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Crítica: Ida

 

“Você não tem ideia do efeito que provoca, não é?”
“Você não tem ideia do efeito que provoca, não é?”

Inocência, substantivo feminino: Qualidade ou estado de inocente. Ignorância do mal.
Pureza. Simplicidade. Ingenuidade. Isenção de culpa.

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DEPOIS DE REALIZAR TRABALHOS MAIS CONVENCIONAIS EM DIVERSOS PAÍSES, com atores como Ethan Hawke, Emily Blunt e Paddy Considine, o diretor Pawel Pawlikowski retorna à Polônia, sua terra natal, para apresentar uma proposta de encenação, tanto inusitada quanto anacrônica, dos conflitos políticos que marcaram a Europa ao longo do século XX, conquistando grande parte da crítica com um olhar preciosista, mas sucinto, sem proporções épicas.

Elementos bem inusitados compõem a dinâmica de Ida, um dos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Ao início da projeção, o expectador pode se deixar levar por uma falsa sensação de morosidade na narrativa. Todas as cenas são compostas de planos fixos (exceto os dois minutos finais – escolha peculiar e também justificável). As câmeras não se movem, mas os movimentos dos atores e objetos dispostos definem os acontecimentos num ritmo corrente. Há informações importantes a todo o momento, muitas vezes ludibriadas por enquadramentos que tiram (de forma literal e metafórica) o chão das protagonistas, Anna (Agata Trzebuchowska) e sua tia Wanda (Agata Kulesza), únicas sobreviventes de uma família polonesa aos conflitos da Segunda Guerra Mundial. O recurso ressalta o desnorteamento de uma e a inquietação da outra diante do desaparecimento de um parente, em função de uma disputa irracional – supostamente de ideologias, mas verdadeiramente de posse.

Agata Kulesza e Agata Trzebuchowska
Agata Kulesza e Agata Trzebuchowska

Anna é de família judia, mas durante a invasão nazista é levada para um convento, ainda criança, e rebatizada de Ida, para sua própria proteção. Casta e em vias de se tornar freira, é convencida por sua madre superiora a buscar um contato com Wanda, o que desencadeia revelações, memórias e rancores que afetam o emocional de ambas, até então anestesiadas pela distância.

A angústia das personagens é contida em expressões enigmáticas e momentos de apreensão introspectiva. Wanda, porém, cede a impulsos violentos que a arrematam, de uma cólera acumulada. Anna, ao contrário, não expõe seu caos interior. A princípio inocente sobre sua própria história, a protagonista usa da impassibilidade que aprendeu a ter em sua rígida e enclausurada formação religiosa para lidar com os dilemas existenciais de seu tempo. Uma perfeita antítese da personagem de Emily Watson em Ondas do Destino, de Lars Von Trier, ela se deixa tocar sem se contrair pelas reações externas ao seu ser – e prova do que se privará afinal, enquanto freira.

critica ida

A trilha sonora, quase sempre diegética, alterna-se entre o erudito, o eclesiástico, o popular e a vanguarda. De Mozart a canções populares da Europa na década de 1960, passando pelo jazz de John Coltrane, há sempre um contato direto com o estado de espírito dos personagens. Outro ponto curioso é a precisão no uso de um formato de tela quase obsoleto (4:3) e a alternância na latitude de exposição e contraste do preto e branco da fotografia, muitas vezes com sombras bem pronunciadas e áreas mais escuras, como breus. Curiosidade: uma cena em específico parece fazer rápida referência a Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, lançado pouco antes da época dos acontecimentos de Ida, que estabelece um questionamento sobre o padrão objetificado da mulher, e também um instinto humano universal, de se vestir e se comportar para agradar aquele com quem se envolve.

Nas trincheiras da guerra entre um ideal falso e outro distorcido, estabelecida nas entrelinhas do filme, temos um personagem nazifascista conservador, anônimo após a derrota, que suporta (em todos os sentidos) a violência da vida com inesgotável ganância e soberba. Trata-se do carrasco de Wanda, uma representante do sócio-comunismo que não suporta a dor da relativização da justiça social, e abandona seu orgulho irredutível diante do trauma da perda. Num pretenso meio-termo, fica a Igreja Católica, não mais energicamente inquisidora, mas perecivelmente contraditória (num link irônico com o cenário atual, em que um papa do terceiro mundo prega a igualdade de direitos e comunga a todos, enraivecendo a elite celestial – e chegando assim mais perto de Jesus do que qualquer outro). Há uma cena emblemática em que Ida, como numa brincadeira de criança, se enrola numa cortina de véu, tecido usado tanto em igrejas quanto em motéis. Tanto em berços quanto em caixões. Estende-se sobre o sagrado e o profano, o nascimento e a morte.

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