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Crítica: O Retorno de Antígona – Mostra de SP

 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #16

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Ao longo da História do Cinema, inúmeros movimentos importantes e tendências de vanguarda nasceram em meio a profundas crises enfrentadas pelos países de origem de seus diretores: na década de 40, a Itália devastada pela Segunda Guerra deu a luz ao neorrealismo italiano – que, por sua vez, influenciaria o Cinema norte-americano, trinta anos depois, a exorcizar o demônio da Guerra do Vietnã e dos pavorosos governos republicanos criando a Nova Hollywood -; já na de 60, a dificuldade de “minorias” como negros, mulheres, homossexuais e mesmo jovens de se fazerem ouvidos fermentou a França da nouvelle vague, enquanto o caos econômico e a repressão policial do Brasil da Ditadura propiciava o surgimento do Cinema Novo – e se quiséssemos nos aprofundar nessa lista, seria necessário um texto inteiro só para isso.

Quando falamos em cinematografias específicas (e a Mostra de São Paulo é testemunha disso ao longo das décadas), é interessante perceber como a explosão criativa de certos países também costuma estar associada a situações políticas e econômicas conturbados – e é isso que explica o número expressivo de filmes gregos tem se destacado no circuito de festivais nos últimos anos. Normalmente doentios em seu retrato de uma sociedade apodrecida não só política e econômica, mas principalmente moralmente, filmes como Dente Canino, Alpes, Attenberg, O Garoto Que Come Alpiste, Miss Violence e, em grau um pouco menor, este O Retorno de Antígona fazem um retrato duro e cínico do pior período da História de um dos berços de nossa civilização.

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Escrito e dirigido por Giorgos Cervetas, O Retorno de Antígona conta a história da volta da personagem-título (Symeou), depois dos trinta anos de idade, à pequena cidade grega onde foi criada. Arrumando emprego como professora de inglês em uma escola pública, Antígona reencontra o ex-namorado Dimitris (Siradakis), com quem deixou um caso mal resolvido, e a ex-melhor amiga Eleni (Pantelopoulou), que está envolvida com Nodas (Georgakis), um homem casado que a espanca, e lhe apresenta ao despojado Nikos (Kafetzopoulos), com quem a protagonista imediatamente engata uma relação essencialmente sexual. À medida em que o namoro avança, porém, Antígona passa a desconfiar que há algo errado com o rapaz, que pode fazer parte de uma sinistra sociedade secreta formada por homens extremamente violentos e misógenos.

Logo nos primeiros minutos de projeção, anotei que a Grécia de O Retorno de Antígona era um país sucateado – portanto, foi sem espanto algum que descobri que Nikos trabalha justamente em um ferro-velho, em uma metáfora direta e eficiente da situação desesperadora em que o país se encontra. Aliás, é interessante perceber como praticamente todo filme que trata da crise grega retrata sua sociedade como um antro de violência, misoginia e decadência moral: parada no tempo (perceba que os carros que vemos aqui circulavam no Brasil há mais de vinte anos), a Grécia que seu Cinema tem nos apresentado está décadas atrasada também em seus avanços humanistas, repleta de prostitutas e trombadinhas sem oção e de patrões que exploram seus funcionários em regime semi-escravo que normalmente também envolve servidão física e sexual.

Contando com uma atuação forte de Marina Symeou, que vive Antígona como uma mulher segura e progressista, e com uma fotografia coerente de Claudio Bolivar, que drena as cores de seu universo árido e destituido de valores, o longa escrito e dirigido por Giorgos Servetas é mais um da safra grega recente a falar da situação ingrata de um povo sem oportunidades, explorado a níveis subumanos por quem tem as têm, ainda que mínimas, a oferecer.

Se resta-lhes algum consolo, é que ainda existem os albaneses e paquistaneses, que, de acordo com o velhinho que jamais deixa a abandonada estação de trem pela qual Antígona volta à sua cidade e parte dela novamente, são os únicos que ainda veem a Grécia como um destino possível.

poster o retorno de antigona
O Retorno de Antígona (
Na Kathese Kai Na Koitas, Grécia, 2013). Escrito e dirigido por Giorgos Servetas. Com Marina Symeou, Marianthi Pantelopoulou, Nikos Georgakis, Giorgos Kafetzopoulos, Konstadinos Siradakis e Giorgos Ziovas.