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Glória Feita de Sangue

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KUBRICK GOSTAVA DE GUERRAS. Melhor dizendo, gostava das tramas por trás dos grandes conflitos, de explorar as relações sociais dos micro e macrocosmos… Sociologia à parte, filmes como Barry Lyndon, Dr. Fantástico, Medo e Desejo, Nascido Para Matar; todos ilustram o conflito na linha de frente, a carnificina, o serviço de inteligência bélico. Me atrevo a dizer que o diretor gostava de guerras no sentido amplo: conflitos consigo mesmo, a raiva do mundo, a busca incessável por respostas diversas, o imperialismo americano, a confusão da mente humana como um todo. Glória Feita de Sangue não é uma tradução de título ao pé da letra mas demonstra brilhantemente – só pelo título – a sacada do diretor e as várias perguntas que ele se propõe a fazer: o que é uma guerra? Qual é o objetivo dela? O que é necessário para vencê-la? Vale a pena se sujeitar à peleja para atingir tal objetivo? Os fins justificam os meios?

A história se passa na França durante a II Guerra Mundial. General Paul Mireau (George Macready) recebe uma proposta indecente: conquistar o temido Forte Anthill e como consequência, a glória e a fama. Kirk Douglas (“musa” de Stanley Kubrick durante anos) interpreta o protagonista Coronel Dax – um paradoxo em pessoa: coronel do exército francês que cita Samuel Johnson (“O patriotismo é o último refúgio de um canalha”) e advogado criminalista famoso. Quando é solicitado pelo General Mireau a liderar, ele hesita e teme pela vida de seus homens. Mau presságio, claramente, mas acaba aceitando a árdua tarefa de tomar o Forte e segurá-lo por um dia inteiro.

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A cena que na minha opinião é a mais inteligente do filme é a da madrugada anterior ao ataque. Todos estão apreensivos, dois oficiais estão discutindo o assunto morte. “Não tenho medo de morrer amanhã, e sim de ser morto.” Querem coisa rápida e indolor. Eles têm medo de morrer aos poucos ou de até nem morrer; mas uma morte confortável é pedir demais em meio à uma Grande Guerra. E o temor vem justamente daí, do fato de terem plena consciência disso e saberem, no fundo, que à maioria deles não será concedida tal graça. Na manhã da batalha, a unidade tem só quinze minutos concedidos para se preparar e imediatamente entrar em combate. O caminho é um pandemônio: trincheiras e mais trincheiras: muita poça d’água, arame farpado, canhões, corpos explodindo, correria, matança. As bombas explodem e ninguém sabe de onde vem, quem jogou, quantos morreram. Diante da impossibilidade de cumprir a tarefa, dá-se início a um motim na trincheira da companhia. Ninguém se mexe. O General, em posição estratégica – muito bem protegido em uma cabine afastada – e gozando de visão panorâmica, manda atirar em todos que se rebelarem. Ninguém acata a ordem. Após o ocorrido, já em conversa com seu General superior e Dax, solicita que cem homens sejam penalizados com morte por covardia. Dax, é claro, se oferece para ser o advogado defensor diante de tamanha injustiça. O General superior é mais maleável, dá um risadinha, acha que cem é demais. Negociação vai e vem e se estende ao absurdo julgamento dos três bodes expiatórios escolhidos para serem crucificados e penalizados (os cem homens reduziram-se a pobres três “exemplos”). Qual é o ponto disso? Causa e consequência – insubordinação leva ao castigo? O General se enfureceu porque não conseguiu o que queria? As glórias de outrora não importam mais. As razões para o motim não são consideradas. Os condenados aceitam sua sentença e não fogem. É o exército, símbolo maior da disciplina! O dever é morrerem como ditos covardes e não como desertores. Ha, ha, ha!

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Nenhum dos atores falou francês, nem inglês com sotaque francês e muito menos o inglês britânico para dar um ar “mais europeu”. Eram atores americanos falando inglês americano e eu achei isso fabuloso, pois ajudou a manter a ironia da obra. Ironia tamanha que, durante a cena em que um dos condenados sofre uma fratura craniana, eu ri de escárnio e balançando a cabeça como quem não acredita nas loucuras ditas. O roteirista foi muito corajoso em escrever um roteiro tão petulante como esse em plenos anos 50… Os personagens proferem frases de impacto fantásticas como “Não acho que queiram executar um homem nestas condições” ou “O General o quer consciente para a execução”. O diretor foi mais corajoso ainda em manter-se fiel ao final nada feliz do filme ao invés de se render aos prazeres da boa política e da gorda bilheteria. E o ridículo continua com o baile da noite pré-genocídio, os diálogos comedidos, a formalidade e “retidão” do exército, o almoço pós-missão cumprida. Só o que importa é a honra, a coragem, a bravura! Seja um homem, morra com dignidade! Chorar é vergonha. Sejamos todos conformistas! E não há tempo para sofrer. Às armas, vamos logo com isso!

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Também muito me agradou o estilo de atuação, tão diferente entre os atores veteranos e os mais jovens. O método de atuação havia se tornado muito famoso e ofuscado a interpretação teatral de antigamente. A naturalidade dos jovens contrapôs-se à dramaticidade dos mais velhos, demonstrando a humanidade dos subordinados e a falsidade dos superiores. Jogada de mestre de Kubrick, que usava da psicologia para nos enganar – num primeiro momento – com cenas aparentemente simples mas que na verdade ramificavam-se em profundas análises de temas diversos, sempre usando o sarcasmo como tom definidor. Talento qual que evoluiu e produziu obras cada vez mais complexas e admiráveis, como o expoente 2001: Uma Odisseia no Espaço.  Kubrick era conhecido por seu perfeccionismo compulsivo e chegou a fazer 74 tomadas de uma única cena. As cenas nas trincheiras geravam alto desgaste dos atores, que permaneciam sob chuva e intenso frio durante horas – sacrifício que valeu a pena para representar a realidade do exército – filmando tomada atrás de outra. Todo em preto e branco, com ângulos inovadores e fotografia ousada (marca registrada do diretor), Glória Feita de Sangue é precursor de uma linha exaustivamente explorada pelo cinema mundial: a da crítica às guerras e à violência em geral e por isso foi proibido em vários países durante anos, incluindo França e Alemanha (este último foi escolhido como cenário para a maioria das cenas externas).

As cenas exigem tanta reflexão, atenção e interpretação que eu as repetia várias vezes para não perder um só detalhe dos diálogos e são ao mesmo tempo intrigantes e “sem noção”, trazendo risadas incontroláveis e propositais, mesmo não sendo uma comédia. É um abrangente estudo social e psicológico sobre poder, Estado, violência, morte, religião, bem e mal, certo e errado. Stanley Kubrick gostava de guerras porque queria brincar com elas, expô-las ao ridículo, desconstruí-las e reduzi-las a nada. Queria fazer perguntas ao público, inculcar às massas a semente da dúvida e do pensamento analítico sobre a condição humana e o preço da fama. Que importância tem a guerra, afinal? A resposta, de acordo com Kubrick: tem a importância que você creditar à ela.

Para finalizar, deixo-vos com a tradução livre da frase inspiradora do título da obra homônima (e do filme): “Os caminhos da glória guiam senão ao túmulo.”

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Título original: Paths of Glory
Direção: Stanley Kubrick
Produção: James B. Harris e Kirk Douglas
Roteiro: Stanley Kubrick, Calder Willingham, Jim Thompson
Elenco: Kirk Douglas, George Macready, Adolphe Menjou, Timothy Carey, Wayne Morris, Richard Anderson, Joe Turkel e Christiane Kubrick
Lançamento: 1957

Nota:[cinco]

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