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Filme: Loucas Pra Casar

loucas pra casar crítica 2015

Quando vi o trailer de Loucas Pra Casar (Brasil, 2014), pensei que seria mais um filme de comédia bobo, com uma história clichê, interpretada por um elenco talentoso. E, é claro, muito engraçado, algo que o cinema brasileiro tem especialidade. Quando terminou, queimei minha língua. Nos minutos finais, fui surpreendida por um roteiro original e que vai muito além do “mulher bem-sucedida que é traída pelo namorado cafajeste, desmorona e briga com as amantes”.

Resumindo, Malu (Ingrid Guimarães) é uma corretora de imóveis que trabalha em uma empresa de sucesso, cujo dono, Samuel Barros (Márcio Garcia), não só conta com ela como assistente, como é também seu namorado há três anos. Porém, mesmo em uma relação estável e cheia de paixão, a protagonista enfrenta problemas de confiança em função de traumas de relacionamentos anteriores, que sempre acabaram mal. Quando começa a ver todas as suas amigas se casarem e terem filhos, a situação só piora: ela tem 40 anos e está desesperada para ter o mesmo. Mas o pior ainda está por vir: ela descobre que o seu bonito e charmoso parceiro está tendo um caso com outras duas mulheres; e por três anos também.

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À primeira vista, o roteiro de Marcelo Saback e Júlia Spadaccini me lembrou um pouco o de Os Homens São de Marte…e é Pra Lá que Eu Vou, lançado em 2014. Isto porque é sobre uma mulher bonita, bem-sucedida, mas que está na casa dos 40 anos e mal pode esperar para se casar. Até os primeiros minutos remeteram um pouco à produção do ano passado, pois resumem a vida de Malu e os homens que passaram por sua vida até o momento atual. Os típicos coadjuvantes engraçados também estão lá, representados por Suely (Fabiana Karla) e Rubi (Edmilson Filho). O fato de serem três enganadas pelo mesmo cara também lembrou-me remotamente de The Other Woman, só que elas jamais se unem para acabar com ele. Mas é só.

Na comédia de Roberto Santucci, a dinâmica é outra. O diretor nos apresenta não só a personagem principal, como as amantes de Samuel: a beata Maria (Tatá Werneck) e a dançarina Lúcia (Suzana Pires). E elas são hilárias! Gostei do fato do enredo nos mostrar brevemente a história de cada uma delas, o que fazem e seus amigos, antes de ambas entrarem em confronto com Malu. Elas não são vilãs, são apenas pessoas enganadas por um homem que não aguenta ficar só com uma mulher e não querem abrir mão dele mesmo assim. Sim, as três vão disputá-lo e ver quem que, no fim das contas, vai ser pedida em casamento.

O que mais gostei é que uma não tenta sabotar a outra como naquelas comédias americanas. Nada de envenenar comida, colocar laxante, estragar vestido, etc. Elas se encontram, tentam entrar em um acordo, mas acabam voltando a brigar por Samuel até mesmo nos mesmos locais. E ele fica louco, é claro! Por outro lado, mesmo não conseguindo ficar com uma só e sempre render aos charmes delas, ele mostra que é uma boa pessoa. Não trata nenhuma mal e apoia Malu quando sua mãe (Camila Amado) fica gravemente doente. E quando falo apoiar não é dizer coisas bacanas, mas também pagar o tratamento da mulher. Você o odeia e o ama pelas coisas que faz.

O que me surpreendeu afinal? Bom, se eu disser vou dar um spoiler terrível para você. Posso apenas informar que o desfecho é surpreendente e original. Do nível que você fica de queixo caído, totalmente pego de surpresa. No começo, você pode ficar um pouco confuso, tentando juntar as peças, mas consegue absorver tudo. E provavelmente vai pensar o mesmo que eu pensei: de cara, parece mais uma comédia recheada de humor com um conteúdo superficial, mas, no final, é bem diferente e uma maneira nova de mostrar o que acontece quando uma mulher fica desesperada ao descobrir que o homem que pensava ser o ideal não era o que ela pensava. O enredo explora mais profundamente a personagem central e isso me agradou bastante.

Loucas Pra Casar tem um trio protagonista fenomenal, com atrizes carismáticas e que dão interpretações convincentes e muito cômicas. Guimarães mostra mais uma vez por que é uma das atrizes mais admiradas do Brasil com sua veia cômica e séria à flor da pele – graças à presença da mãe de sua personagem, ponto diferencial do roteiro clichê que eu esperava -; Werneck foi revelada recentemente, mas prova que veio pra ficar e nos faz morrer de rir com suas expressões e maneira rápida de falar; e Pires chega com tudo com a personalidade durona e ousada de Lúcia. Garcia meio que some entre elas, só que não por falta de talento; as mulheres simplesmente apoderam-se do roteiro e dominam as câmeras. Ele não tinha muito o que fazer.

Recomendo a comédia de Santucci por seu roteiro hilário e original e pelo elenco que atende às expectativas e conquista o espectador nas diversas cenas que protagoniza. Nada como sair do cinema satisfeito e surpreso, mesmo com o fim clichê dos filmes do gênero e algumas personagens estereotipadas. Vale o ingresso!