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Crítica: O Peso do Passado (2018)

POSTER O PESO DO PASSADOO CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A Crítica de O Peso do Passado possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

NICOLE KIDMAN É UMA DAS GRANDES ATRIZES DE TODOS OS TEMPOS e sua atuação em O Peso do Passado (Destroyer, 2018) é talvez uma das melhores provas disso. Dirigido por Karyn Kusama (O Convite), o longa-metragem é um thriller policial cujo maior trunfo está no desempenho da protagonista.

O Peso do Passado conta a história de uma detetive que tem a oportunidade de reencontrar um grupo de assaltantes de uma investigação em que ela atuou disfarçada no passado. Decidida a vingar a morte do parceiro, ela começa uma busca paralela e não pretende pegar leve com ninguém para fazer justiça com as próprias mãos.

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Em determinados momentos, a obra confunde o espectador. São momentos em que visitamos o passado da agente infiltrada e ficamos sem entender muito bem o que está acontecendo (ou em que época estamos). Provavelmente é um “probleminha” facilmente esclarecido durante uma revisão, mas na primeira experiência fica a dúvida:

Será que O Peso do Passado é confuso propositalmente, como um reflexo da sua protagonista? Pode ser que sim, pode ser que não. A verdade é que mesmo com um alto teor de complexidade para dominar 100% da narrativa, e sem permitir ao espectador entender o que se passa na cabeça da personagem de Kidman, Kusama acerta em cheio num dos (possivelmente) melhores filmes de suspense de 2019.

Kidman, inclusive, não podemos deixar de dizer, não teve a menor vergonha em ficar mais feia que o pé do diabo. Nas cenas em que sua personagem aparece infiltrada numa quadrilha de assaltantes lideradas pelo maníaco Silas (Toby Kebbell), Kidman está jovem e cheia de energia. Já nos dias atuais, ela é o oposto: destruída pelo alcoolismo e culpa por suas decisões terem sido responsáveis pela morte do parceiro (Sebastian Stan, numa atuação igualmente marcante), Kidman aparece cheia de marcas no rosto e sentimos que através de suas expressões e linguagem corporal existem muitas cicatrizes em sua alma.

Em uma das cenas mais constrangedoras da narrativa, ela masturba um ex-bandido que tem pistas do paradeiro de Silas. Chama a atenção a frieza como tudo acontece. Como se ela fosse uma médica tratando o corpo de um paciente apenas como o instrumento de trabalho. Não existe prazer nem mesmo para o bandido, em vias de morrer devido a uma doença. Existe um jogo de poder no qual ele acredita ser “justo” receber uma última “mãozinha” depois de ter sido preso na ação que resultou na morte do parceiro da detetive.

A grande mensagem da produção comandada pelo trio Kusama e pelos roteiristas Phil Hay e Matt Mandredi (ambos também assinam o roteiro do arrepiante O Convite) é além do “peso do passado”, mas as consequências de nossas escolhas. Gananciosa e pretensiosa, a jovem personagem de Kidman viu um roubo como uma oportunidade para abandonar a carreira policial e o crime. Uma chance de mudar de vida e recomeçar bem longe. Ela aceitou os riscos e seu parceiro/amante acabou morrendo – mesmo ciente de todas as possíveis consequências.

O Peso do Passado é indicado para quem gosta de filmes de agentes infiltrados e de como podemos ser consumidos pelo nosso trabalho. Nicole Kidman está sensacional e nos deixa aflitos sem imaginar o que ela pretende fazer até a grande revelação final, que mostra que ela tinha uma vingança muito bem planejada na sua mente. Filmaço.