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Shine a Light

MARTIN SCORSESE JÁ USOU E ABUSOU TANTO DOS STONES ao escolher suas trilhas sonoras que o próprio Mick Jagger chegou a fazer piada: “Shine a Light deve ser o único filme de Scorsese que não inclui ‘Gimme Shelter'”. Em defesa do tio Marty, 1) “Gimme Shelter” apareceu em “apenas” três longas do diretor (Os Bons Companheiros, Cassino e Os Infiltrados), e 2) Ninguém pode negar que, junto com Quentin Tarantino e talvez o Cameron Crowe, Scorsese é um dos melhores escolhedores de trilhas da paróquia e que sem o som do rock’n’roll muitas de suas cenas perderiam metade da graça.

Mas a relação do cineasta com o rock vai além da mera música de fundo, e isso já não é de hoje: Scorça foi assistente de direção e um dos montadores de Woodstock, registro histórico do Festival com F maiúsculo; dirigiu O Último Concerto de Rock, “rockumentary” sobre a derradeira apresentação da The Band; e fez No Direction Home e Living in the Material World, docs biográficos que focam a vida e a obra de Bob Dylan e George Harrison. Era perfeitamente natural, portanto, que um projeto como Shine a Light – o registro de um show dos Pedras Rolantes comandado pelo nosso amigo sobrancelhudo – ganhasse a luz do dia.

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Por uma dessas razões inexplicáveis, não fui conferir o filme no cinema, como ele foi pensado para ser visto – muito menos na telona de um Imax, com a bocona do Mick Jagger quase engolindo a plateia. Deve ter sido algum motivo tão idiota quanto o que me fez perder o show dos Stones de graça na praia de Copacabana em 2006, quando até carona para o Rio eu tinha. Assisti ao show pela transmissão “ao vivo” com meia hora de atraso da Globo, repleta de intromissões publicitárias e comentários fora de hora do Zeca Camargo. Shine a Light foi filmado durante a mesma turnê que visitou o litoral carioca, A Bigger Bang Tour. Assisti-lo agora em casa, sete anos depois do show que eu não fui, não serve exatamente de consolo, mas pelo menos tenho certeza de que a visão das câmeras de Scorsese é mais privilegiada do que seria a minha, se eu estivesse espremido no meio dos dois milhões de pessoas que se acotovelaram em Copa para prestigiar a banda.

A pergunta que eu me fazia antes de ver o documentário é se dava pra notar a diferença entre um show filmado por Scorsese e um DVD de show convencional. O Scorsese autoral faz diferença em uma apresentação gravada ao vivo com quinze câmeras? Dá pra reconhecer ali o estilo do diretor ou mesmo saber que quem está por trás é um dos maiores cineastas vivos?

Bom, o dedo de Scorsese fica mais do que evidente logo nos primeiros minutos, quando ele (Scorsese, não o dedo) é um personagem tanto quanto Mick Jagger, Keith Richards, Ronnie Wood e Charlie Watts. São as cenas mais documentais de Shine a Light, e também as mais cômicas, mostrando os bastidores das preparações para as filmagens, a difícil comunicação entre os Stones e o diretor e o nervosismo de Marty por não saber sequer quais serão as músicas tocadas, coisa que a banda se recusa a decidir até a hora do show começar. Scorsese mostra as páginas e mais páginas de planilhas que preparou com cada canção possível, cada uma com sua respectiva lista de planos minuciosamente detalhados e sua probabilidade de aparecer no repertório. “Pelamordedeus, alguém me diga pelo menos qual vai ser a primeira música, pra saber se as câmeras devem enquadrar primeiro o Mick, o Keith ou quem quer se seja“, implora o diretor, em vão. Não vou dar spoiler e dizer se ele consegue o setlist ou qual música abre o show – mas Scorsese prova que conhece a discografia dos Stones de cor e salteado.

É uma pena que suas aparições sumam depois que o show começa: eu adoraria ver mais do diretor ali na salinha de corte e testemunhar outros momentos de humor, como quando ele conversa sobre a fortíssima iluminação de cinema usada no palco:

Membro da equipe: Se ele ficar sob essa luz por mais de 18 segundos, vai ser queimado.
Scorsese: Como assim, queimado?
Membro da equipe: Ele vai pegar fogo, vai ficar muito quente.
Scorsese: Você quer dizer, com chamas e tudo?
Membro da equipe: Sim, ele pode pegar fogo.
Scorsese: Não podemos fazer isso. A gente não pode botar fogo no Mick Jagger.

Outro diferencial em relação a um registro de show convencional é a mixagem de som, que às vezes aumenta o volume de determinado instrumento conforme sua proximidade da câmera: um groove de bateria fica mais alto se Charlie Watts está na tela, um solo de sax ganha destaque quando o foco é o trio de metais. É como se fôssemos uma mosca voando pelo palco e testemunhando de perto como cada performance individual contribui para o todo. Shine a Light é para se ver e prestar atenção, não pra deixar rolando e ir lavar vasilhas.

E as imagens captadas… É difícil catar defeito nos enquadramentos escolhidos quando, operando as câmeras, estão renomados diretores de fotografia como Robert Elswit (Oscar por Sangue Negro) e Andrew Lesnie (Oscar por O Retorno do Rei). Cada careta de Mick Jagger, dedilhada de Ronnie Woods, baforada de cigarro de Keith Richards e bufada de cansaço de Charlie Watts é fotografada com primor – e o que é melhor, sem o Zeca Camargo interrompendo toda hora. Vai saber o que é instrução do Scorsese (ele mesmo admite que não usou quase nada dos seus planos minuciosamente detalhados) e o que é talento individual de cada operador de câmera, mas só reunir esse time já foi um grande acerto do diretor. Mas Marty se permite usar uma de suas marcas registradas – a steadicam seguindo um personagem por um corredor em um plano-sequência – no último e fabuloso plano final, daqueles que fazem você sair do cinema com um sorriso no rosto (e mostrando a língua).

Com a língua de fora também devem ter ficado Jagger, Richards e companhia ao final da maratona rock’n’roll, mas no palco eles mostram que, apesar da idade suficiente para andar de ônibus de graça, não ficam atrás de nenhum garotão. Dá até pena ver Jack White forçando a goela em “Loving Cup” para atingir os tons mais altos, enquanto Mick Jagger solta a voz ao seu lado com uma naturalidade que contrasta com suas rugas. Como estará Jack White aos sessenta e tantos anos? Jagger pula, rebola e balança os braços com uma energia ímpar, e é um barato comparar sua figura atual com os trechos de entrevistas antigas que Scorsese encaixa entre uma canção em outra (no início dos anos 60, quando os Stones só tinham dois anos de vida, perguntam por quanto tempo Jagger se vê fazendo aquilo e ele responde: “Pelo menos mais um ano“).

Keith Richards, o sobrevivente-mor da história do rock, pode não compartilhar da energia do vocalista, mas se diverte à beça fazendo palhaçada a seu modo, dividindo o microfone com Mick em “Connection”, assumindo os vocais sozinho em “You Got the Silver”, ostentando seus brincos e bandanas que fazem jus à condição de pai do Jack Sparrow e, claro, tocando pra caramba. Ronnie Woods e Charlie Watts sempre foram mais contidos e não é porque estão no cinema que vão começar a aloprar (“Ele fala!“, alfineta Jagger quando Watts diz um “oi” tímido à plateia), mas o desempenho musical de ambos não deixa nada a dever. Meu momento favorito, no entanto, é a participação de Buddy Guy em “Champagne & Reefer”, no qual as imagens são mais bem compostas do filme, o duelo de guitarras é o mais empolgante e a diversão dos músicos é mais latente. (Já Christina Aguilera, em “Live With Me”, parece fora de lugar e nem os membros da banda dão muita bola para a moça, coitada.)

O filme termina com uma bateria de hits absolutos que até a sua avó conhece: “Sympathy for the Devil”, “Start Me Up”, “Brown Sugar”, “Satisfaction” – senti falta de “You Can’t Always Get What You Want”, mas não é sempre que se tem o que quer. Shine a Light não é um documentário revolucionário e nem era essa a intenção: Scorsese só queria registrar um show de uma das maiores bandas do mundo da melhor maneira possível, e cumpriu a tarefa com louvor. It’s only rock’n’roll, mas é cinema também.

Título original: Shine a Light
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood, vulgos The Rolling Stones
Lançamento: 2008
Nota:[quatro]