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Em Transe

 

OS CRÉDITOS DE EM TRANSE TERMINAM COM O SOM DE BATIDAS EM ALGUM OBJETO. É o alerta para o espectador “despertar” do realmente hipnotizante trabalho mais recente do eficiente Danny Boyle, um dos principais cineastas surgidos nos anos 90. Após mergulhar em uma trama onde nada é exatamente o que parece, com ladrões gananciosos apaixonados por uma especialista em hipnose, nada mais justo que Boyle se despedir com uma irônica batida para nos fazer refletir mais sobre cada um daqueles personagens.

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Simon (James McAvoy) tenta reagir a um assalto e leva uma porrada muito bem dada na cabeça. O ladrão Franck (Vincent Cassel) e seus comparsas fogem achando que conseguiram roubar uma valiosa pintura, mas depois descobrem que foram enganados por Simon, que fazia parte de todo o golpe e passou a temer por sua segurança. O malandro pede ajuda para a Dra. Elizabeth (Rosario Dawson), uma especialista em hipnose para conseguir se lembrar o local que deixou o quadro roubado.

O roteiro dá várias pistas do que está realmente acontecendo e da importância da tensão sexual envolvendo os três personagens principais. Os dois homens sentem uma atração forte e inexplicável por Elizabeth, que nem precisaria ser uma pica das galáxias da hipnose para causar confusão mental em um homem. Franck é um ladrão sofisticado, que acredita piamente na existência da chance dele ser enganado por Simon, que por sua vez, se apaixona perdidamente por Elizabeth. Ao longo da trama, vamos percebendo seu comportamento ciumento e controlador, e isso nos faz questionar se existem mesmo vilões reais no longa-metragem.

Em Transe - Mind Blow trance vincent cassel

Seria um crime deixar de falar sobre a cena de nudez frontal de Rosario Dawson. Ao contrário do que acontece em 90% dos filmes, a personagem realmente precisava ficar nua. Se quiserem culpar alguém, que seja o roteirista por ter introduzido um elemento importante relacionado, mas quem dizer que é gratuito precisa tomar aulas sérias de interpretação. No final das contas, o público masculino não está nem aí se aquilo tem valor ou não para a trama, pois estarão todos de boca aberta babando para a irritação de suas respectivas namoradas.

Um problema de acompanhar a carreira de um cineasta querido desde seus primeiros trabalhos é que você passa a entender o que ele quer e se acostuma com aquilo que pode ser chamado de zona de conforto. No caso, assim como aconteceu com Leonardo DiCaprio, em A Praia; e Cillian Murphy, em Extermínio; o protagonista James McAvoy entra em cena lutando contra um adversário invisível: o ator Ewan McGregor, de Trainspotting e Cova Rasa. Especialmente durante os primeiros minutos, foi muito difícil não enxergar o antigo parceiro de Danny Boyle. Enquanto o personagem narrava a sua história, só consegui imaginar que estava ouvindo a voz de McGregor. Claro que isso não afeta em nada o excelente desempenho de McAvoy, mas como admirador do cinema de Boyle, eu teria sido mais feliz se meu desejo tivesse sido realizado. Quem sabe um dia os dois não consigam reatar a relação?

A assinatura de Boyle é percebida logo na introdução, com aquela tradicional mistura de humor estranho (um carro rosa, sério?) com violência em uma montagem rápida e uma trilha sonora ensurdecedora. Para os fãs, um verdadeiro deleite sonoro e visual. Para os não iniciados, um choque que poderá agradar ou não. Imagino que os mais sensíveis ficarão desesperados com o barulho frenético explodindo das caixas de som. Não, não acaba nunca. E não, o barulho não vai diminuir. Ele quer que o espectador fique pilhado e entre na mesma onda dos personagens. Na maioria das vezes, Boyle é bem sucedido.

Em transe - Rosario

Relembrando os trabalhos anteriores do diretor, Em Transe apresenta um Danny Boyle amadurecido e cada mais consciente da sua maneira de fazer cinema. É bom ver um diretor voltando às suas origens com uma trama mais suja depois da fábula Caiu do Céu, do oscarizado Quem Quer Ser Um Milionário?, e do drama 127 Horas. Mesmo que sejam três obras de qualidade, o verdadeiro talento de Boyle está em mergulhar na cabeça de personagens ambíguos e que desfilam na linha tênue entre o certo e o errado. Em Transe agradará em cheio aos fãs mais antigos.

Alguns amigos da crítica chegaram a comentar que Em Transe é o “A Origem” de Danny Boyle. Considerando a possível confusão mental que o roteiro poderá deixar na cabeça dos espectadores, sim. Mas se tratando de história, são duas produções completamente diferentes. Em Transe brinca com o espectador ao mostrar que todo mundo pode ser mocinho ou vilão, que é tudo uma questão de ponto de vista. No fim, é só uma homenagem ao incrível talento que as figuras femininas têm de corromper e abalar completamente a estrutura mental de homens psicologicamente instáveis. Ou seja, é imperdível e promete melhorar ainda mais a cada revisão.

Em transe - Poster

Em transe - Destaque


Nota:[quatro]