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Drama

Direito de Amar

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(A Single Man) De Tom Ford. Com Colin Firth, Julianne Moore, Matthew Goode, Nicholas Hoult.

O professor de inglês George Falconer (Colin Firth) é um homem solteiro. Está só desde que perdeu o companheiro que conhecera casualmente num bar em noite de chuva. Foi um acidente de carro que tiraria a vida não só do homem que amava, mas também a sua. Desde então acordar todas as manhãs tem sido uma triste constatação e até a visão mais simples de acontecimentos cotidianos lhe trazem memórias daquele amor vivido. Dos momentos prosaicos que se foram sem volta. E finalmente a certeza de que não vale a pena viver, não quando a vida não tem mais sentido, mais sabor. George Falconer decide então suicidar-se. Em Direito de Amar acompanhamos as últimas horas da vida de um homem que decide interromper-se, ato arbitrário, mas legítimo.

O roteiro adaptado pelo agora diretor Tom Ford (pra quem não sabe – espero que todos saibam – ele também é estilista, responsável inclusive pelo renascimento da Gucci nos anos 90) é hábil em conseguir desenhar um panorama de desespero e dor, de forma nunca excessiva ou exageradamente dramática. George passou muito tempo acompanhado de um vazio. Ele se manteve ali, solidificando-se de tal forma, que não dá espaço nem para momentos de catarse. George vive assim, acostumou-se com esta situação. A luta não é para superar a dor, mas sim para viver a vida dentro de uma perspectiva desesperançosa.

Nos flashbacks podemos perceber que tipo de relação George e Jim (Matthew Goode) viviam: enquanto George sempre foi o mais reservado, mais propenso mesmo a uma visão mais racional (portanto mais pessimista) da vida, Jim lhe trazia um frescor, um impulso, uma vontade de viver que por si só, George não conhecia. Diferença de personalidade que se mostra nos hábitos de cada um: George lê Metamorfose enquanto Jim lê Bonequinha de Luxo.

Desde o começo nota-se uma certa sensibilidade estética, um cuidado (esse sim às vezes excessivo) em compor cenas bonitas. Câmeras lentas, uma simetria nos enquadramentos: Tom Ford quer buscar uma elegância, uma limpeza nas composições e um apuro técnico/visual (a cena em preto e branco tem cara de editorial de moda – linda). Já a fotografia adota a estratégia de simular o olhar do protagonista, na medida em que alterna cores opacas com cores mais fortes de acordo com a emoção que é despertada em George. Assim, percebemos que se no começo deste possível último dia do professor tudo era tomado por um tom triste, isso vai sendo substituído gradualmente por um colorido, despertado por pequenos sinais de que ainda há vida ou alegria de viver. O outro mostra a George que sua dor pode ser grande, mas que ainda existe a possibilidade de ser feliz. Este individualismo (intencional neste caso, afinal há uma escolha pelo recolhimento) só pode ser quebrado quando há uma conexão com o outro. Uma conversa rápida na porta do supermercado (numa participação do modelo fetiche de Ford, Jon Kortajarena), o olhar inocente de uma criança no banco, a visão de uma mulher bonita, ou a constatação de que se é admirado (amado?) por um jovem aluno.

O roteiro pessimista nos leva num caminho de redenção, de segunda chance. Todos estão em apuros, sozinhos e de certa forma desesperados, perdidos em busca de respostas (o jantar na casa de Charley, vivida por uma sempre fantástica Julianne Moore é regado a Gim e à risadas desesperadas, denunciando um eminente colapso psicológico). Mas é justamente esta busca que projeta possibilidades melhores.

Tom Ford faz uma bela estréia no cinema. Direito de Amar (título nacional que no fim das contas não tem exatamente nada a ver com o filme) é um filme sensível, belo e tem um cuidado especial na escolha do elenco (todos sensacionais), coisa que respeito muito. Enche os olhos com lágrimas e beleza. Que venham mais filmes de Ford!

cena de Tom Ford com cara de Almodóvar em Tudo Sobre Minha Mãe
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6 Comments

6 Comments

  1. rodrigo

    14 de setembro de 2010 at 8:12

    ola pessoal preciso mto falar com vcs me add no msn rodrigo_martiny14@hotmail.com.

  2. Gui Barreto

    14 de setembro de 2010 at 18:13

    Oi,

    Ultimamente tenho ouvido falar muito nesse filme e espero assisti-lo logo..adoro filmes que retratam a solidão e a dor…acho que valem mais a pena ser assistidos…sua crítica me fez lembrar o Um Homem Sério, dos irmãos Cohen (talvez só pelo título semelhante, ou talvez pelos dois filmes contarem histórias de homens a beira de um ataque de nervos – parafraseando Almodóvar)…

    Abrs e parabens pelo texto..

  3. João

    15 de setembro de 2010 at 2:01

    valeu gui!
    fica a dica pra eu ver o dos cohen. não vi ainda.

  4. 2T

    15 de setembro de 2010 at 2:30

    Também preciso urgente ver o filme. Já estou providenciando a ocasião, mas por enquanto só me resta esperar. O Cris fez um post sobre esse filme no Apimentário e tinha conseguido me deixar curioso, você só piorou a situação, cara!

    E eu não sabia quem era o Tom Ford… HAHAHAA

  5. João

    15 de setembro de 2010 at 2:50

    claro que vc não conhecia né tt? por isso te amamos tanto.

  6. Cristiano Contreiras

    16 de setembro de 2010 at 2:05

    Gostei do tom de seu texto, analisou bem o filme, detalhou pontos gerais, você sentiu muita coisa João…

    Bem verdade, antes de ver este filme, nem esperava tanto dele, sério mesmo…até demorei de vê-lo em função disso. Ainda que goste dos trabalhos de Colin Firth.

    A maneira de colocar o personagem mais intimo do publico – com a narrativa em off, a trilha bela de Abel Korzeniowski pontuando suas emoções e, principalmente, o recurso técnico visual da linda fotografia (como você disse no post) são pontos perfeitos no filme – o uso das cores fortes, densas, quando representam algumas sensações de George é incrível de se ver…

    E é um filme que fala apenas de um homem que sente a perde de outro…de seu grande amor…um ser homossexual, sim…mas, o filme nem é panfletário…

    Eu gostei muito deste filme!
    Primoroso! Triste!

    Sou mais um que acho que o Firth merecia o Oscar e tenho dito! A trilha, de fato, merecia indicação e acho que tinha pontos positivos pra vencer.

    Abraço e leia meu texto dele no Apimentário! rs

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Críticas de filmes

Crítica: Mar de Dentro (2020)

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A maternidade e toda a sua complexidade permitem diferentes formas de abordagem no cinema, na literatura, no teatro, na TV e onde quer que ela venha a ser representada e discutida. É bom observar a crescente diferença de como ela é tratada, com obras que se permitem ir além da romantização e explorar a mistura de sentimentos que surge com a maternidade. O questionamento sobre o lugar da mulher no mundo, no seu círculo social, na carreira e até mesmo os seus valores e propósitos passam a ser comentados por todos que se sentem no direito de opinar, mesmo que nada tenham a ver com a criança. Teoricamente, todo mundo sabe o que é melhor para o bebê, menos a própria mãe. Em Mar de Dentro, a cineasta Dainara Toffoli (que tem carreira na TV e dirigiu episódios de Lili – a ex, Manhãs de setembro e As Five, entre outros trabalhos) apresenta uma mulher que leva a vida como quer, até que descobre a gravidez e tudo muda.

Manuela (Mônica Iozzi, de Mulheres Alteradas) é uma publicitária ativa, orgulhosa e independente que tem uma relação sem rótulos com Beto (Rafael Losso, da novela O Outro Lado do Paraíso), está muito bem assim e acredita ter total controle sobre a própria vida. Entretanto, a gravidez não-planejada é o começo de uma trajetória diferente de tudo o que ela está acostumada. A insegurança no trabalho é o primeiro choque de realidade que Manuela recebe e ter a sua carreira colocada em risco é o início de um processo de mudanças. Ainda assim, a publicitária tem o privilégio de ter como pai de seu filho um homem que se mostra disposto a permanecer ao seu lado e ser pai não só nos documentos e nas redes sociais, mas alguém presente na vida da criança e de Manuela.

Engana-se quem acredita que a descoberta da gravidez funciona como um botão que, quando apertado, torna toda e qualquer mulher extremamente sensível e um reflexo de amor. Cada mulher é uma mulher, e Manuela desenvolve uma espécie de “maternidade distante”, como se estivesse de corpo presente, mas com a cabeça muito longe. Aceitar a gravidez não-planejada não é um processo fácil, e a publicitária, naturalmente, precisa de um tempo para entender e assimilar tudo o que está acontecendo. Novamente, ela é lembrada de que não tem controle sobre a própria vida e vê seu mundo desabar.

Sem cair na armadilha do extremismo, atriz e diretora esmiúçam a relação entre mãe e filho e mostram que é possível amar o(s) filhos(s) e não gostar da maternidade. Enquanto o bebê se desenvolve, evolui, aprende e também ensina a mulher, ser mãe consome, poda, desgasta e suga todas as energias. 

A sociedade clama, o tempo todo, por mulheres fortes e a maternidade traz o sentimento de que essa força está sendo roubada e, no lugar, o que entra é a ignorância e a vulnerabilidade. Não importa o que faça, cada ação de uma mãe é julgada. A mãe que trabalha fora de casa é tão ou mais criticada do que a mãe “dona de casa”. E os sonhos e os planos desta mãe, para onde vão? 

Como amar esse papel, então? Como aceitar, com um sorriso no rosto, todos os poréns que acompanham a nova função e, o mais importante, entender que é para sempre e, ainda assim, mostrar a todos que não existe felicidade maior do que a de mãe?

A narrativa não quer transformar a protagonista em heroína, mas fazê-la entender o que está acontecendo à sua volta, a compreensível melancolia dos primeiros meses da maternidade e o sentimento agridoce que nasce com um bebê.

O drama de Manuela e o trabalho de Mônica Iozzi são profundos e trazem à tona a complexidade dos sentimentos que chegam com a maternidade. Mônica mostra com competência que os papéis cômicos, que a apresentaram ao público, não é o seu limite e alcança evidente maturidade na carreira. Ela transforma Manuela em uma conhecida não muito próxima, mas a quem queremos bem.

Sob a direção certeira de de Toffoli, Mar de Dentro se torna um drama eficiente sem apelar para a identidade de filme com viés feminino e mostra que surgiu sabendo que haverá significativa identificação com o público.

Mar de Dentro não tenta passar a mensagem de que a maternidade é ruim, mas que é difícil todos os dias.

Todos os dias.

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Críticas de filmes

King Richard: um plano e um pai determinado

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O quanto um pai obstinado pode impulsionar a carreira de seus filhos? O novo longa metragem da Warner, King Richard: Criando Campeãs, estreia no Brasil dia 02 de dezembro e retrata a história de Richard Williams, pai das tenistas Venus e Serena Williams e sua determinação em torná-las as maiores jogadoras de tênis do planeta. Spoiler (porém não tanto, porque é um fato): ele conseguiu. 

Nesta cinebiografia, Richard Williams é interpretado por uma das estrelas mais queridas de Hollywood: Will Smith. Ele caiu como uma luva para o papel, uma vez que já havia feito um perfil parecido em À Procura da Felicidade(2006). Aqui, Smith, ajudado por uma maquiagem bem produzida, capricha nos trejeitos, sotaque e intensidade para viver Richard e o ator é um dos candidatos ao Oscar 2022 e tem sido elogiado pela crítica e público, incluindo as atletas Venus e Serena.

Por falar nelas, muitas pessoas questionaram a decisão de contar a jornada das esportistas sob a perspectiva do pai, tornando ele o protagonista do filme. Mas elas, que também são produtoras executivas do filme, foram categóricas em afirmar que, sem King Richard, não haveria Venus e Serena Williams. Desse modo, elas estavam de acordo que esta seria a melhor decisão. 

De mesmo modo, podemos fazer um paralelo com Dois Filhos de Francisco(2005): um pai persistente e incansável identifica o talento de seus filhos e transforma a carreira deles em uma sua missão de vida.  Assim, as filhas de Richard Williams foram incentivadas a jogar tênis porque o pai escolheu o desporto, ele estudou outras tenistas, elas foram treinadas e agenciadas pelo pai quando não tinham treinadores, o pai planejou e escreveu 100 páginas de um plano de carreira para cada uma delas.  

Além de Will Smith, o elenco como um todo é muito carismático e consegue fazer com que a audiência torça para que a família vença todas as adversidades. Apesar disso, o filme é arrastado e os momentos “palestras motivacionais” são repetitivos. Por essa razão, existem muitas cenas que parecem ter sido filmadas para serem usadas em clipes que mostram os atores na cerimônia do Oscar. Basta observar uma discussão entre a mãe, Oracene Brandy (Aunjanue Ellis) e Richard em uma situação mais dramática.

King Richard poderia ter explorado algumas polêmicas da vida real do personagem principal mas escolheu fazer um recorte menor com foco na infância de Vênus e Serena até a assinatura do primeiro contrato de Vênus com um patrocinador. É um filme de roteiro leve e previsível, com uma direção adequada mas não muito inventiva, fotografia e trilha sonora atendendo a proposta. Assim, acredito que o filme irá emocionar, divertir e até mesmo incentivar aqueles que desejam alcançar sonhos improváveis. Seja obstinado como King Richard e faça um plano.

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Críticas de filmes

Casa Gucci 

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Casa Gucci é o novo filme da MGM, dirigido por Ridley Scott (Gladiador) com um elenco estelar: Lady Gaga(Nasce Uma Estrela), Adam Driver (História de um Casamento), Al Pacino (O Irlândês), Jared Leto (Esquadrão Suicida) e Salma Hayek (Eternos). O filme estreou dia 18 de novembro nos cinemas brasileiros.
O longa é inspirado no livro de Sara Gay Forden, Casa Gucci: Uma História de Glamour, Cobiça, Loucura e Morte e narra a história da família Gucci, seguindo o conturbado casamento entre Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani e vários conflitos entre os parentes que também são sócios do império fashion.
Embora a proposta do filme seja ambiciosa, em razão de propor várias temáticas como intriga e traição familiar, bastidores do mundo da moda e conflitos empresariais, a falta de objetivo prejudica o andamento dele, principalmente na segunda metade, os acontecimentos ficam muito arrastados. Acredito que a montagem prejudicou as intenções de Ridley Scott com a obra, por exemplo, em determinados momentos os cortes são muito abruptos e para uma trama que envolve um assassinato falta tensão, aquele momento que, por mais que sabemos o que vai acontecer, é surpreendente. O assassinato de Maurizio Gucci (Driver) não é muito explorado e traz uma das cenas mais frias e desinteressantes do filme.
Outro aspecto a se destacar em Casa Gucci são as atuações. Começando por Lady Gaga, a estrela pop apresenta uma excelente atuação. A atriz disse em diversas entrevistas sobre seu processo de imersão na personagem, ela se esforçou e conseguiu atribuir maneirismos, gesticulações e identidade a sua Patrizia. Provavelmente iremos falar de Lady Gaga na temporada de premiações. Adam Driver está bem, e apesar da virada de personalidade em Maurizio, ele sempre entrega uma performance competente. De mesmo modo, Al Pacino traz a força italiana de sua própria descendência. Infelizmente, a personagem de Salma Hayek, Pina, foi desperdiçada, com um arco pequeno e sem graça.

Além disso, algumas partes tem um caráter mais folhetinesco, o personagem do Jared Leto, Paolo Gucci até tenta emplacar um bordão, que lembra uma figura que poderia ter saído de uma novela do Walcyr Carrasco. Enquanto outras partes, há uma alteração de tom buscando passar uma dramatização mais séria. Normalmente considero um ponto positivo uma obra transitar por vários gêneros, mas isso não é feito em Casa Gucci de forma harmoniosa.

Por fim, Casa Gucci não é muito claro em relação a motivação de seus personagens. É certo que você irá encontrar o glamour, a ambição, a loucura nessa trama, porém falta ao filme a energia, potência e vibração de um Os Bons Companheiros. Seria Casa Gucci mais empolgante se fosse dirigido por Martin Scorsese? Deixo a reflexão ao leitor.
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