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Filme: A Entrevista

A Entrevista James Franco
Se você tem acesso à internet e esteve conectado à rede mundial de computadores nas últimas semanas – e portanto não é um alienígena nem mora na Coreia do Norte -, já sabe por que A Entrevista se tornou o filme mais comentado deste mês de dezembro: depois de ter seus sistemas hackeados em uma ação que resultou no “vazamento” de alguns de seus projetos ainda inéditos além de uma série de informações sigilosas, a Sony passou a receber ameaças aparentemente vindas de grupos ligados ao governo norte-coreano que teriam chegado a mencionar o uso de bombas nas salas que exibissem o longa e fazer alusões aos atentados de 11 de Setembro, tudo porque sua trama gira em torno de um plano para assassinar o presidente ditador Kim Jong-un (que, por sua vez, teria sua imagem “arranhada” pela produção) – e a conclusão desse conflito midiático foi o quase cancelamento da estreia do longa, que acabou sendo disponibilizado apenas em VOD e em salas cuidadosamente selecionadas.

Qualquer um que assistir a A Entrevista sem motivos pessoais para sentir-se ofendido, porém (ou seja, por qualquer um entre os 99,9% da população mundial que não enxerga Jong-un como um semideus sem ânus), verá que toda essa fumaça resultou, no máximo, de uma brasinha branda escondida por baixo de uma pilha de carvão: seu humor, como em todo filme produzido, escrito, dirigido e atuado pela patota afiliada a Judd Apatow, brota mais da estupidez de seus protagonistas que da ofensa ao alvo de seus preconceitos, sua abordagem é absurda o suficiente para não ser levada a sério e, por fim, o ditador propriamente dito é retratado como um sociopata sanguinolento, sim, mas também como uma figura sensível e trágica cujas ações violentas derivam de um profundo desequilíbrio emocional causado pela opressão de seu pai – uma descrição muito mais lisonjeira que aquela que qualquer um que ouça falar de seus crimes tenderia a empregar.

O roteiro, escrito por Dan Sterling, gira em torno de Dave Skylark (Franco), o excêntrico apresentador de um famoso talk show sensacionalista, e Aaron Rapaport (Rogen), seu diretor. Acostumados a lutar por audiência através da exposição de detalhes da vida pessoal e de revelações “bombásticas” de seus entrevistados (em um programa, o rapper Eminen “sem querer” assume-se homossexual e todo o foco da entrevista de Skylark muda-se para este fato; em outra, o ator Rob Lowe tira a peruca e revela uma careca constrangedoramente mal-disfarçada por pequenas mechas de cabelo esticadas sobre o crânio), eles veem a oportunidade de “estourar” quando descobrem que Jong-un (Park) é fã de Skylarg e conseguem convencer o tirano a conceder-lhe sua primeira entrevista exclusiva a ser transmitida mundialmente – e é então que o FBI, através da agente Lacey (Caplan, linda), propõe a Dave e Aaron que usem essa oportunidade para assassinar o presidente.

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Equilibrando-se sobre a linha fina dos “imbecis adoráveis” que marcam todos os filmes da gangue que conta ainda com Steve Carrell, Jonah Hill, Michael Cera, Jason Segel, Paul Rudd entre muitos outros, Franco e Rogen vivem aqui suas típicas personas cinematográficas: enquanto o primeiro é o galanteador barato cujo sorriso cafajeste só não gera antipatia por enfeitar o rosto de um sujeito carinhoso e extremamente leal aos amigos, o segundo é o gordinho judeu dono de um humor auto-depreciativo que funciona como um escudo contra uma infinidade de complexos de inferioridade. E se seus personagens volta e meia acabam se comportando como criaturas machistas e xenofóbicas, seus filmes jamais deixam de apontar que essas características os transformam em seres patéticos que não conseguem evitar ser motivo de chacota por onde quer que vão (uma estratégia clássica de humor que pode ser observada no trabalho de gênios como Woody Allen, Jim Carrey e a trupe do Monty Python).

Repleto de sequências hilárias em seu nonsense – o clímax em câmera lenta ao som de “Firework” é sem exageros um dos grandes momentos do Cinema no ano -, A Entrevista acerta também ao apropriar-se de elementos de comédia romântica (uma “sacada” antiga que o divertidíssimo Anjos da Lei 2 levou às últimas consequências este ano) para desenvolver a relação entre Skylark e Jong-un, e, no processo, revelar ambos como sujeitos adoravelmente carentes e ingênuos por um lado, mas perigosamente escorregadios e manipuladores por outro, jogando para a publicidade política e de guerra a responsabilidade por tentar embaraçosamente disfarçar as consequências trágicas tanto do regime totalitário norte-coreano quanto da política externa historicamente desastrada praticada nos Estados Unidos – e o povo do país de Jong-un não tem o direito sequer de reclamar da violência atribuída pelo longa a seu país, pois o mesmo não deixa de retratar a maneira igualmente bárbara com a qual os próprios EUA costumam acertar suas contas.

Mesmo que nenhuma dessas críticas estivessem presentes no roteiro do longa, afinal, este não perderia sua eficiência única e exclusivamente como comédia – e o simples fato de ter tocado na ferida do regime horroroso praticado na Coreia de Norte em nossos dias já é prova de que, mesmo que não atinja a sagacidade de um O Grande Didator, Rogen, o co-diretor Evan Goldberg e todos os envolvidos com sua produção estão fazendo exatamente o que o humor tem a obrigação de fazer: fazer-nos rir – e no processo pensar – sobre tudo o que a humanidade tem feito de mais estúpido mundo afora.

30 de Dezembro de 2014.