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Crítica: Velvet Buzzsaw

Será que o novo filme de Dan Gilroy vale a pena?

Ao me deparar com o trailer do novo filme da Netflix, Velvet Buzzsaw, uma curiosidade cresceu dentro de mim. Seria ele uma obra crítica que se utilizaria do terror para evidenciar as excentricidades e excessos do mundo das artes, ou um simples produto do gênero do medo que se valeria de tal mundo apenas como pano de fundo para um banho de sangue de cunho paranormal?

Logo após assistir a obra, a decepcionante conclusão a que cheguei foi que seu diretor, Dan Gilroy, parece ter ficado com a mesma dúvida durante os processos de criação e execução. E acabou entregando um insípido produto que fica no meio termo dos dois caminhos possíveis citados acima.

Velvet Buzzsaw conta a história de Josephina (Zawe Ashton), uma marchande que, ao socorrer um vizinho morto no corredor de seu prédio, descobre que ele havia deixado para trás uma grande coleção de excelentes pinturas de sua autoria. Ao se apropriar das obras, a agente acaba envolvendo várias pessoas de seu ciclo social em uma série de bizarros acontecimentos, todos ligados ao espectro vingativo do falecido artista, que havia deixado instruções claras para que os quadros fossem destruídos depois de morrer.

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Mesmo contando com nomes consagrados no elenco, como Rene Russo, Toni Collette, Jake Gyllenhaal e John Malkovich, a obra apresenta personagens com construções e intenções confusas. Além de caricatos, trazem em suas concepções tons tão satíricos que fica impossível sentir qualquer empatia por eles e, até mesmo, torcer para que consigam sobreviver aos acontecimentos sobrenaturais que os cercam.

A emaranhada e confusa trama que se desenrola no microcosmo da produção artística peca em dois pontos cruciais que depõem drasticamente contra o filme. O primeiro é elencar uma gama de personagens que, inicialmente, aparentam trazer novos caminhos para a narrativa, mas resultam em becos sem saída irrelevantes para a história — como é o caso do artista marginal e do gerente do coletivo de artes. O segundo é se ater a detalhes que nada contribuem para o enredo. Isso fica visível em momentos como na confusão gerada na sexualidade do personagem de Gyllenhaal ao se envolver com a marchande, na descoberta do fato das pinturas serem feitas com tecido humano de seu criador, e também na história secundária do papel de Cotlette, que parece existir apenas para dar vazão a única piada divertida e interessante do filme.

O que a produção termina por apresentar é um complicado e desinteressante enredo tanto para leigos quanto para os familiarizados com o meio artístico, parecendo mais uma ridicularização vingativa de quem sofreu nesse universo do que uma crítica bem construída. Em termos do gênero terror, Velvet Buzzsaw entrega apenas uma obra com alguns clichês do gênero e sustos baratos, que além de estarem todos contidos em seu trailer, parecem não estabelecer nenhum tipo de “regra” para sua existência. Aqui, considero como “regra” o funcionamento da ameaça do filme, como ela se constrói.

Ao longo das duas horas de duração, não temos a definição do motivo da existência da maldição das obras ou da explicação dela recair sobre os personagens. Também não fica claro como a maldição age para vitimar os envolvidos. Seria um espectro do artista que dominaria outras obras de arte para que elas executassem sua vingança? Seria qualquer tipo de arte passiva de um assassinato? Seria a ganância a responsável por matar? Tão pouco fica evidente quando e onde os eventos paranormais podem acontecer.

Ao não responder as perguntas mais básicas do cinema de terror, o filme cria um universo no qual tudo é possível e não fornece, nem aos personagens e nem ao espectador, as ferramentas para que possam planejar defesas. Isso acarreta na construção de uma obra na qual a sensação de impotência predomina e que repele a participação do público.

Velvet Buzzsaw, ao apresentar uma narrativa cheia de pontas soltas e linhas mal explicadas, e um humor inadequado, perde rapidamente o interesse da audiência e tende a cair no esquecimento de forma mais abrupta que sua patética cena final.

 

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