Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Farrapo Humano


CINEMA É UM ELEMENTO HISTÓRICO. Analisar uma obra cinematográfica é pensar não só no contexto em que se encaixa a história contada, mas também estudar a obra de acordo com o período em que foi feita. Billy Wilder, diretor de Farrapo Humano, é um dos grandes diretores da história do cinema. Michel Hazavinicius admitiu que O Artista é um tributo aberto a ele e estudou todos os seus filmes para fazer sua própria obra. Reconheço isso e admiro seu pioneirismo, sua maneira de contar histórias, a fotografia bem elaborada em toda a sua filmografia. Eu mesma sou fanática por filmes antigos. O problema, às vezes, é contextualizar a dramaticidade e a cultura da época quando faço parte de uma geração muito cínica, em que a atuação parece improviso mesmo quando não é e tende a se tornar cada vez mais natural, mais crível à modernidade.

Billy Wilder é da era de ouro do cinema. Fez filmes memoráveis como Crepúsculo dos Deuses, Pacto de Sangue, Quanto Mais Quente Melhor, Sabrina, O Pecado Mora Ao Lado e A Montanha dos Sete Abutres, dentre vários outros. É da era dos chefões de estúdio, quando os produtores mandavam mais que o diretor. É também da era em que o cinema não tinha beijos de língua nem casais dormindo na mesma cama, mas tinha cigarros fumados aos montes em áreas fechadas. A atuação é, naturalmente, exagerada se comparada aos dias de hoje.

 história se passa em Nova Iorque e conta a história de um alcoólatra sustentado pelo irmão e cuidado pela pobre namorada, que sofre para ajudá-lo já que ele é um típico viciado que não aceita ajuda de maneira alguma. Don Birnam (Ray Milland) arruma as malas para viajar com o irmão Wick (Phillip Terry) após mais um escândalo causado pela bebedeira, porém a contragosto. Consegue escapar do compromisso e ganha quatro dias com dez dólares (quantia relativamente alta para a época) no bolso – roubados do irmão. Chega a se humilhar por uma dose, rouba dinheiro mas devolve, vai parar num hospital toxicômano e muito mais… Tamanho é seu vício que em dado momento conversa com o garçom, revoltado, sobre como é absurdo bares não abrirem aos domingos e feriados! Sem contar outros momentos, como o que vai assistir a ópera La Traviata e tem alucinações com casacos com bebidas no bolso, ou como quando beija uma mulher que é apaixonada por ele só para conseguir dinheiro emprestado e beber mais. É uma odisseia deplorável. Don é ranzinza com todos, inclusive com a mulher que tanto ama. A bebida o transformou num monstro digno de pena.

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Bom, pena não foi bem o que senti; eu chamaria de desprezo. A doença expressada no filme é fantástica – jogo de luzes e sombras e elementos gráficos que ilustram de forma intrigante o que é conviver com um alcoólatra e também ser um. Talvez seja esse o efeito que Wilder quisesse causar ou então fosse a única alternativa depois de tudo o que é mostrado. Não pude criar simpatia por um homem que destruía tudo ao redor, mesmo não sendo sua intenção consciente. Tampouco me simpatizei com o final, mas a história é inspirada num livro de Charles R. Jackson e quem sou eu para argumentar a adaptação já que não li a obra. Mas a revolta que senti me fez entender que é esse o espírito. É isso o que um viciado sente por si mesmo e além. Não é um filme feliz. Desde quando assistir um pobre sofredor se arrastar pelos cantos de Nova Iorque para alimentar um vício horrível nos enche de alegria? E aqui eu me deparei com o problema do contexto novamente, mas muito mais com o livro que com o filme propriamente dito. Achei a abordagem mais teatral, exagerada, adocicada demais. Culpa da época. Artisticamente falando, são milhares de anos luz e por mais que tentemos, jamais entederemos realmente o contexto porque somos seres subjetivos, sociais e contemporâneos. Chegamos perto mas não lá. O que nos resta é sentir a frustração – não menos interessante e ilustrativa -; reconhecer e admirar a coragem de um diretor em demonstrar uma história nada conservadora para a época – história essa que deixou a indústria de bebidas atarantada e que marcou para sempre (não de uma maneira muito boa) a carreira de Ray Milland, mesmo sendo sucesso de crítica e levando quatro Oscars para casa.


Título original: The Lost Weekend
Direção: Billy Wilder
Produção: Charles Brackett
Roteiro: Charles Brackett e Billy Wilder
Elenco: Ray Milland, Jane Wyman, Phillip Terry, Howard da Silva, Doris Dowling e Bim Nolan
Lançamento: 1945

Nota:  

 

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