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Hitchcock

HITCHCOCK NÃO É UM FILME DE SUSPENSE. Ironicamente, é o contrário disso: o longa de Sacha Gervasi entra na intimidade do mestre do gênero durante a produção de Psicose para revelar um pouco de sua personalidade – ela própria cercada de mistério.

Em 1959, Hitch colhia os frutos e as críticas elogiosas por Intriga Internacional. Nessa época, ele já era a mente por trás de Disque M Para Matar, Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai, o que o colocava em uma posição favorável para negociar com a Paramount a distribuição de seu próximo projeto.

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Quando decidiu adaptar o livro Psicose para o cinema, o diretor só encontrou resistência. A história de Ed Gain, o fazendeiro do Winsconsin preso dois anos antes por desenterrar mulheres que se pareciam com sua mãe e utilizar sua pele para tentar se transformar em uma não havia conquistado muito respeito – apesar de ter vendido muitos livros. Diante da negativa do estúdio em financiar a empreitada e já envolvido demais pela história, Hitchcock pegou um empréstimo para pagar do próprio bolso a produção. Da Paramount, pediu apenas a distribuição e 40% da bilheteria. O resto é história.

Sacha Gervasi é um documentarista estreando no drama. Por isso, embora seu Hitchcock nos leve aos bastidores de um dos maiores filmes de todos os tempos, da seleção de elenco à captura da famosa cena no chuveiro, é ao tentar decifrar o homem que o longa tem seus melhores momentos.

Figura muitas vezes carismática e dono de um senso se humor afiado, Alfred Hitchcock surge na fala cadente e pausada de Anthony Hopkins e, principalmente, na silhueta rechonchuda de um dos perfis mais famosos da história. Sendo Hopkins também um dos rostos mais conhecidos do cinema recente, a transformação do ator no diretor é um dos pontos altos do filme, apesar de a pesada maquiagem comprometer parte de sua atuação.

A personificação de Hitch só é completa quando dá forma à sua personalidade intrigante. O trabalho de voz na pronúncia de cada sílaba, ao invés de caricato, complementa o homem que, vez ou outra, é domado por suas obsessões – seja pelo medo, pelo trabalho ou pela esposa.

O relacionamento do casal é peça fundamental naquele momento na vida do diretor, já que, além de companheira, Alma (Helen Mirren, sempre excelente) revisou todo o roteiro de Psicose e foi essencial para o corte final do filme após uma exibição nada satisfatória. Ela é a rocha de Hitchcock, que o mantém focado e o faz voltar à realidade e se ater ao que importa quando está sendo devorado pelo drama de seus personagens. Ele também é tomado pelo ciúme do escritor Whitfield Cook (Danny Huston), que vem apreciando a companhia de Alma enquanto o cineasta está no set de filmagem.

Esse é um mundo que ele conhece bem e do qual tem controle absoluto. Hitchcock não escondia sua admiração por belas mulheres, e em Psicose ele teve a oportunidade de trabalhar com duas delas: Janet Leigh (Scarlett Johansson), sua nova queridinha, e Vera Miles (Jessica Biel), com quem havia trabalhado em O Homem Errado. Vera seria a protagonista de Um Corpo Que Cai, mas abriu mão do papel (que eventualmente ficou com Kim Novak) para ser mãe, decisão interpretada pelo diretor como uma traição pessoal. O clima pouco amigável entre os dois permeia alguns dos momentos no set, onde Hitchcock exigia confidencialidade e execução primorosa das cenas, colocando ele mesmo a mão na massa ao dar os golpes de faca que matam Marion no banheiro. Em outros momentos, fazia piadas de duplo sentido com o próprio sobrenome e pregava peças, como colocar o esqueleto da mãe de Norman Bates no camarim de Janet Leigh.

O fim dessa história, todos conhecemos. Apesar do lançamento em apenas duas salas, Psicose foi um grande sucesso de público e crítica (gerando, inclusive, uma continuação em 1983 e um remake de Gus Van Sant, em 1998, igualmente ruins).

Mas este não é um filme sobre um filme. O que Gervasi faz de melhor é tentar desmistificar uma mente brilhante, porém assustadora, que sabe também ser amorosa e até engraçada. O que Hitchcock, o filme, não consegue é ser tão grande quanto Hitchcock, o homem.  Talvez porque o próprio Gervasi, embora experiente ao contar histórias reais, esteja buscando sua linguagem como um diretor dramático. Mesclando o lado sombrio do mestre do suspense e seus momentos de leveza, o filme acaba privilegiando o último, quando o primeiro teria sido potencialmente mais interessante.

Título original: Hitchcock
Direção: Sacha Gervasi
Roteiro: John J. McLaughlin
Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Jessica Biel, Toni Collette, Danny Huston, James D’Arcy
Lançamento: 2012
Nota:[tresemeia ]

11 Comentários
  1. Tullio Dias Diz

    eu gostei MUITO de hitchcock.

    1. Flavio Almeida Diz

      Eu tb.

    2. João Marcos Flores Diz

      Nossa, achei fraco que só.

    3. Joubert Thomson Maia Junior Diz

      João Marcos Flores pq vc achou fraco?
      (só pra eu entender)

  2. Rakely Ribeiro Diz

    Eu gostei muiiiiiiiiiiiiito desse fillme

  3. Gabriel Hortencio Diz

    EU até gostei, mas só que não gostei o ator, que tá péssimo esse filme! Ainda bem que não foi indicado para o melhor ator.. e a Helen Mirren?! Ela foi ótimo com esse papel, foi indicada para a melhor atriz no Globo de Ouro e não ganhou, mas gostei de ver!

    1. Alfredo Neto Diz

      kkkkkkkkkkkk péssimo mesmo

    2. Joubert Thomson Maia Junior Diz

      Poxa vida tava mais curioso pra ver o filme exatamente por conta do Anthony Hopkins…
      SACANAGEM

  4. Sandra Regina Castro Diz

    Pena, ainda não vi. Quero ver só p ver o Anthony, amo tudo que ele faz.

  5. Artur Mamede Diz

    Esperando por essa obra até agora, os cine de manaus continuam ignorando

    1. Cinema de Buteco Diz

      Fica tranquilo ainda está em tempo, afinal o filme estreia hoje 01/03/2013. 😀

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