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Filme: 45 Anos

45 anos filme crítica

Para quem viu Amour (2012), à primeira vista pode parecer que 45 Years (45 Anos, 2015) é parecido. Bom, temos também um casal de idosos que está junto há várias décadas e enfrenta um problema. Talvez tenham também em comum o fato de que são histórias comoventes, dramáticas e brilhantemente interpretadas pelo elenco. Mas é só. Enquanto o filme austríaco focou na luta dos protagonistas diante de uma doença, o britânico procura explorar os efeitos de um segredo na vida deles.

Seguindo uma narrativa lenta e rotineira, o drama de Andrew Haigh começa em uma segunda-feira e termina em um sábado à noite. Ou seja, acompanhamos uma semana na vida de Kate (Charlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtenay), os quais completam 45 anos de casamento. O problema é que uma notícia pode impactá-los para sempre: no início do longa, o personagem recebe uma carta, dizendo que o corpo de sua ex-namorada foi encontrado na Suíça, 50 anos depois de sua queda nos alpes; e preservado. Junto de uma outra descoberta sobre o passado do marido, Kate começa a ver tudo o que viveram de maneira diferente.

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Não espere conflitos atrás de conflitos e um desfecho onde tudo se resolve. Um dos pontos fortes de 45 Anos é seu forte compromisso com a realidade e, em um contexto desses, é um pouco difícil termos um acerto muito positivo. Imagine estar casado com uma pessoa por décadas e, na semana de uma grande comemoração do seu casamento, um segredo do passado de seu parceiro (a) vem à tona? A sua perspectiva eventualmente muda e, talvez, para pior.

As transformações são vistas em ambos os lados. Geoff pensa em realmente ir à Suíça para ver o corpo da ex-namorada e começa a falar dela o tempo todo; Kate começa a ficar cansada de ouvir sobre ela e percebe a mudança de comportamento do marido, sem contar uma outra coisa que descobre sobre o relacionamento antigo dele. Enfim, colocando-se no lugar deles, é possível entender o porquê de sofrerem um baque tão grande.

O filme documenta a rotina do casal nesses seis dias e ela não é, digamos, movimentada. Isso faz parte da história, mas é sempre bom destacar para quem não está acostumado a ver filmes com tal narrativa. Muitas coisas acontecem, como surpresas e brigas, só que tudo dentro de um enredo mais lento, gradual e extremamente dramático. O humor é bastante leve aqui, quase não existente.

O amor supera tudo? Bom, não posso dar essa resposta porque vou revelar o final de 45 Anos. No entanto, o roteiro discute muito bem essa questão e nos faz refletir sobre a mesma: o que você faria se descobrisse um enorme segredo sobre o passado do seu marido com outra mulher? Parece um conflito bobo já que a outra pessoa está morta, mas fica pior quando você percebe que tudo poderia ter sido diferente caso ela estivesse viva.

Rampling e Courtenay nos dão performances espetaculares aqui, seja em uma dança na sala de visita, em um sexo que dá errado ou na cena final já na festa do casamento. Cena que praticamente nos dá uma dica sobre o que pode acontecer depois daquele sábado. Fim perfeito para um roteiro bem construído e bastante emocionante.