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Filme: Desde Allá (Mostra de São Paulo 2015)

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Durante boa parte de sua hora e meia de duração, o venezuelano Desde Allá (vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano) é um estudo de personagens delicado, franco e paciente que apresenta e desenvolve dois personagens perdidos que, apesar de virem de realidades diametralmente opostas, no fundo alimentam a mesma necessidade de afeto, atenção e carinho. Foi com enorme decepção, portanto, que vi o longa enveredar para o lado da reviravolta sensacionalista aos 45 minutos do segundo tempo, em uma tentativa compreensível, mas frustrante de seu cineasta de conceber um clímax (qualquer que fosse) a uma trama que até ali fora movida apenas pelas ações de sua dupla de personagens centrais.

Escrito e dirigido por Lorenzo Vigas, um estreante em longas-metragens, Desde Allá gira em torno do relacionamento súbito e inusitado que se estabelece entre Armando (Castro) e Elder (Silva): logo na cena que abre a projeção, descobrimos que o primeiro, um senhor de cerca de cinquenta anos de idade, tem o hábito de pagar adolescentes que encontra na rua para que tirem a roupa à sua frente e lhe sirvam de inspiração sexual. Certo dia, ele contrata Elder, que fica com o dinheiro, mas lhe dá uma surra e acaba escapando – o que não o impede de continuar indo atrás do rapaz, que se revela um trombadinha pertencente a uma família destruída e logo passa a frequentar assiduamente o apartamento do protagonista.

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Apesar do que o final do parágrafo anterior pode indicar, a relação que nasce entre Armando e Elder não é, pelo menos a princípio, de natureza sexual. Ao invés disso, os dois criam um vínculo tumultuado que se alterna entre a compaixão mútua e a completa rejeição – e o fato de aceitarmos e até mesmo nos identificarmos com Armando, um personagem apresentado inicialmente como um monstro, é prova da sensibilidade com que Vigas desenvolve seus dramas, apresentando o sujeito como um homem vulnerável e profundamente marcado por traumas do passado (que provavelmente resultam de ações violentas cometidas por seu pai, um empresário multimilionário) e oferecendo-lhe redenção (assim como a Elder) através de atitudes altruístas que revelam uma alma torturada, sim, mas inclinada a olhar para a dor do próximo.

Adotando uma estética contemplativa através de quadros estáticos que ocasionalmente movimentam-se de maneira discreta e que mantém certa distância dos personagens, como se o filme evitasse se aproximar de seus problemas (uma lógica que se inverte de maneira apropriada quando o longa se aproxima de seu desfecho), Vigas mostra-se um cineasta extremamente seguro para um principiante, demonstrando plena confiança em sua narrativa e jamais flexibilizando sua estética em prol da manipulação melodramática – até, claro, jogar tudo para o alto ao levar seus personagens a tomar decisões drásticas, absurdas e inegavelmente aleatórias.

Um erro que se mostra um verdadeiro tiro no pé por tirar-nos da sala de projeção com um gosto amargo de trapaça na boca. Uma sensação injusta diante da eficiência da narrativa até ali, mas que certamente dilui o impacto da narrativa na mente do espectador.

Desde Allá (Idem, Venezuela, 2015). Escrito e dirigido por Lorenzo Vigas, baseado em história de Guillermo Arriaga. Com Alfredo Castro, Luis Silva, Jericó Montilla, Catherina Cardozo, Jorge Luis Bosque, Greymer Acosta, Auffer Camacho e Ivan Peña.