto tempo. Porque é isso que a cultura do silêncio é: uma doença. No filme, Cassie (Carey Mulligan) largou o curso de Medicina após um acontecimento trágico com a sua melhor amiga, Nina. Desde então, ela tem o costume de ir à bares e boates, fingir que está bêbada, e testar o comportamento de homens diante do seu estado. O resultado é repugnante, especialmente porque sabemos que isso é algo totalmente normalizado na sociedade.

Ao longo dessa comédia sombria (parece drama, mas o longa tem bastante humor), deparamos-nos com uma série de rostos fofos. Entre eles, Adam Brody, nosso eterno Seth Cohen de The OC; Christopher Mintz-Plasse, o McLovin de Superbad; e Max Greenfield, o hilário Schmidt de New Girl. Parecem pessoas inofensivas e engraçadas, até verem uma mulher bêbada, ou quase inconsciente, na sua frente.

Respeito

Respeito é uma palavra que as pessoas parecem ter esquecido o significado. Ou talvez nunca o tenham, de fato, compreendido. O corpo de um indivíduo é dele e somente dele. Se ele ou ela lhe der permissão, você pode tocá-lo. Caso contrário, fique na sua. Se essa pessoa estiver bêbada, isso não altera em nada a situação. Aliás, aproveitar o estado consciente de alguém, para poder tocá-la sem que ela perceba ou porque está vulnerável, é nojento. O caso de Robinho, condenado duas vezes por estupro na Itália, é um ótimo exemplo disso. E existem “seres humanos” que ainda o defendem e dão likes nas redes sociais.

Fennell nos mostra o que é ser uma mulher em situações vulneráveis de maneira dura, mas é a realidade. Não fique chocado ao assistir às cenas, pois é exatamente isso que ocorre no mundo real. A cineasta escancara o assédio sexual na nossa frente, que é algo que a sociedade insiste em silenciar, ou fingir que não vê, pois é mais fácil ignorar o elefante branco na sala do que tirá-lo de lá.

Saúde Mental

Nunca diminua o sofrimento de uma pessoa. Muito menos ignore a sua fala, ou a culpe por algo que aconteceu. Você não sabe o que ela está passando, especialmente dentro da sua cabeça. Ao longo da produção, Cassie se depara com diversos personagens que fazem exatamente isso, e dói; dá raiva, dá ódio. Para quem acompanha o Oscar, na edição de 2016 a cantora Lady Gaga cantou “Til It Happens To You”, indicada ao prêmio de Melhor Canção Original na época. Ao fim, diversas vítimas de estupro entraram no palco e, junto com ela – outra vítima do crime -, levantaram os braços. São sobreviventes também. Sim, pessoas cometem suicídio porque foram abusadas sexualmente, caso não saiba. E jamais julgue isso.

A discussão é séria. Uma mulher bêbada não é motivo de risos ou olhares de negação. Quer ajudá-la? Ok, leve-a pra casa ou ao hospital. Beijá-la, passar a mão no seu corpo e/ou transar com ela é crime. E a culpa não é dela; não é da roupa “curta” que usa; não é do quanto bebeu. A culpa é de quem a violentou. “Ah, mas estávamos bêbados também; estávamos nos divertindo; éramos muito jovens; ela pediu, né?”. Isso não é desculpa, mas total falta de caráter. Quer dizer, até o mesmo acontecer com ela ou alguém próximo. Aí, o crítico ou crítica muda de ideia porque sente na pele.

Veredito

Cassie joga na cara dos espectadores os podres do mundo e tenta fazer algo a respeito, ao invés de fingir que não é com ela. Nas quase duas horas de Promising Young Woman, Fennell nos dá uma lição sobre respeito e decência. Uma lição bastante forte, já lhes aviso. É como se levássemos uma pancada no nosso corpo e mente, de uma só vez. Multiplique por mil e tente imaginar, então, como que uma vítima de assédio sexual se sente. Portanto, não faça isso com alguém, muito menos questione alguém que lhe relata algo a respeito. Tenha humanidade.

Bônus

Mulligan está poderosa em cada cena que aparece, fazendo jus à brilhantemente escrita Cassie. Mas não preste atenção somente na atriz e na crítica feroz de Fennell à cultura do silêncio. A trilha sonora foi escolhida a dedo, recheada de canções interpretadas por mulheres. A releitura de “Toxic” não só é usada na hora perfeita, como resume bem a crítica do filme.

 

Crítica de Promising Young Woman: Um Soco na Cultura do Silêncio

Forte candidato ao Oscar 2021.