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Filme: Para o Outro Lado (Mostra de São Paulo 2015)

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Após construir uma carreira de quase três décadas dirigindo filmes de terror e sobre a máfia japonesa, o cineasta Kiyoshi Kurosawa (Cure, Pulse) passou a ganhar reconhecimento fora de seu país a partir do drama familiar Sonata de Tóquio, lançado em 2008. Este Para o Outro Lado, que lhe deu o prêmio de direção na Mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes deste ano, é talvez seu longa mais intimista e reflexivo, mas também aquele em que é mais difícil estabelecer um foco ou mesmo um propósito narrativo: seu tom é apropriadamente melancólico e a interação entre seus personagens suficientemente verossímil, mas, a não ser por um acontecimento óbvio (e que vocês reconhecerão com facilidade ao ver o filme), não há nada ao final da projeção que se diferencie de seu início.

Escrito em parceria com Takashi Ukita a partir de um livro de Kazumi Yumoto, o roteiro apresenta a solitária professora de piano Mizuki (Fukatsu), que, certo dia, recebe a surpreendente visita do fantasma de seu namorado Yusuke (Asano). Inicialmente disposta a reiniciar a vida a seu lado como se nada houvesse acontecido, ela logo passa a colocar para fora toda a mágoa que nutre por ele tê-la deixado – e enquanto inaugura um gradativo processo de desapego, passa a acompanha-lo em diversos locais em que há alguém que o ajudou em vida (e que, portanto, deve ser devidamente recompensado para que sua alma possa se desprender deste mundo).

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Adotando um ritmo pausado e contemplativo que valoriza os pequenos gestos e a simplicidade de palavras e frases diretas, o filme, praticamente todo rodado em cenas internas, convida o espectador a participar de um processo doído que, como tal, não poderia contar com momentos de catarse ou um grande clímax. Mas se por um lado a estratégia narrativa de Kurosawa mostra-se plenamente condizente com o tema de sua história, por outro ela acaba simultaneamente trabalhando contra o próprio projeto por dar a impressão de que praticamente nada acontece durante suas mais de duas horas (e repito: deveria acontecer?).

Não que Kurosawa faça drama; pelo contrário: sem vergonha de assumir uma proposta espiritualista e mística, o longa jamais se entrega a maniqueísmos baratos e acordes chorosos na trilha sonora para arrancar o choro do espectador, apesar de contar com sua boa dose de diálogos trôpegos em sua cafonice e/ou seu excesso de exposição (“Você está me culpando porque eu não percebi que você estava doente?”) e de adicionar elementos completamente desnecessários na tentativa de gerar um mistério que jamais será satisfeito (a dúvida envolvendo as múltiplas profissões de Yusuke não desempenha papel algum na narrativa).

Apresentando uma ou outra sacada realmente inteligente em sua fotografia e direção de arte, como (1) a ideia de “abaixar” as luzes nos momentos em que Mizuki percebe estar sozinha, (2) o corte que contrasta o apartamento aconchegante em que a moça acredita estar e o lugar abandonado e jogado às traças que este realmente se tornou e, claro, (3) a aparência fantasmagórica atribuída a Yusuke em sua primeira aparição em cena, quando sua calça preta se funde à escuridão da sala e parece fazê-lo flutuar, Para o Outro Lado é um filme um tanto vazio que, ainda assim, apresenta elementos interessantes que revelam um diretor sensível e dono de sua própria voz.

Para o Outro Lado (Kishibe no Tabe, Japão, 2015). Dirigido por Kiyoshi Kurosawa. Escrito por Kiyoshi Kurosawa e Takashi Ukita, baseado no livro de Kazumi Yumoto. Com Eri Fukatsu, Tadanobu Asano, Masao Komatsu, Yu Aoi e Akira Emoto.