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Crítica: Duas Irmãs, Uma Paixão – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #47

Crítica Duas Irmãs, Uma Paixão

Reza a lenda que o poeta, escritor e filósofo alemão Johann Christoph Friedrich von Schiller, considerado um dos fundadores do Romantismo Alemão e do Classicismo de Weimar ao lado de Goethe, Wieland e Herder (e que neste Duas Irmãs, Uma Paixão é vivido por Florian Stetter), viveu um intenso triângulo amoroso consentido com as irmãs Caroline (Herzsprung) e Charlotte (Confurius) von Lengefeld, casando-se com a segunda, a mais nova, para abrandar o falatório da comunidade em que vivia e conseguir manter-se próximo de ambas sob o protecionismo da própria mãe das garotas (Messner). É um tema ousado para um longa épico ambientado no fim da Europa aristocrática, portanto, mas que o diretor Dominik Grag aborda de maneira decepcionantemente burocrática ao tentar emular os romances de Jane Austen levados às telas por Joe Wright.

Candidato alemão a uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015, Duas Irmãs, Uma Paixão tem início com um longo – e inútil – prólogo em que Charlotte é enviada à casa de uma tia em Weimar para aprender os modos aristocráticos a fim de transformar-se em uma dama da corte e arranjar um marido rico que possa salvar sua família da falência iminente. Não se apaixonando por nenhum dos seus pretendentes (e decepcionando a todos por se valorizar dessa maneira apesar de seu baixo “valor de mercado”), a garota acaba conhecendo o desajeitado poeta amador Friedrich, que passa a cortejá-la e, a partir de uma cena em que precisa ser aquecido nu pelos corpos de Charlotte e Caroline após tentar salvar um cachorrinho de um afogamento, começa a desenvolver uma proximidade com as duas e a corresponder-se simultaneamente (de maneira literal, escrevendo com as duas mãos ao mesmo tempo) com ambas.

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Fazendo uma recriação de época excepcional através de sua direção de arte e figurinos (o mínimo que um filme como este tem a obrigação de fazer, afinal de contas), o longa até desperta certo interesse ao apresentar ao espectador as dificuldades enfrentadas pelo povo de sua época, que sonhava com um mundo em que todos poderiam ter acesso a qualquer livro que bem entendessem e as mulheres eram proibidas até mesmo de manter uma conversa amigável com um transeunte qualquer sob o risco de serem consideradas vulgares e “fáceis”. É uma pena, portanto, que a partir de seu segundo ato a história assuma um caráter tão batido e redundante, passando a investir desesperadamente no melodrama e a plantar conflitos artificiais no caminho dos personagens a fim de criar a ilusão de que sua trama está andando – e não, o fato de em determinado momento Charlotte verbalizar que “quando se ama, é importante que haja obstáculos a ser enfrentados”, em uma tentativa tímida de metalinguagem, não redime o frágil roteiro (escrito pelo próprio Graf) de sua previsibilidade.

Montado de forma extremamente problemática por Claudia Wolscht, Duas Irmãs, Uma Paixão é daqueles filmes em que você nunca sabe quanto tempo se passou entre uma cena e outra, sendo constantemente surpreendido ao ouvir os personagens citando as datas dos últimos eventos vistos na tela e perceber que apesar disso os personagens mantém-se com o mesmíssimo rosto desde o início da projeção. E por falar nos personagens, se há um motivo que torna a projeção relativamente interessante é a vivacidade da bela Hannah Herzsprung, que, vivendo Charlotte como uma mulher determinada e dona de suas próprias ideias, nos conquista a torcermos pelos rumos da personagem. Por outro lado, Henriette Confurius e Florian Stetter jamais conseguem criar a mínima empatia, afastando o espectador e tornando a experiência toda ainda mais aborrecida.

Com um final arrastado que parece não fazer a menor ideia de onde quer chegar, Duas Irmãs, Uma Paixão é um épico que até parte de uma boa premissa e a estabelece de maneira razoavelmente intrigante, mas não demora muito para assumir-se como um projeto convencional que poderia muito bem ter saído da linha de produção de Hollywood.

poster duas irmas uma paixao

Duas Irmãs, Uma Paixão (Die Geliebten Schwestern, Alemanha, 2014). Escrito e dirigido por Dominik Graf. Com Henriette Confurius, Florian Stetter, Hannah Herzsprung e Claudia Messner.

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