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Crítica: Katharine Hepburn: A Grande Kate – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #48

Documentário sobre Katharine Hepburn encanta os fã

Katharine Hepburn: A Grande Kate é um daqueles documentários feitos para a TV sobre celebridades do Cinema que a curadoria da Mostra de São Paulo ama selecionar: curtinho e pouco ambicioso, mantém a atenção do espectador mais pela personagem que aborda que pela maneira como o faz, divertindo durante sua projeção mas não conseguindo acrescentar muito ao nosso conhecimento sobre sua documentada durante o processo.

Dirigido pela dupla Rieke Brendel e Andrew Davies, este documentário sobre a musa vencedora de quatro Oscars de Melhor Atriz (um recorde que permanece imbatível) resgata algumas boas imagens de arquivo, é verdade, como trechos de sua lendária entrevista no Dick Cavett Show, por onde meio mundo de Hollywood passou durante as décadas de 60, 70 e 80 (mas que já deveria ter sido vista no YouTube há um bom tempo pelos cinéfilos mais dedicados) e segundos de uma filmagem – essa sim – raríssima da primeira captação de Hepburn em celuloide durante um desfile do Dia do Trabalho em 1928; mas, na maior parte do tempo, peca por dar atenção excessiva a entrevistados extremamente suspeitos (seu sobrinho que não tem absolutamente nada a acrescentar sobre sua vida e que não parece ter sequer um conhecimento básico sobre Cinema) e/ou irrelevantes em suas tentativas de elogiar a documentada ao invés de jogar uma nova luz sobre ela (a historiadora Deborah Landis, uma das figuras que mais falam durante a projeção, só sabe usar hipérboles e frases feitas e extremamente condescendentes).

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É igualmente decepcionante, aliás, perceber como uma mulher tão desafiadora da ordem vigente como foi Katharine Hepburn (sua postura despojada e seu guarda-roupas ousado são provas disso) gerou um documentário tão burocrático e engessado como este, que elogia sua modernidade e ousadia o tempo todo (inclusive fechando a projeção com a frase favorita de Kate: “Se você obedecer todas as regras, você perde toda a diversão”) mas jamais arrisca ou se permite questionar qualquer paradigma a seu respeito.

Retomando rapidamente (claro, o filme tem 72 minutos) questões como o envolvimento duradouro, mas “extra-oficial” de Kate com o colega Spencer Tracy, que era casado, cristão e, portanto, proibido de se separar da esposa, sua luta pelos direitos das mulheres inclusive dentro da indústria (uma herança de sua mãe feminista) e a doença que prejudicou seus movimentos durante boa parte da terceira idade, Katharine Hepburn: A Grande Kate entretém, passa rápido e não ofende sua biografada.

A não ser, obviamente, por seu descabido conservadorismo.

Katharine Hepburn: A Grande Kate (Katharine Hepburn: The Great Kate, EUA, 2014). Escrito e dirigido por Rieke Brendel e Andrew Davies.