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Crô – O Filme

Crô - O Filme

ALGUM TEMPO ANTES DO DESFECHO DA NOVELA FINA ESTAMPA, a imprensa especializada em spoilers televisivos (vulgo revistas de fofoca) levantou a hipótese de que o violento e homofóbico motorista Baltazar (Alexandre Nero) seria o amante misterioso do mordomo Crô (Marcelo Serrado) – o que justificaria de forma curiosa o comportamento agressivo do primeiro em relação ao colega de trabalho e à esposa, além de abrir espaço para discussões sociais pertinentes, atuais e, acima de tudo, bastante ousadas para os padrões conservadores da emissora. Infelizmente, após estender o mistério por meses, o autor Aguinaldo Silva decidiu, por falta de criatividade, de culhões ou simplesmente por birra em decorrência da revelação precoce de seus planos promovida pela imprensa, não só manter a identidade do tal amante em segredo, como também riscar exclusivamente Baltazar da lista de suspeitos, em uma decisão desnecessária, despropositada e desonesta.

Não sei exatamente por que alimentei alguma esperança de que, inseridos em uma mídia menos limitante que a televisão brasileira, os personagens receberiam um tratamento mais sofisticado. Na realidade, o desperdício do potencial contido na relação da dupla seria perfeitamente perdoável caso o longa não fracassasse em absolutamente todos os seus incompatíveis e intragáveis esforços cômicos e dramáticos. Roteirizado pelo próprio Aguinaldo Silva e dirigido por Bruno Barreto (que já esteve à frente de produções tão variadas quanto o recente Flores Raras, Voando Alto, O Casamento de Romeu e Julieta e O Que é Isso, Companheiro?), Crô tem início com o personagem-título transitando de maneira desastrosa entre as carreiras de cantor, estilista e cabeleireiro após herdar a fortuna da ex-patroa vivida por Christiane Torloni no folhetim global e, consequentemente, ascender ao posto de patrão milionário. Sem conseguir definir um rumo satisfatório para sua agora luxuosa existência, Crô decide regressar ao posto de mordomo após ter alucinações com sua falecida mãe, uma sociopata vivida por Ivete Sangalo que convencera o filho, ainda muito jovem, que servir a deusas era sua razão de existir. Dessa forma, o protagonista abre um processo de seleção para encontrar uma candidata a patroa que se enquadre nos níveis desejados de sofisticação e crueldade – o que desperta o interesse da aspirante a socialite Vanusa (Carolina Ferraz), que comanda uma confecção clandestina onde mantém imigrantes ilegais sob condições escravas.

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Crô, O Filme

Nessas estúpidas circunstâncias, uma narrativa com suposta predominância de comédia acaba abrindo espaço para intermináveis e deslocadas sequências que reiteram insistentemente a perversidade da vilã e acompanham o drama e as tentativas de uma jovem criança de fugir daquele ambiente opressivo, o que resulta em gravíssimos e inevitáveis problemas de tom e praticamente transformam o filme em um drama policial com eventuais intervenções cômicas. Como se não bastasse, Crô também possui sua parcela de problemas técnicos (marca registrada da recente leva de comédias nacionais enlatadas): relevando a falta de personalidade dos cenários ou a estranheza da inserção digital da cabeça de Serrado em um corpo de criança (que até pode ser perdoada, considerando que ocorre em uma cena de sonho), vale apontar o péssimo uso de sonoplastia para tentar gerar humor, o product placement invasivo (em determinada cena, o protagonista alivia um ataque de pânico ventilando um saco de papel que ostenta a marca de certa loja do ramo alimentício) e também a falta de cuidado com determinados objetos de cena (em certo momento, a supostamente robusta estátua da mãe de Crô balança visivelmente com um simples toque de algum dos atores, denunciando a leveza do material de que é feita).

E nem o talentoso Marcelo Serrado consegue se salvar: retornando ao papel cujo sucesso consagrou seu retorno à Rede Globo após anos trabalhando na concorrência, o ator é sabotado por um roteiro pedestre que transforma o razoavelmente simpático personagem em uma figura absolutamente desinteressante (e até um pouco abominável, em alguns momentos), cujas tiradas jamais despertam o riso e mais parecem endereçadas ao público herdado da novela, que já conhece os bordões que a atração levou meses para estabelecer na base da repetição. Enquanto isso, Carolina Ferraz opta pelo piloto automático para dar vida a uma personagem maquiavélica cuja crueldade é expressa de modos normalmente aborrecidos, como no momento em que a vilã decide cortar o cabelo da jovem Paloma (Urzula Canaviri), apenas pelo caráter invasivo e violento do ato. Para completar, ainda não sei dizer se a ausência de Milhem Cortaz no cartaz do filme é fruto de um pedido do ator para evitar o embaraço do envolvimento com o projeto ou se os produtores realmente acreditam que as participações da apresentadora Ana Maria Braga e da cantora Gaby Amarantos – interpretando versões ironicamente artificiais de si mesmas – possuem mais apelo que a presença do experiente ator.

Crô

Por fim, Alexandre Nero merece reconhecimento pela proeza de sugerir sutilmente o suposto interesse afetivo de Baltazar pelo protagonista através do nervosismo e da hesitação que constantemente afetam o comportamento agressivo do personagem. Infelizmente, os realizadores parecem acreditar que exibir seres humanos sendo psicologicamente violentados por uma mulher inescrupulosa é mais apropriado que trazer duas pessoas do mesmo sexo trocando carícias – e quando, próximo ao final da projeção, o filme se depara com a única chance de marcar pontos a seu favor (e, quem sabe, até mesmo consertar o equívoco citado no primeiro parágrafo deste texto), o conservadorismo do projeto vem à tona, conduz a narrativa a um desfecho ridículo e desperta no espectador a vontade furiosa de que figuras como Crô e Giovanni Improtta (outra criação de Aguinaldo Silva que migrou desastrosamente das telinhas para as telonas em 2013) retornem para a História da televisão, de onde nunca deveriam ter saído.

Crô - PôsterTítulo original: Crô – O Filme
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Aguinaldo Silva
Elenco: Marcelo Serrado, Alexandre Nero, Carolina Ferraz, Milhem Cortaz, Katia Moraes, Carlos Machado, Urzula Canaviri, Nataly Cabanas, Ivete Sangalo, Ana Maria Braga e Gaby Amarantos.
Lançamento: 29 de Novembro de 2013
Nota:[meia]

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