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Filme: Spotlight – Segredos Revelados

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Na grande maioria dos casos, se um crítico usa o termo “filme importante” para defender alguma obra, o comentário diz mais sobre seu próprio despreparo para analisá-la cinematograficamente que sobre o projeto em si. É claro que o Cinema tem como característica inerente refletir o mundo e a sociedade em está inserido e que um filme (assim como um quadro, um livro ou uma peça teatral) pode mudar vidas, mas o papel do crítico é dissecar os filmes, usando o conhecimento, os estudos e a bagagem que seus leitores não têm obrigação de ter a fim de desvendar o processo usado pelos realizadores para fazê-los ser o que são e, assim, argumentar por que eles são eficientes ou pedestres, complexos ou banais, relevantes ou dispensáveis.

Dito isso, Spotlight é sem dúvida alguma um filme eficiente, complexo e relevante – apesar de não ser “importante” no sentido de “mudar o mundo” ou mesmo causar algum impacto em nossa sociedade, uma vez que o esquema armado pela Igreja Católica e endossado pelo Vaticano para proteger padres molestadores de crianças já foi escancarado há anos em documentários como Deliver Us From Evil e Mea Maxima Culpa. Denúncias como essa, aliás, sempre chegam atrasadas ao Cinema de ficção: primeiro, o jornalismo investiga, apura e joga a sujeira no ventilador; depois, os documentaristas se aprofundam na questão, recolhem informações, dados, depoimentos e evidências em abundância suficiente para lançar verdadeiras teses em forma de filme; e então, e só então, o Cinema ficcional entra na história.

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E é justamente por focar no primeiro estágio que Spotlight consegue ser um filme tão interessante.

Ambientado em Boston na virada do século, o roteiro escrito pelo diretor r ao lado de Josh Singer (O Quinto Poder) gira em torno da redação do jornal The Boston Globe, onde o “Spotlight”, setor responsável pelo jornalismo investigativo e as reportagens aprofundadas e colaborativas, se vê obrigado, com a chegada do novo editor geral Marty Baron (Schreiber) e a contragosto do editor-chefe Ben Bradlee Jr. (Slattery), a apurar as novas denúncias de abusos de clérigos que o jornal recebeu nos últimos meses e anos. Inicialmente hesitante em iniciar uma guerra judicial contra uma organização poderosa como a Igreja, a equipe formada pelo veterano Walter “Robbie” Robinson (Keaton), o idealista Mike Rezendes (Ruffalo) e a dedicada Sacha Pfeiffer (McAdams) logo passa a desvendar um esquema que pode envolver centenas de vítimas só na cidade.

Coordenando uma narrativa composta por múltiplos personagens, diálogos ininterruptos e cenas primordialmente internas e rodadas em ambientes fisicamente limitados, McCarthy e o montador Tom McArdle conseguem manter um ritmo e uma fluidez impecáveis não só pela agilidade com que as conversas se desenvolvem (chegando a lembrar Jejum de Amor sem a veia cômica), mas também pelo constante uso da montagem paralela, que constrói uma tensão lenta e gradativa à medida que as fontes passam a ser encontradas, as pistas identificadas e as informações obtidas (note, por exemplo, a perfeição estrutural atingida pelo projeto no momento em que um personagem observa: “Parece arriscado demais” e seu interlocutor intervém, retoricamente: “Você conhece Garabedian?”, nos levando através de um corte seco à segunda tentativa de Mike de conversar com o sujeito (Tucci), que dificultara seu acesso anteriormente em uma cena cujo objetivo era… sim, dar sentido a essa transição e cimentar o caminho para a apresentação do personagem).

Apresentando diversos depoimentos de vítimas dos padres criminosos (que parecem saídos diretamente dos documentários citados anteriormente e que são, na maior parte do tempo, dados por atores coadjuvantes cuja fragilidade destoa da qualidade do elenco principal), o roteiro é didático (às vezes até demais) ao tratar o problema epidêmico da pedofilia na Igreja Católica como uma questão causada pela obrigação da castidade somada à autoridade quase divinal atribuída aos sacerdotes – e que explica o histórico de submissão, silêncio e vergonha apresentado pelas vítimas. O roteiro é inteligente, aliás, em tratar aquelas pessoas não apenas como vítimas físicas e pontuais, mas como verdadeiros sobreviventes de um crime emocional e intelectual com o qual foram obrigadas a lidar pelo resto de suas vidas – e é particularmente tocante ouvir de um personagem gay que ser estuprado por um padre lhe permitiu, ao menos por alguns minutos, sentir que sua orientação sexual não era motivo da opressão e da culpa implantados desde sempre pela própria religião.

Não deixa de ser um alívio, aliás, perceber que o longa não cai na armadilha fácil de isentar a imprensa de suas responsabilidades e crimes de omissão: com mais da metade de sua rede de assinantes formada por leitores católicos, a diretoria do The Globe é tratada pela narrativa quase como um dos vilões da história, dificultando o trabalho de seus próprios editores e repórteres para servir à lógica mais canalha do capitalismo predatório, em que o lucro máximo é prioridade mesmo em detrimento da verdade e do compromisso com a população (e se a profissão ainda consegue exercer sua vocação apesar dos interesses sórdidos dos veículos que a controlam, é graças ao talento e à dedicação dos homens e mulheres que decidiram adotá-la como causa – homens e mulheres que são, no final das contas, o centro nervoso de Spotlight).

E que maneira mais bela de homenagear as centenas de milhares de jornalistas honestos, idealistas e movidos por um compromisso sério com os fatos espalhados pelo mundo que lhes dando os rostos de Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams e Stanley Tucci? Conferindo seriedade e energia à equipe da “Spotlight”, o elenco merecia representar a maior parte das inevitáveis indicações do longa ao Oscar: expirando entusiasmo com o dia-a-dia da profissão e indignação com a injustiça do mundo, Ruffalo vive Mike como um homem doce e sensível cujo caráter ético e justo o leva a “estourar” com facilidade e, assim, fechar portas indispensáveis para a apuração do caso (e é justamente em uma dessas “explosões” que o ator protagoniza seu melhor momento no projeto) – e se Keaton interpreta “Robby” como um veterano cansado que, mesmo sem jamais abandonar um código de ética bastante razoável, aprendeu a “jogar o jogo” e a fazer concessões necessárias para sua sobrevivência no meio (além de trazer um bem-vindo bom humor à projeção), McAdams empresta sua beleza e carisma ao primeiro projeto competente em um ano particularmente problemático para sua carreira (em 2015, ela esteve simplesmente nos piores filmes das carreiras de Wim Wenders, Cameron Crowe e Antonie Fuqua).

Mantendo uma abordagem inteligente que reserva os ocasionais closes para as vítimas e mantém os planos da redação (onde o processo é mais importante que os personagens individualmente) entre o geral e o americano, Spotlight evita o dramalhão e, apesar de uma ou outra frase de efeito (quase todas ditas pelo personagem de Tucci), se estabelece como um longa maduro que, mesmo sem atingir o patamar de Rede de Mentiras e Todos os Homens do Presidente, remete, tanto temática quanto narrativa e esteticamente, ao Cinema político norte-americano da década de 70.

Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight, EUA, 2015). Dirigido por Tom McCarthy. Escrito por Tom McCarthy e Josh Singer. Com Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Brian d’Arcy James, Stanley Tucci, Elena Wohl, Gene Amoroso, Doug Murray, Sharon McFarlane, Jamey Sheridan, Neal Huff, Billy Crudrup.