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Crítica: Paris do Norte – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #43

Crítica Paris do Norte - Cinema de Buteco

Paris do Norte é um daqueles filmes que você já viu 247.341 vezes em festivais: contando a história de uma família disfuncional e constantemente recorrendo à estranheza de seus personagens e situações para se passar por original e engraçadinha, esta comédia dramática finlandesa escrita por Huldar Breiðfjörð e dirigida por Hafsteinn Gunnar Sigurðsson (roteirista do eficiente Prince Avalanche, de David Gordon Green) se esforça para comover e fazer rir, falhando miseravelmente nas duas funções por jamais decidir o tom geral que quer dar à projeção.

Hugi (Thors) é um professor de História (e não dos melhores, já que o longa tem início mostrando-o ensinar a seus alunos como os brasileiros matam macacos para comer, locomovem-se de canoa e não tem luz elétrica), corredor amador e estudante de Português (por hobby, diz ele) cujo relacionamento com a exigente namorada Erna (Magnúsdóttir) não vai bem e cujo pai (Björnsson) que não vê há anos e com quem também não tem um bom relacionamento resolve lhe fazer uma visita inesperada e quebrar sua rotina morosa e solitária (seus únicos amigos são o filho de Erna e seus colegas nos Alcoólicos Anônimos).

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Usando a natureza gélida de sua pequena cidade no interior da Islândia e suas ruas vazias como metáforas óbvias da frieza dos relacionamentos de Hugi e sua consequente solidão, Paris do Norte segue os clichês do encontro forçado que mudará a vida do protagonista e dos microcosmos em que todos os personagens se interligam como se não houvesse mais ninguém no mundo (Hugi namorou Erna, que é mãe de seu melhor amigo, que também é seu aluno e cujo pai frequenta o mesmo grupo de apoio que ele e cuja esposa, sua ex, parece estar saindo com seu próprio pai) e, dessa forma, jamais deixa de ser previsível.

Retratando a solidão de Hugi de forma igualmente óbvia ao enquadrá-lo em planos abertos que o diminuem, Sigurðsson – assim como Breiðfjörð – falha ao não conseguir desenvolver sua única subtrama interessante, aquela envolvendo o amor da vida do protagonista que, vivendo em Portugal, já não vive mais em sua sintonia (se é que já viveu) mas ainda o mantém ligado à sua. Ao invés disso, os realizadores preferem dar uma importância absurda a um incidente envolvendo um elástico de borracha e o pênis do pai do protagonista e que, com direito a uma imagem que não vejo a hora de esquecer, em nada contribui para o desenvolvimento da história como um todo.

Incapaz de decidir-se em relação à atmosfera que quer criar, Paris do Norte é um filme tolinho cuja boa repercussão nos festivais por onde passou e a escolha de seu país para representá-lo na corrida por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014 permanecem um verdadeiro mistério para mim.

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Paris do Norte (París Norðursins, Islândia/França/Dinamarca, 2014). Dirigido por Hafsteinn Gunnar Sigurðsson. Escrito por Huldar Breiðfjörð. Com Björn Thors, Helgi Björnsson e Nanna Kristín Magnúsdóttir.