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Crítica: Lucy

Crítica de Lucy com Scarlett Johansson

ALÉM DA PRESENÇA DE SCARLETT JOHANSSON, Lucy, de Luc Besson, tem mais algumas coisas em comum com Ela, de Spike Jonze, e Sob a Pele, de Jonathan Glazer. Sua personagem consegue ficar acima da condição humana, como acontece no mundo rosa digitalizado criado pela mente sensível de Jonze, e também se torna uma ameaça letal para qualquer um que ouse cruzar o seu caminho, exatamente como a predadora sexual do sci-fi comandado por Glazer. Apesar das duas excelentes referências, não se deixe enganar: o quarto trabalho de Johansson a chegar aos cinemas brasileiros em 2014 (não se esqueçam da Viúva Negra quebrando tudo em Capitão América 2: O Soldado Invernal) é uma produção extremamente divertida, mas ironicamente desprovida de inteligência – e não que isso vá interferir na apreciação daqueles que querem apenas assistir a um bom filme de ação.

A trama apresenta essa loira fatal com chapéu de cowboy se descobrindo na maior enrascada do mundo. Sequestrada por um ameaçador traficante de uma droga sintética mucho louca (e interpretado por Min-sik Choi, de Oldboy), ela passa por uma cirurgia para carregar um pacote da droga dentro do próprio corpo. Acontece que as coisas dão um pouco errado e o corpo dela tem uma estranha reação em contato com as verdadeiras pílulas azuis da alegria. Lucy começa a “evoluir” e usar todo o potencial do cérebro para chutar traseiros dos vilões e ajudar uma equipe de cientistas liderados por Morgan Freeman.

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Se a premissa foi pouco para convencer você de que Lucy é divertido, imagine que está prestes a assistir a uma versão turbinada da Viúva Negra batendo em todo mundo de um jeito que deixaria Neo (Keanu Reeves, em Matrix) no chinelo. Talvez tenha sido um deslize não incluir Capitão América 2 na mistura especial que “compõe” Lucy, afinal, não é nada absurdo afirmar que existe um desejo crescente dos fãs em acompanhar uma aventura solo da sensual espiã da Marvel e que Luc Besson chegou perto de satisfazer os desejos dos espectadores com seu trabalho mais recente. Johansson tira de letra o desafio e faz tudo parecer simples, provando que é sim uma atriz versátil e capaz de se envolver com qualquer tipo de gênero sem se repetir ou parecer no piloto automático.

Crítica de Lucy com Scarlett Johansson 2

Aliás, é louvável a transformação da sua personagem ao longo da trama. Logo na abertura, Lucy é apresentada como uma tapada. Aquele tipo de garota cuja beleza só perde para a própria burrice. Provavelmente, nesse estágio, Lucy deveria usar menos de 5% do seu cérebro. A sensualidade é meio vulgar, evidenciada em sua roupa, trejeitos e até maneira de falar. Após ter contato com a super droga, Johansson muda o tom e, numa cena brilhante, usa a sua sensualidade de maneira sutil e mortal para conseguir escapar do lugar em que estava aprisionada. São as sutilezas que transformam Johansson numa atriz tão interessante e com talentos que ultrapassam a sua beleza.

A gente mede a evolução das pessoas através de suas atitudes. Penso que, no mundo atual, enquanto andróides conectados durante 100% do tempo, mesmo as mentes mais saudáveis prefeririam usar a capacidade de manipular tudo e todos para descobrir senhas de Facebook e ler históricos de conversas no Whatsapp. Lucy pode não tocar hora nenhuma na futilidade das relações atuais, do egoísmo que prevalece ou da completa falta do elemento humano na vida das pessoas (para saber sobre essas coisas, o melhor é assistir Ela mesmo), mas não deixa de oferecer um caminho para refletirmos sobre o que exatamente faríamos com a chance de usar mais que os 10% de nosso cérebro.

Lucy está bem longe de ser um daqueles filmes obrigatórios e indispensáveis lançados em 2014, mas ainda assim merece um destaque justamente pela sua protagonista. A ficção-científica é um campo que o cineasta Luc Besson domina bem, como o caso de O Quinto Elemento, porém não com a capacidade de tornar uma obra agradável para todos os olhos e ouvidos. O importante aqui é aceitar que tudo será extremamente sem noção, com uma premissa que tenta ser séria, mas na verdade é apenas uma desculpa para uma verdadeira sessão de pancadaria. É quase um guilty pleasure. Quase.

poster lucy em cartaz

[tresemeia]