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Filme: Os Campos Voltarão (Mostra de São Paulo 2015)

os campos voltarão

Há filmes que funcionam graças a sua trama, outros que conquistam o espectador por seus personagens e outros que, como este belíssimo Os Campos Voltarão, arrebatam por conseguir nos transportar a seu universo diegético, produzindo sensações quase físicas que dispensam uma história bem elaborada ou mesmo personagens tridimensionais. Neste estudo proposto pelo veterano cineasta italiano Ermanno Olmi sobre o pavor da guerra, os personagens, cujos rostos amedrontados e barbudos mal se diferenciam entre si, encontram-se literalmente paralisados e impedidos de agir; mas seu medo diante da proximidade da morte brota de seus poros e nos contamina do lado de cá da tela.

Ambientado na fronteira entre a Itália e a Áustria em uma única noite congelada durante a Primeira Guerra Mundial, o roteiro escrito pelo próprio Olmi se concentra em uma trincheira italiana que, localizada a poucos metros da austríaca, enfrenta uma gravíssima epidemia de febre enquanto aguarda o fim de um cessar-fogo instalado devido ao mau tempo para dar seus próximos passos. Ao fundo, já se ouvem sons de canhões e morteiros, indicando que a batalha poderá ser reiniciada a qualquer momento – mas antes de pensar nela, aqueles combatentes precisam sobreviver ao frio impiedoso, à falta de comida e água potável e, claro, à tristeza e ao medo que os paralisam ainda mais que a fraqueza física.

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Após um pequeno (e poético) prólogo em que um soldado italiano canta uma canção para as duas tropas entrincheiradas, o longa assume um tom claustrofóbico ao focar na interação entre os personagens no interior de sua humilde instalação. Aqui e ali, um ou outro elemento de história pode ser visto, como a desconfiança acerca da provável existência de passagens subterrâneas que podem estar sendo usadas pelos inimigos para se aproximar em segredo ou a escolha de um voluntário para deixar a trincheira por alguns minutos a fim de tentar restabelecer as comunicações do grupo via telefone, mas o que importa para Olmi são as consequências psicológicas que tais eventos causam naqueles pobres homens – e não é à toa, portanto, que a cena da “votação” acabe se transformando em um dos momentos mais tristes da projeção por escancarar o profundo estado de desesperança em que os personagens se encontram.

Fotografado por Fabio Olmi com cores extremamente lavadas que beiram o preto e branco (e o contraste entre o branco da neve e o preto da trincheira só é levemente quebrado pela pigmentação pálida e quase imperceptível dos rostos dos atores), o filme usa os uniformes velhos, úmidos e desgastados dos personagens e a precariedade tanto da cabana em que estes se abrigam quanto dos objetos que lá se encontram também como um comentário constante sobre a realidade melancólica e desesperançada que se abate sobre eles, levantando uma reflexão certeira sobre o absurdo da guerra sem precisar apelar para o melodrama e para o maniqueísmo barato.

Culminando em um desfecho contido, mas coerente com a proposta de toda a narrativa, Os Campos Voltarão merece aplausos por emocionar sem sensacionalismo, nos lembrando de nossa própria vulnerabilidade e pequenez como indivíduos diante de nossa própria maldade e crueldade como espécie.

Os Campos Voltarão (Torneranno i Prati Itália, 2015). Escrito e dirigido por Ermanno Olmi. Com Claudio Santamaria, Camillo Grassi, Niccolò Senni, Andrea Di Maria, Francesco Formichetti, Andrea Benetti, Domenico Benetti, Alessandro Sperduti, Andrea Frigo e Riccardo Rossi.