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Drama

A Separação

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A PRIMEIRA VEZ QUE VEMOS NADER (PEYMAN MOADI) E SIMIN (LEILA HATAMI) EM A SEPARAÇÃO, SE ESTABELECE UM CONTATO COM O ESPECTADOR QUE IRÁ SE ESTENDER DURANTE TODA A TRAMA: eles estão sentados, em frente à câmera como que conversando com um juiz que reluta em lhes oferecer o divórcio por falta de motivos que justifiquem o ato. Cada um está carregado com suas verdades, inabaláveis, mas que encontram dificuldade em se legitimar no discurso. O assunto deste filme no fim das contas é esse: como determinar o que é a verdade dos fatos, quando existem inúmeros pontos de vista e motivações envolvidos? Quando se colocam frente ao espectador, os personagens estão se colocando sob o seu julgamento. Algo que não será tarefa fácil.

O divórcio seria a única forma de Simin viajar sozinha (a religião islâmica não permitiria que uma mulher casada o fizesse) já que Nader não pode acompanha-la – seu pai tem mal de Alzheimer e não pode ser abandonado. Vale dizer que até então a separação é apenas e nada mais que uma alternativa para que a mulher possa viajar e levar do Irã sua filha Termeh (Sabrina Farhadi).  Com a ausência da mulher em casa, Nader contrata Razieh (Sareh Raiat) para cuidar de seu pai. Porém um incidente (grave) fará surgir na vida destas pessoas um confronto em busca da razão ou de uma solução minimamente razoável para os fatos. Mas como determinar isto?

É aqui que a mão do diretor Asghar Farhidi mostra seu poder, no roteiro e  na condução do filme. A partir de um episódio (a tal separação) os personagens são jogados num turbilhão de acontecimentos, de uma forma ou de outra determinados pela passionalidade com que reagem às situações. Problematiza-se o dado da fé islâmica quando é colocada como um paradigma que está acima de qualquer vontade pessoal: por ser rigorosamente respeitada, ou até mesmo quando é driblada, a fé religiosa neste caso se mostra como um fator determinante para a ação daqueles personagens, que se vêem em dilemas que os colocam contra aquilo em que acreditam mas a favor daquilo que julgam precisar fazer. Razieh esconde do marido que está trabalhando na casa de um homem, o que seria impensável em sua religião, embora necessário para sua sobrevivência; honra e comprometimento com o outro, dados importantes do islamismo são problematizados quando se colocam acima dos indivíduos e de suas necessidades: geram-se então conflitos.

Os problemas são colocados pelo roteiro, e a direção trata de tornar suas resoluções e a visão do espectador sobre eles mais complicada, pois não há como tomar partido aqui ou ali: estamos de certa forma comprometidos e ligados a todos os personagens, mesmo que eles sejam antagônicos. Há humanidade em cada um deles embora, em certo sentido há sempre algo que não conhecemos sobre suas motivações, ou que irá se mostrar naturalmente ao longo da história. Sentimos junto com aqueles personagens, há uma identificação imediata (grande mérito se pensarmos na diferença das culturas). A câmera na mão, sempre observando de perto, talvez seja a responsável por esta sensação de que estamos ali, presentes. Como defender um ponto de vista se sentimos a dor de ambos os lados?

Há que se dar o devido mérito pelo brilhante elenco, com um destaque para Peyman Moadi por um Nadir tão cheio de facetas (pai dedicado e amoroso, porém capaz de  jogar com os sentimentos da filha a seu favor), Sareh Raiat e sua Razieh que consegue transmitir certa reserva para falar suas verdades, justamente porquê tem algo a esconder, e Sabrina Farhadi: uma das únicas vítimas de todos estes acontecimentos, consegue transmitir o dilema de Termeh, talvez a mais lúcida de todos.

É por isto que A Separação se revela um filme surpreendente. Somos juízes de toda aquela história, os únicos que sabem da totalidade dos fatos. Mas, por outro lado, não é possível julgar quando há parcialidade. Se Nadir mente para a filha, não é por uma questão de caráter, mas de necessidade. Algo que se aplica a todos os personagens deste filme: retidão de caráter e comprometimento religioso não determinam uma ação justa ou ética. É um filme que problematiza valores justamente porque os relativiza, sem tornar a discussão vazia. E no final do filme com quem está a razão? Não há como saber, mas de certa forma, como a última cena nos mostra através de uma esperta composição, a única certeza é de que a ligação que Nadir e Simin de alguma forma possuíam no começo do filme, está para sempre transformada.

 

Título original: Jodaeiye Nader az Simin

Direção: Asghar Farhadi

Produção: Asghar Farhadi

Roteiro: Asghar Farhadi

Elenco: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Babak Karimi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini, Merila Zarei

Lançamento: 2011

 

 

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Críticas de filmes

Crítica: Mar de Dentro (2020)

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A maternidade e toda a sua complexidade permitem diferentes formas de abordagem no cinema, na literatura, no teatro, na TV e onde quer que ela venha a ser representada e discutida. É bom observar a crescente diferença de como ela é tratada, com obras que se permitem ir além da romantização e explorar a mistura de sentimentos que surge com a maternidade. O questionamento sobre o lugar da mulher no mundo, no seu círculo social, na carreira e até mesmo os seus valores e propósitos passam a ser comentados por todos que se sentem no direito de opinar, mesmo que nada tenham a ver com a criança. Teoricamente, todo mundo sabe o que é melhor para o bebê, menos a própria mãe. Em Mar de Dentro, a cineasta Dainara Toffoli (que tem carreira na TV e dirigiu episódios de Lili – a ex, Manhãs de setembro e As Five, entre outros trabalhos) apresenta uma mulher que leva a vida como quer, até que descobre a gravidez e tudo muda.

Manuela (Mônica Iozzi, de Mulheres Alteradas) é uma publicitária ativa, orgulhosa e independente que tem uma relação sem rótulos com Beto (Rafael Losso, da novela O Outro Lado do Paraíso), está muito bem assim e acredita ter total controle sobre a própria vida. Entretanto, a gravidez não-planejada é o começo de uma trajetória diferente de tudo o que ela está acostumada. A insegurança no trabalho é o primeiro choque de realidade que Manuela recebe e ter a sua carreira colocada em risco é o início de um processo de mudanças. Ainda assim, a publicitária tem o privilégio de ter como pai de seu filho um homem que se mostra disposto a permanecer ao seu lado e ser pai não só nos documentos e nas redes sociais, mas alguém presente na vida da criança e de Manuela.

Engana-se quem acredita que a descoberta da gravidez funciona como um botão que, quando apertado, torna toda e qualquer mulher extremamente sensível e um reflexo de amor. Cada mulher é uma mulher, e Manuela desenvolve uma espécie de “maternidade distante”, como se estivesse de corpo presente, mas com a cabeça muito longe. Aceitar a gravidez não-planejada não é um processo fácil, e a publicitária, naturalmente, precisa de um tempo para entender e assimilar tudo o que está acontecendo. Novamente, ela é lembrada de que não tem controle sobre a própria vida e vê seu mundo desabar.

Sem cair na armadilha do extremismo, atriz e diretora esmiúçam a relação entre mãe e filho e mostram que é possível amar o(s) filhos(s) e não gostar da maternidade. Enquanto o bebê se desenvolve, evolui, aprende e também ensina a mulher, ser mãe consome, poda, desgasta e suga todas as energias. 

A sociedade clama, o tempo todo, por mulheres fortes e a maternidade traz o sentimento de que essa força está sendo roubada e, no lugar, o que entra é a ignorância e a vulnerabilidade. Não importa o que faça, cada ação de uma mãe é julgada. A mãe que trabalha fora de casa é tão ou mais criticada do que a mãe “dona de casa”. E os sonhos e os planos desta mãe, para onde vão? 

Como amar esse papel, então? Como aceitar, com um sorriso no rosto, todos os poréns que acompanham a nova função e, o mais importante, entender que é para sempre e, ainda assim, mostrar a todos que não existe felicidade maior do que a de mãe?

A narrativa não quer transformar a protagonista em heroína, mas fazê-la entender o que está acontecendo à sua volta, a compreensível melancolia dos primeiros meses da maternidade e o sentimento agridoce que nasce com um bebê.

O drama de Manuela e o trabalho de Mônica Iozzi são profundos e trazem à tona a complexidade dos sentimentos que chegam com a maternidade. Mônica mostra com competência que os papéis cômicos, que a apresentaram ao público, não é o seu limite e alcança evidente maturidade na carreira. Ela transforma Manuela em uma conhecida não muito próxima, mas a quem queremos bem.

Sob a direção certeira de de Toffoli, Mar de Dentro se torna um drama eficiente sem apelar para a identidade de filme com viés feminino e mostra que surgiu sabendo que haverá significativa identificação com o público.

Mar de Dentro não tenta passar a mensagem de que a maternidade é ruim, mas que é difícil todos os dias.

Todos os dias.

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Críticas de filmes

King Richard: um plano e um pai determinado

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O quanto um pai obstinado pode impulsionar a carreira de seus filhos? O novo longa metragem da Warner, King Richard: Criando Campeãs, estreia no Brasil dia 02 de dezembro e retrata a história de Richard Williams, pai das tenistas Venus e Serena Williams e sua determinação em torná-las as maiores jogadoras de tênis do planeta. Spoiler (porém não tanto, porque é um fato): ele conseguiu. 

Nesta cinebiografia, Richard Williams é interpretado por uma das estrelas mais queridas de Hollywood: Will Smith. Ele caiu como uma luva para o papel, uma vez que já havia feito um perfil parecido em À Procura da Felicidade(2006). Aqui, Smith, ajudado por uma maquiagem bem produzida, capricha nos trejeitos, sotaque e intensidade para viver Richard e o ator é um dos candidatos ao Oscar 2022 e tem sido elogiado pela crítica e público, incluindo as atletas Venus e Serena.

Por falar nelas, muitas pessoas questionaram a decisão de contar a jornada das esportistas sob a perspectiva do pai, tornando ele o protagonista do filme. Mas elas, que também são produtoras executivas do filme, foram categóricas em afirmar que, sem King Richard, não haveria Venus e Serena Williams. Desse modo, elas estavam de acordo que esta seria a melhor decisão. 

De mesmo modo, podemos fazer um paralelo com Dois Filhos de Francisco(2005): um pai persistente e incansável identifica o talento de seus filhos e transforma a carreira deles em uma sua missão de vida.  Assim, as filhas de Richard Williams foram incentivadas a jogar tênis porque o pai escolheu o desporto, ele estudou outras tenistas, elas foram treinadas e agenciadas pelo pai quando não tinham treinadores, o pai planejou e escreveu 100 páginas de um plano de carreira para cada uma delas.  

Além de Will Smith, o elenco como um todo é muito carismático e consegue fazer com que a audiência torça para que a família vença todas as adversidades. Apesar disso, o filme é arrastado e os momentos “palestras motivacionais” são repetitivos. Por essa razão, existem muitas cenas que parecem ter sido filmadas para serem usadas em clipes que mostram os atores na cerimônia do Oscar. Basta observar uma discussão entre a mãe, Oracene Brandy (Aunjanue Ellis) e Richard em uma situação mais dramática.

King Richard poderia ter explorado algumas polêmicas da vida real do personagem principal mas escolheu fazer um recorte menor com foco na infância de Vênus e Serena até a assinatura do primeiro contrato de Vênus com um patrocinador. É um filme de roteiro leve e previsível, com uma direção adequada mas não muito inventiva, fotografia e trilha sonora atendendo a proposta. Assim, acredito que o filme irá emocionar, divertir e até mesmo incentivar aqueles que desejam alcançar sonhos improváveis. Seja obstinado como King Richard e faça um plano.

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Críticas de filmes

Casa Gucci 

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Casa Gucci é o novo filme da MGM, dirigido por Ridley Scott (Gladiador) com um elenco estelar: Lady Gaga(Nasce Uma Estrela), Adam Driver (História de um Casamento), Al Pacino (O Irlândês), Jared Leto (Esquadrão Suicida) e Salma Hayek (Eternos). O filme estreou dia 18 de novembro nos cinemas brasileiros.
O longa é inspirado no livro de Sara Gay Forden, Casa Gucci: Uma História de Glamour, Cobiça, Loucura e Morte e narra a história da família Gucci, seguindo o conturbado casamento entre Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani e vários conflitos entre os parentes que também são sócios do império fashion.
Embora a proposta do filme seja ambiciosa, em razão de propor várias temáticas como intriga e traição familiar, bastidores do mundo da moda e conflitos empresariais, a falta de objetivo prejudica o andamento dele, principalmente na segunda metade, os acontecimentos ficam muito arrastados. Acredito que a montagem prejudicou as intenções de Ridley Scott com a obra, por exemplo, em determinados momentos os cortes são muito abruptos e para uma trama que envolve um assassinato falta tensão, aquele momento que, por mais que sabemos o que vai acontecer, é surpreendente. O assassinato de Maurizio Gucci (Driver) não é muito explorado e traz uma das cenas mais frias e desinteressantes do filme.
Outro aspecto a se destacar em Casa Gucci são as atuações. Começando por Lady Gaga, a estrela pop apresenta uma excelente atuação. A atriz disse em diversas entrevistas sobre seu processo de imersão na personagem, ela se esforçou e conseguiu atribuir maneirismos, gesticulações e identidade a sua Patrizia. Provavelmente iremos falar de Lady Gaga na temporada de premiações. Adam Driver está bem, e apesar da virada de personalidade em Maurizio, ele sempre entrega uma performance competente. De mesmo modo, Al Pacino traz a força italiana de sua própria descendência. Infelizmente, a personagem de Salma Hayek, Pina, foi desperdiçada, com um arco pequeno e sem graça.

Além disso, algumas partes tem um caráter mais folhetinesco, o personagem do Jared Leto, Paolo Gucci até tenta emplacar um bordão, que lembra uma figura que poderia ter saído de uma novela do Walcyr Carrasco. Enquanto outras partes, há uma alteração de tom buscando passar uma dramatização mais séria. Normalmente considero um ponto positivo uma obra transitar por vários gêneros, mas isso não é feito em Casa Gucci de forma harmoniosa.

Por fim, Casa Gucci não é muito claro em relação a motivação de seus personagens. É certo que você irá encontrar o glamour, a ambição, a loucura nessa trama, porém falta ao filme a energia, potência e vibração de um Os Bons Companheiros. Seria Casa Gucci mais empolgante se fosse dirigido por Martin Scorsese? Deixo a reflexão ao leitor.
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Bombando!