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Clássicos de Segunda

Hair

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EU SEMPRE TIVE UM GRANDE FASCÍNIO PELOS ANOS 60 E Hair é exatamente sobre isto: a contracultura e os movimentos sociais alternativos da década de sessenta e o contraste deles com a sociedade conservadora da época, afinal, se ainda hoje movimentos sociais liberais tem problemas com a sociedade, naquela época isso era bem mais intenso.

Hair é uma adaptação da peça de 1967 realizada na Broadway e passada para o cinema em 1978 pelo diretor Milos Forman, que, muitos anos antes em O baile dos bombeiros, fez uma crítica à burocracia do sistema socialista na República Tcheca, também criticando instituições em Um Estranho no Ninho. É bem irônico como um musical sobre a contracultura das ruas é levado para a Broadway e para os cinemas, duas grandes representações da cultura americana. No filme, Claude Hooper Bukowski, um garoto do interior do Oklahoma, vai para Nova York ao ser convocado para a guerra do Vietnam, conhece alguns hippies no Central Park e torna-se amigo deles.

É interessante o contraste que se dá no início do longa-metragem: antes do Claude chegar em NY, as cores do filme são bem apagadas e durante a viagem de ônibus, a tela vai se tornando mais colorida, paulatinamente, o que demonstra o contraste entre a sociedade da época e dos hippies.

A cena em que Claude, durante uma viagem de ácido, alucina e tem visões de um casamento entre Sheila e ele é uma crítica mordaz à sociedade conservadora da época, afinal, o ritual católico realizado em uma construção com arquitetura gótica composta por largas pilastras dispostas em um ambiente sombrio e cheio de névoas (o que confere uma atmosfera onírica à situação) é realizado por um “padre” mulher ao som de Hare Krishna (um mantra de reverência aos avatares do deus Vishnu). Outra referência à cultura indiana encontra-se na posição da mulher que realiza a cerimônia, a qual lembra a posição de dança de Shiva, o destruidor – Deus da tríade hindu que destrói o universo ao dançar. Isso pode ser encarado como uma analogia à contracultura hippie que buscava destruir a cultura vigente na sociedade – o figurino dela também é sugestivo: um sari, vestimenta típica indiana, com uma cor quente e vibrante. O deboche às instituições é claramente percebido até na forma como o LSD é distribuído durante uma manifestação, muito semelhante à distribuição da hóstia entre os fiéis.

Após ter um desentendimento com os hippies, Claude vai para o exército, porém ele já é então um grande amigo deles. Nesse momento da narrativa percebe-se uma transição de uma crítica debochada às instituições sociais americanas para uma crítica séria, enquanto na cronologia da história o ano atinge a estação do inverno. Se antes as roupas dos hippies eram coloridas e alegres, agora são escuras e sem sentimento(esse inverno também pode ser interpretado como uma representação da distância deles em relação ao Claude). Embora represente bem os costumes dos hippies, Forman não os idealiza, demonstrando que são pessoas normais e que estão naquela situação por opção (veja a relação do Berger com os pais ou do Hud com a mulher), o que faz com que os personagens sejam apresentados de maneira mais profunda , ao invés de soarem como caricaturas.

A espontaneidade dos atores facilita a ideia de que são verdadeiramente hippies. Basta notar, por exemplo, a maneira relaxada em que Annie Golden (Jeannie) atua, em contraste com a atuação contida do John Savage (Claude) em uma cena em que eles conversam sentados em um jardim, o que é um exemplo perfeito da diferença entre o rapaz do interior e os hippies da cidade. Outro destaque da atuação é Treat Williams (Berger) que cria um personagem profundamente humano e pacífico. Perceba-se, por exemplo, a forma como ele sempre tenta resolver as situações de maneira harmônica, para depois tomar alguma decisão mais drástica(como dançar em cima da mesa, pegar um carro mais ou menos emprestado ou se fingir de outra pessoa para entrar em uma área militar). Berger, além de ser o líder do grupo de hippies, costuma comandar as performances musicais do filme.

As danças são sempre bem feitas, porém com pouca sincronia e muita espontaneidade, o que é algo de se esperar de um grupo de hippies e faz com que as coreografias pareçam verdadeiras e adequadas aos personagens. As danças tem também referências a culturas orientais, como movimentos de Tai Chi Chuan, e uma brincadeira com os cavalos da polícia. Uma cena simbólica do filme é a em que um músico, com o seu instrumento musical, dá um tiro na plateia, quebrando a quarta parede e remetendo à guerra.

Construindo um filme interessantíssimo tanto em sua forma como em seu conteúdo, Milos Forman faz uma afiada crítica à sociedade da época e à própria guerra, sem esquecer de criar personagens profundos, além de contar com uma direção rica e cheia de sutilezas.


Título original: Hair
Direção: Milos Forman
Produção: Michael Buttler

Roteiro: Michael Welles
Elenco: John Savage, Treat Williams, Beverly D’Angelo, Annie Golden.
Lançamento: 1979
Nota:  

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5 Comments

5 Comments

  1. Alice Maria Araújo Tenório

    7 de agosto de 2012 at 5:40

    foi difícil chegar na Broadway, mas chegou e valeu muito a pena! um dos melhores filmes, para mim, as músicas são incríveis, as coreografias. O Treat Williams está simplesmente maravilhoso, todos estão. Muito boa crítica, pegou cada detalhe (:

  2. Gustavo Jacondino

    12 de agosto de 2012 at 5:42

    Belas canções, belas atuações, bela direção, belo filme

  3. Ilo Gusmão

    22 de agosto de 2012 at 19:05

    Bela crítica!
    Um dos poucos filmes que me fez chorar (Y)

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Clássicos de Segunda

Jornada nas Estrelas – A Ira de Khan

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crítica: star trek - a ira de khan

SOU UM CARA SIMPLES. Se meu time é preto e branco, terei uma resistência maior contra coisas azuis. Se eu gosto de Nirvana, terei uma verdadeira preguiça da punheta sonora que é o Guns n`Roses. Se eu sou Grifinória, meu senso de justiça me obriga a não querer empurrar os moradores da Sonserina escada abaixo, tal como a Nazaré Tedesco, da novela Senhora do Destino. E, claro, como sou alucinado com Star Wars, algo dentro de mim grita para ser contra Star Trek. Sei que é uma grande besteira, mas como disse sou uma pessoa simples.

A segunda aventura da Enterprise conta a história de vingança do super-humano Khan após ficar exilado por 15 anos. Decidido a fazer Kirk (William Shatner) pagar pela morte de sua esposa, o vilão tenta roubar um artefato chamado “Genesis”, que é capaz de criar vida em um planeta morto.

Enquanto assistia a Star Trek: A Ira de Khan, de 1982, como maneira de me preparar para Além da Escuridão – Star Trek, de 2013, fiquei um tanto decepcionado com os inúmeros comentários que apontavam o longa como um dos melhores da série. Desconsiderando a sua importância para os efeitos especiais, as atuações não são intensas e o roteiro não conseguiu me cativar. Existem as várias metáforas, como a relação de envelhecer, lealdade, sacrifício, que são sim interessantes, mas que são exploradas de uma maneira pouco atraente. Nem mesmo a vingança, tema que sempre apreciei, foi explorada de jeito satisfatório.

star trek - a ira de khan

A desilusão maior foi com o vilão Khan. Por tudo que li sobre o personagem, esperava por uma figura capaz de figurar facilmente em qualquer seleção dos melhores vilões da história do cinema. Infelizmente ele não aparece nem mesmo na minha lista de “vilões do espaço”. Interpretado por Ricardo Montalbán, o inimigo entra em cena de uma maneira triunfal, deixando claro para o espectador sobre o quanto ele é perigoso. No entanto, o roteiro peca por ser mais direcionado ao público que acompanhava a série e reconheceu o personagem como o vilão de um dos episódios (“Space Seed”) da primeira temporada. Khan quer se vingar de Kirk por ter perdido sua esposa, mas em momento algum fica claro do que diabos o maluco está falando. Sei que “deveria” levar em conta a época em que o longa-metragem foi produzido, mas isso é apenas uma desculpa usada pelos defensores de coisas ruins produzidas no passado. Quando o conjunto da obra é bom, os erros são irrelevantes. E definitivamente, não é o caso aqui.

O Almirante Kirk parece viver um dilema nos minutos iniciais da obra, como se sentisse cansado e velho demais para retomar seu trabalho. Ele fica ainda mais deprimido quando ganha um óculos para leitura de presente de aniversário. O velho questionamento do herói não é novidade para o público mais novo, que já viu isso muito bem representado em Homem-Aranha 2, de Sam Raimi, mas não deixa de ser interessante observar isso em Star Trek. Outro tema importante de Ira de Khan é a questão do sacrifício. Spock (Leonard Nimoy) toma uma corajosa decisão durante o terceiro ato para evitar uma tragédia completa e a morte de todos os tripulantes da Enterprise. O ator acreditava que seria a sua última participação na série e entendeu que uma morte gloriosa seria uma excelente maneira de se despedir.

star trek - a ira de khan spock morre

Star Trek – A Ira de Khan merece o seu lugar ao sol na história do cinema não por ser um bom filme, mas por ser o primeiro longa-metragem a incluir uma sequência gerada inteiramente por computação gráfica. O feito é visto durante a demonstração do funcionamento do artefato Genesis em um planeta morto. A cena pode passar batida para a nossa geração tão acostumada com efeitos especiais, mas para a época foi muito importante e marcou a história da Industrial Light and Magic, de George Lucas.

Ainda que tenha chegado bem perto de despertar a minha própria ira, Star Trek – A Ira de Khan se faz valer especialmente pelo carisma de seus personagens acima de tudo. Foi a minha primeira experiência com o universo clássico de Kirk e Spock, e mesmo com vários defeitos, me diverti o suficiente para passar a respeitar a saga. Verdade seja dita: depois de Episódio 1 – A Ameaça Fantasma só sendo muito arrogante para achar que mesmo um Star Wars ruim supera o melhor Star Trek. Não é bem assim, sinceramente.

poster star trek wrath of khan

Nota:[tres]

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Clássicos de Segunda

Thelma & Louise

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THELMA E LOUISE

O Cinema de Buteco adverte: o texto a seguir possui spoilers e deve ser apreciado com moderação.

THELMA E LOUISE

É CURIOSO COMO PODEMOS PERCEBER A MUDANÇA DE CERTOS PERSONAGENS NO PERÍODO TÃO CURTO DE UM FILME. Em Thelma & Louise, por exemplo, por mais que não concordemos com suas ações, as entendemos e não julgamos.

Thelma (Geena Davis) é casada com um homem controlador e mora em uma cidade pequena no sul dos Estados Unidos. Sua amiga Louise (Susan Sarandon) é uma garçonete em uma lanchonete. As duas personagens são representações da típica mulher submissa. A premissa do filme é bem simples: as amigas decidem viajar durante um fim de semana para um chalé e aproveitar alguns dias sem as obrigações do dia-a-dia. Tudo parece dar certo. Até que um homem tenta estuprar  Thelma e, depois de uma discussão, Louise dá um tiro nele e elas fogem assustadas. E têm de fugir – afinal, como Thelma estava dançando com o rapaz, as pessoas não acreditariam que se tratava de um estupro.

Elas mudam completamente depois desse incidente. Não é uma questão de “como podemos ser corrompidos depois de alguma experiência traumatizante”, como o Tullio Dias afirmou em seu texto, mas sim duas mulheres que eram submissas a vida inteira e em algum momento tomaram o controle, se rebelando contra toda a forma de opressão que passaram em suas vidas. Talvez elas se corrompam com a liberdade que nunca tinham tido antes.

E ter noção de que elas não aguentam mais ser oprimidas é importante para compreendermos seu radicalismo. Embora façam várias coisas nitidamente erradas durante a trajetória, nós as compreendemos. Entendemos o fato de que não poderiam agir de outra forma – não depois do que ocorreu. Elas se rebelam contra qualquer forma de opressão. Por isso, o final do filme tem que ser da forma que é. Elas não poderiam se entregar à polícia. Logo, a única alternativa era morrer na perseguição, mesmo que a morte seja jogando o carro dentro do Grand Canyon.

THELMA E LOUISE

Muitos road movies são irregulares. É um erro comum ao gênero, mas, como Thelma & Louise se foca na relação dos seus personagens e no seu amadurecimento durante a trama, a irregularidade não ocorre. Oras, é incrível perceber como a Thelma que escreveu um bilhete para seu marido avisando que passaria o final de semana fora é a mesma Thelma que assaltou um mercado pois teve seu dinheiro roubado. E essa relação entre suas personagens não poderia ocorrer sem as atuações magníficas da Susan Sarandon e Geena Davis (ambas indicadas ao Oscar de melhor atriz, mas perderam para Jodie Foster em sua excelente atuação em Silêncio dos Inocentes). Outra atuação muito boa do filme é a do Harvey Keitel, que interpreta um policial que entende as personagens (a única pessoa que as compreende e age de forma empática com elas. Infelizmente, a atitude dele é em vão, já que não consegue salvá-las).

O filme é roteirizado pela Callie Khouri (que ganhou o Oscar por seu roteiro) e dirigido pelo Ridley Scott. É interessante perceber que o longa, que é um road movie e um estudo feminista de personagens, foi dirigido por um autor que ficou conhecido por histórias de ficção cientifica – como Alien e Blade Runner, obras primas do gênero.

O filme se auto-sabota em alguns momentos, como nos flashbacks depois da cena final, tentando evocar alguma nostalgia no espectador. Mas, como o Tullio já falou, tudo o que isso faz é ser brega. Outra parte desnecessária do filme é uma que envolve um ciclista maconheiro. Na verdade, muitas partes do filme poderiam ser cortadas, como a famosa cena da bunda do Brad Pitt – aquilo não acrescenta nada. Também creio ser um erro a explosão do caminhão do pervertido, que parece bastante apelativa (e não é justo com o personagem, pois ele não é um machista padrão, e sim um retardado com o QI de uma morsa).

Eu chamei o filme de estudo feminista de suas personagens, e é algo assustador que eu tenha que chamar de tal forma, considerando que a única coisa que ele faz é ser um retrato humano de seus personagens. O espectador sequer aprova as atitudes de suas personagens, mas o filme as humaniza, e é essa humanização que o transforma em algo tão grandioso.
Título original: Thelma & Louise
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Callie Khouri
Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Brad Pitt
Lançamento: 1991
Nota:[quatroemeia]
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Clássicos de Segunda

Os Suspeitos

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QUEM É KEYSER SOZE? Quem é a mente diabólica por trás de um rastro de crimes? Essas perguntas percorrem toda a narrativa de Os Suspeitos, que é conduzida por Verbal Klint (Kevin Spacey) e pelo agente federal Dave Kujan (Chazz Palminteri). Verbal é um aleijado falastrão que foi preso na cena de uma matança no cais de São Pedro, na Califórnia. Dave é o responsável pelo interrogatório e tenta reconstruir os fatos que levaram à explosão de um navio, de onde só há dois sobreviventes: o aleijado e um húngaro, com 60% do corpo queimado.

Tudo começa, na verdade, seis semanas antes da explosão, quando cinco criminosos são colocados numa mesma sala à espera de serem interrogados. Dean Keaton (Gabriel Bryne), Fred Fenster (Benicio Del Toro), Michael McManus (Stephen Baldwin), Todd Hockney (Kevin Pollak) e Verbal Klint (Spacey) decidem se juntar e realizar um assalto. Sem mortes, assegura Verbal. O roubo leva a uma série de consequências e o bando vai topar com Keyser Soze, o misterioso chefão do crime, o diabo, que tudo sabe, que nada deixa escapar. Enquanto o bando está na Califórnia, o interlocutor de Soze, Kobayashi, propõe que os cinco participem da ação no navio, para limpar a barra com o bandidão. Sem escolha, eles se preparam para a ação.

Keyser Soze é quase uma lenda. Ninguém o viu – quem viu não ficou vivo para contar. Todos se referem a ele como um mercenário. A simples menção de seu nome causa temor e pânico. Ele tem uma rede de informações muito bem montada, sabe de tudo e age rapidamente, sem piedade.

O enredo é eletrizante. Tanto que as pontas soltas são até deixadas de lado. Por exemplo, não fica exatamente claro qual o objetivo de Soze com a ação no navio e como cada um dos cinco envolvidos foram enredados por ele. Mas isso não importa. O espectador é levado a acreditar em uma coisa e se surpreende no final, junto com Dave Kujan. Grande parte das pessoas que assistem ao filme acreditam que ver pela segunda vez pode ajudar a compreender todas as peças lançadas pelo roteiro e pela direção, como se isso pudesse solucionar o mistério antes das últimas cenas. Na minha opinião, é uma doce ilusão. Os Suspeitos pode ser visto várias vezes e não vai deixar de surpreender. O filme ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original, para Christopher McQuarrie, e de Melhor Ator Coadjuvante, para Kevin Spacey.

 

 

Título original:  The usual suspects

Direção: Bryan Singer

Produção: Michael McDonell, Bryan Singer

Roteiro: Christopher McQuarrie

Elenco: Gabriel Bryne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Chazz Palminteri, Benicio Del Toro, Kevin Pollack

Oscar: Kevin Spacey (ator coadjuvante), Christopher McQuarrie (roteiro original)

Lançamento: 1995

Nota:

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Bombando!