Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Filme: Para Sempre Alice

para sempre alice crítica

Ok, sejamos sinceros. Se tem um Oscar que foi merecido foi o de Julianne Moore. Em Para Sempre Alice (Still Alice, EUA, 2014), a atriz interpreta uma renomada professora da Universidade de Columbia, a qual descobre que tem Alzheimer aos 50 anos e a doença muda completamente sua vida pessoal e profissional. Sem dúvidas um filme emocionante e, principalmente, real.

Baseado em livro homônimo de Lisa Genova, o longa toma algumas liberdades da obra, como a alteração de Harvard para Columbia, o cenário atual e não o começo dos anos 2000, e o foco maior na relação de Alice (Moore) com o marido John (Alec Baldwin) e os filhos Lydia (Kristen Stewart), Tom (Hunter Parrish) e Anna (Kate Bosworth). Porém, nada que prejudique a adaptação dirigida por Richard Glatzer e Wash Westmoreland.

- Advertisement -

A primeira cena mostra o jantar do 50º aniversário da protagonista, quando tudo seguia normalmente com a família e o trabalho. Casamento saudável e amoroso com John, filha mais velha casada e grávida, palestras cheias de pessoas para assisti-la e o claro respeito de alunos e professores por ela. A partir do momento em que ela começa a perceber lapsos de memória, vai ao médico e descobre que tem um tipo raro de Alzheimer. Com o passar do tempo, acompanhamos a evolução da doença e como isso afeta todos à sua volta e muda pra sempre a personagem.

Não vou mentir: é duro ver uma mulher tão cheia de vida ser consumida aos poucos pelo esquecimento e partir de uma professora bem-sucedida de linguística para uma pessoa que mal consegue se comunicar com os outros. O roteiro não nos conta a passagem do tempo, mas esta fica clara ao vermos Anne dar luz a gêmeos e diálogos mencionarem dias e meses no passado. A transformação é bastante rápida e mostra com clareza as dificuldades de Alice em lidar com a doença, como choros ao esquecer onde é o banheiro, ver uma peça de Lydia e cumprimentá-la achando que é uma atriz qualquer e não sua filha, o marido apontar o prédio da universidade e ela não saber o que ele representa, entre outros. Difícil.

O fato de vermos como isso tudo afeta a família foi bastante interessante. É claro que o foco é em Alice e a vemos enfrentar seu estado de saúde praticamente o longa inteiro, só que a exploração dos sentimentos dos filhos, mesmo que brevemente, foi interessante; deu um tom familiar e real à película e conseguimos nos conectar facilmente. John tem mais espaço por conviver diariamente com a esposa, então temos a chance de ver a dor de um companheiro ao ver a parceira de longa data esquecer o que viveu e ficar dependente de outras pessoas.

Baldwin está muito bem, como de se esperar. Nada incrível, mas é natural e nos faz compreender o que o homem sente e as medidas que toma a fim de líder com o problema da mulher. Algumas vezes você pode julgar uma atitude dele, mas depois o entende; afinal, além de marido, John trabalha e precisa sustentar a casa após o afastamento de Alice. Entre os filhos, todos os atores interpretam bem seus papéis. Seja em um discurso da mãe em que Tom e Anna ficam visivelmente comovidos, seja nas conversas com Lydia sobre faculdade e, eventualmente, a doença, Parrish, Bosworth e Stewart estão de parabéns. Com o que receberam, não tinham como fazer melhor.

A única coisa que não gostei no enredo foi como ele terminou. Não vou dizer como é o desfecho, mas ele deixou um pouco a desejar, ficou muito em aberto. Obviamente, sabemos que a doença vai continuar a deteriorar a memória de Alice, só que faltou uma melhor contextualização em relação à sua filha mais velha e filho (mal explorado, por sinal) e a última cena podia ter sido melhor. Moore e Stewart dão um show, destaco aqui, mas a sensação que fica é: “Vai terminar assim? Sério?”. O roteiro poderia ter sido melhor desenvolvido nesse quesito. A trilha sonora também é bastante simples e enjoativa e outros quesitos técnicos não impressionam. Não é à toa que a película chamou atenção pela atuação de Moore.

Para Sempre Alice é um belo filme sobre família e amor e mostra com sinceridade e realismo o impacto de uma severa doença nas relações entre pessoas próximas. O elenco está formidável, especialmente Moore, que nos convence em cada cena com a mudança de comportamento da protagonista; a oscilação de sorrisos e falas perfeitas para choros e quase que nenhuma capacidade de fala…geniais! Em função de um tema tão universal e grande performances, a adaptação nos conquista e emociona do início ao afim, vale a pena conferir.