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Gangues de Nova York

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TODO ARTISTA COLOCA ALGO DE SI MESMO EM SUAS OBRAS. Martin Scorsese, com toda a sua genialidade, não poderia ser uma exceção à regra. Fascinado pela história do cinema e perdidamente apaixonado por Nova York (Marty cresceu no bairro Little Italy), seu trabalho em Gangues de Nova York é apenas mais um exemplar da sua brilhante, e quase perfeita, filmografia. Paixão antiga do cineasta, Gangues de Nova York demorou muitos anos para finalmente ser realizado. A produção é estrelada por Daniel Day-Lewis, Leonardo DiCaprio (em sua primeira parceria com Scorsese) e Cameron Diaz.

A trama se passa em 1863, e apresenta Amsterdam Vallon (DiCaprio) voltando para a cidade de Nova York para vingar a morte do pai. Quando chega no lugar em que viveu parte de sua infância, ele reencontra Bill, o açougueiro (Day-Lewis), o homem que matou o seu pai, e acaba se infiltrando na sua gangue para conseguir sobreviver até chegar o momento de consumar a sua vingança. Paralelamente aos conflitos pessoais dos dois personagens, acompanhamos como os soldados eram recrutados para a Guerra Civil Americana e os confrontos entre as gangues que tentavam dominar a cidade.

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Scorsese já havia tentado adaptar o livro The Gangs of New York: An Informal History of the Underworld, de Herbert Asbury, na década de 1970, mas teve que esperar bastante até conseguir o sinal verde para levar o projeto adiante. Robert De Niro estava cotado para participar do elenco, porém, devido aos atrasos nas filmagens, acabou abandonando o filme. Em compensação, Gangues de Nova York marca a primeira parceria entre o cineasta e o galã Leonardo DiCaprio, que se tornou um leal seguidor de Scorsese e deu passos largos para se tornar o ator respeitado que é hoje.

As opiniões se dividem muito quando se comenta sobre Gangues de Nova York. A impressão é que o longa-metragem é subestimado e não foi apreciado da maneira correta. DiCaprio não é bem o “mocinho” da trama, assim como Day-Lewis não pode lá ser considerado completamente como o vilão. Tudo depende do ponto de vista com que o espectador assiste ao filme. Na verdade, é mais fácil se pensar que Gangues de Nova York é um filme sobre mentiras, manipulações, traições, sujeira, e acima de tudo, vingança. Querer defender um lado ou o outro é complicado, especialmente quando Bill é tão carismático, trata Amsterdam como o seu filho, e ainda demonstra valores bastante conhecidos dos admiradores de filmes de máfia, como o respeito, honra e lealdade. É uma versão psicótica e chapada do Michael Corleone, de O Poderoso Chefão. O seu defeito é a maneira como trata os negros e os imigrantes, mas isso é uma visão que o espectador pode ter avaliando sob a perspectiva do nosso mundo atual. Para a época em a obra se passa, por mais questionável que seja, era um momento de transição e muitos norte-americanos tinham que modificar o pensamento para se adequarem à nova realidade. Um exemplo é o personagem de Leonardo DiCaprio em Django Livre, de Leonardo DiCaprio. Ele é o vilão porque nós pintamos assim, mas ele é uma “vítima” (ou uma consequência, como pensa o amigo João Golin) do sistema (o que não diminui o seu sadismo). O verdadeiro vilão da obra seria o capataz vivido por Samuel L.Jackson.

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Enquanto Bill é um show man capaz de ganhar facilmente a atenção do público (e aqui vale comentar a atuação sensacional de Day-Lewis), o jovem vingador vivido por DiCaprio (que embora seja um bom ator está anos luz do talento do seu parceiro de tela) é amargurado demais para nos cativar. Existe um romance de amor e ódio com a prostituta interpretada por Cameron Diaz para tentar humanizar mais o lado de Amsterdam, mas em vão. O grande lance aqui é acompanhar a trajetória do personagem, do momento em que vê o pai sendo assassinado até se infiltrar na gangue de Bill (e até desenvolver um certo afeto por ele) e finalmente, a batalha final em que enfim consegue a sua vingança. Não existem heróis ou santos em Gangues de Nova York.

A introdução, acompanhada de uma trilha sonora tribal que cria o clima perfeito para o inevitável combate, faz uma pequena referência ao curta-metragem The Big Shave, do próprio diretor. Exceto que ninguém fica desfigurado fazendo a barba desta vez. Aliás, é preciso prestar muita atenção na gigantesca batalha introdutória, que é um dos pontos altos do filme. É sempre lindo ver a neve ficando suja com o sangue das pessoas, especialmente quando se trata de um diretor do calibre de Scorsese por trás das câmeras.

Os diversos erros de continuidade são incômodos para quem gosta de prestar atenção nos detalhes. Independente disso não interferir em nada na qualidade final de uma obra, não deixa de parecer um descaso existirem cenas “erradas” no meio de uma obra assinada por ninguém menos que Martin Scorsese. Mas como disse, esses vacilos são comuns e não estragam a experiência ou diminuem o valor de Gangues de Nova York.

Por último, outro momento marcante da produção é quando ouvimos “The Hands That Build America”, do U2, enquanto uma transição de tempo vai mostrando a evolução da paisagem da cidade de Nova York, e aproveita para fazer uma homenagem às Torres Gêmeas.

Gangues de Nova York recebeu 10 indicações ao Oscar 2003 e voltou para a casa com as mãos abanando. Day-Lewis, que era um dos grandes favoritos, perdeu o prêmio para Adrien Brody, de O Pianista. Aliás, Scorsese também viu seu Oscar ir embora depois que Roman Polanski foi anunciado como o grande vencedor da noite. #chateado

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Nota:[quatro]