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Crítica: Los Angeles por Ela Mesma – Mostra de SP

Los Angeles por Ela Mesma (Los Angeles Plays Itself, EUA, 2003). Escrito e dirigido por Thom Andersen.

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #53

“Cidade onde a linha entre realidade e representação se torna fina”, a Los Angeles apresentada, comentada e destrinchada pelo documentarista Thom Andersen em Los Angeles por Ela Mesma não deixa de respirar o mesmo ar das celebridades espalhadas pelas centenas de sets de filmagens que são instalados anualmente em seu território (todos facilmente encontrados graças às placas de direcionamento que podem ser encontradas em qualquer uma de suas esquinas), mas o faz, entre uma tossida e outra, através da pesada nuvem de fumaça que qualquer um que a observe do alto de suas hills não pode ignorar. O longa é, portanto, uma declaração de um amor meio platônico, surrado e cansado dos maus-tratos sofridos no decorrer de anos de indiferença e até de um certo cinismo; um amor que já não se ilude mais com o glamour que os outros costumam atribuir à sua musa, mas que não permite que ninguém mais, além de si mesmo, ouse observar que na verdade suas pernas estão cheias de varizes.

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Formado basicamente por cenas de filmes rodados em LA (e é mais do que apropriado se referir à cidade por sua sigla, como Andersen explica em determinado momento), imagens de suas locações tempos depois das filmagens, letreiros que ajudam a situar o espectador tanto nos filmes quanto na cidade em si e uma narração em off em que o diretor discorre acerca da “verdadeira” cidade, se é que há uma, por trás do imaginário criado por Hollywood, Los Angeles por Ela Mesma é um filme-ensaio de quase três horas de duração que busca não só desvendar sua cidade-título, mas também usá-la para comentar a sociedade do espetáculo que ela sedia e representa.

Repleta de restaurantes cenográficos que mantiveram-se “funcionando” apenas como pontos turísticos, restaurantes verdadeiros que se sustentam única e exclusivamente com o dinheiro da indústria cinematográfica e outros que pagam celebridades para serem vistas fingindo comer sua comida a fim de impulsionar as vendas em suas filiais verdadeiras, a Los Angeles de Andersen vive de brincar com o real e o imaginário em um jogo de espelhos que envolve não só os 2,5% de sua população envolvidos diretamente com a máquina de Hollywood, mas também os 97,5% que convivem apenas com a poluição, a criminalidade e a feiura da cidade – e a montagem Seung-Hyun Yoo, obviamente supervisionada por Andersen, merece aplausos por sua excepcional seleção de imagens e pela maneira precisa com a qual se dedica a contrastar a Los Angeles dos sonhos e a Los Angeles do dia-a-dia, revelando não só um excepcional trabalho de pesquisa, mas também uma cuidadosa carpintaria dramática.

Extremamente convincente na defesa da tese de uma cidade mal planejada, arquitetonicamente esquizofrênica e geográfica e historicamente desigual, Los Angeles por Ela Mesma atinge seu terceiro ato de maneira simplesmente genial ao utilizar longas como Chinatown, Blade Runner, Los Angeles Cidade Proibida e Uma Cilada para Roger Rabbit para explicar porque tematicamente a cidade se tornou sinônimo de sujeira, caos urbano, corrupção policial e decadência moral, dedicando sua última hora a ensaios inteligentes e extremamente bem embasados acerca dos filmes citados – demonstrando assim que, além de uma visão arquitetônica e urbanista muito lúcida, Andersen também possui uma visão cinematográfica ampla e reveladora.

Essencial para historiadores, turistas, arquitetos, urbanistas, críticos e cinéfilos, Los Angeles por Ela Mesma é um clássico instantâneo que, ainda inédito em DVD após mais de uma década (o longa foi lançado nos EUA em 2003), acaba de ser justamente homenageado pela 38ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e merece fazer parte da coleção de qualquer espectador minimamente interessado no poder das grandes metrópoles de promover discussões filosóficas, antropológicas e, no caso de LA, cinematográficas.

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