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Brasileirinhos

Jogo de Cena

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A partir da verdade, dúvida. A cada cena, um jogo. Em Jogo de Cena, diferentes mulheres se apresentam e, muitas vezes, representam fragmentos de uma intimidade. Na produção, o realizador Eduardo Coutinho convida, por meio de um anúncio de jornal, pessoas comuns e atrizes para contar (suas) histórias. Estabelecido o contrato, que chega a ser despretensioso e instável, o espectador é imerso em um jogo de “pega-pega” –sim como aquele da infância–, permeado por uma série de relatos, emoções, encenações e desconfortáveis posicionamentos.

Perdas, sonhos, maternidade, a fé ou a falta dela são apenas algumas características do universo feminino e que conduzem a não-linearidade de uma história – esta que se costura em micro-narrativas de um enredo nada particular. Entre os relatos, tem a mulher que engravida no primeiro “encontro”, mulher que chora a perda de um filho, mulher que sente saudade do cheiro da infância – depoimentos estes, que também agregam superação, sensibilidade e vitórias.

Há quem imagine que, sob o palco, tudo tende ao espetáculo, mas o documentário busca ir além. Filmado em um teatro vazio, Coutinho constrói a produção decorrente de uma desconstrução, a fruição chega decorrer do meta-acontecimento. O método se torna produto e vice-versa. Aqui, ele permite que a visitação aos roteiros da memória siga de forma livre, para deflagrar as personas que se apresentam ao olhar do espectador.

Coutinho (que já realizou filmes como Cabra Marcado Para MorrerEdifício Máster, Peões) chega com uma proposta desafiadora. Nesta produção, não reconhecemos papéis com muita clareza, nem mesmo o nosso, de meros espectadores ideais. Por isso assistir Jogo de Cena chega a ser uma experiência válida e instigante, pois serve como exercício de reflexão sobre o papel do indivíduo – neste caso, refletido por mulheres -, como ator social, fálico e de reinvenção.

Ora iluminados pelo reconhecimento, ora apenas espectadores da realidade, o ser humano tende a ser a(u)tor de si mesmo, para mudar os rumos de seu enredo e a estética do seu cenário. Reitero, assistir este filme é uma experiência válida, pois é um filme de múltiplos sentidos, e o abandono destes. Assista, e reveja para quem sabe, assim, não colocar em “xeque” o tal jogo que se faz em cena.

Direção: Eduardo Coutinho
Produção: Eduardo Coutinho
Roteiro: Jacques Cheuiche
Lançamento: 09.Nov.2007
Nota:  

 

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Aventura

Ilha da Morte

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O CINEMA CUBANO POVOA o imaginário latino há bastante tempo. Com uma escola bem conceituada e filmes que chamam a atenção em festivais pelo mundo afora, o cinema de Cuba parece ser tão misterioso como a ilha de Fidel. O diretor brasileiro Wolney de Oliveira formou-se em cinema pela Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños, em Cuba, e fez, com Ilha da Morte, uma homenagem aos filmes cubanos da década de 1950.

Rodolfo Salas (Rodolfo Caleb Casas) é um jovem cubano de 20 anos, apaixonado por cinema. Em 1958, a tensão toma conta de Havana e seu pai, envolvido com a revolução, precisa fugir da cidade em direção ao interior, que parecia ser mais seguro. O pai de Rodolfo se estabelece como relojoeiro e sua mãe, como professora de violino. A cidade decepciona o garoto, até que ele descobre um cinema e tromba com Ava Gardner. É Laura (Laura Ramos), que encanta Rodolfo. Ao tentar fugir de casa, de volta para Havana, Rodolfo se depara com uma filmagem na estação de trem da cidade. E a vontade de fazer filmes o faz ficar e lutar pelo amor de Laura. Rodolfo tem a ideia de fazer o filme A Ilha da Morte, uma história que bebe no expressionismo alemão e terá influência no decorrer da trama. Ao mesmo tempo, seu pai volta a se envolver com a revolução e questões políticas brotam a todo momento.


Alguns pontos são bem interessantes. O pai de Rodolfo trabalha com relógios, gosta de tudo certo e no lugar. Em oposição, o filho quer viver de arte, de cinema, fugir do tic-tac da vida prática. E, enquanto Rodolfo vara a noite escrevendo roteiros, o grupo revolucionário de seu pai pixa os muros da cidade com palavras de ordem. O pai insiste para que Rodolfo faça um filme sobre a vida real, enquanto o que o garoto faz é representar aristotélicamente o momento de Cuba, mas sem perceber.

Por outro lado, o romance entre Rodolfo e Laura é bastante inverossível. É um amor adolescente demais para jovens em torno dos 20 anos. E a juventude dos protagonistas (e mesmo seu envolvimento com o cinema) parecem ser alienantes demais. Como eles não conseguem perceber a situação política? E como, apesar disso, conseguem fazer um filme tão adequado ao momento?

Como homenagem ao cinema cubano, Ilha da Morte cumpre parcialmente seu papel. As imagens do filme “El cayo de la muerte” original encerram a narrativa e emocionam o espectador. Mas deixa a desejar por passar tão superficialmente sobre a questão política de Cuba. É um bom filme para dar vontade de outros, como Morango e Chocolate, que é um mergulho mais profundo na política cubana.

 

Título original: El cayo de la muerte

Direção: Wolney de Oliveira

Roteiro: Arturo Infante, Manuel Rodríguez, Alfonso Zarauza

Elenco: Rodolfo Caleb Casas, Alberto Pujol, Laura Ramos, Cláudio Jaborandy

Lançamento: 2006 (no IMDb está 2010…)

Premiações: Melhor Roteiro no Festival de Cinema Latino-americano de Triste, Itália (2007), Melhor Filme pelo Júri Popular, no Festival de Cinema e Vídeo de Macapá, Amapá (2007)

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Brasileirinhos

Minha Mãe é Uma Peça

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minhamaeeumapeca

AS COMÉDIAS NACIONAIS COSTUMAM DEIXAR CERTOS ESPECTADORES COM FRIO NA ESPINHA. Após experiências um tanto negativas com Cilada.com, Muita Calma Nessa Hora, dentre tantos outros exemplos que fazem um humor rasteiro e sem o menor esforço em tentar fazer o público refletir, algo digno do nível do “humorístico” Zorra Total, é sempre surpreendente se deparar com uma obra como Minha Mãe é Uma Peça. Longe de ser considerada genial ou impecável, a adaptação da peça de teatro arranca boas risadas, o que a torna bem sucedida como comédia. Ainda que bilheteria alta não ateste a qualidade do produto, a produção já é um dos cinco maiores sucessos nacionais da temporada ultrapassando a marca de um milhão de bilheteria (e crescendo).

O filme conta a história da espirituosa Dona Hermínia (Paulo Gustavo) e a sua relação com os filhos mais novos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo). Depois de uma discussão, a mãe que todo mundo gostaria de ter (ou tem) decide sair de casa e deixar as “crianças” sozinhas. Hermínia busca abrigo na casa de sua tia e começa uma verdadeira terapia enquanto vai relembrando fatos da infância de seus filhos e da sua própria experiência como mãe. Seria tudo muito clichê e bobo se não fosse pela língua afiada da senhora de meia idade, que tem um gênio forte e fala tudo o que pensa independente de deixar as pessoas constrangidas.

Parece que quem tiver conhecimento prévio da peça de teatro que ficou em cartaz durante muitos anos, mas que cuja história é diferente da do longa-metragem, terá um prazer a mais conferindo a adaptação. Minha namorada elogiou bastante a maneira como o ator Paulo Gustavo está mais confiante e confortável no papel da mãezona. De qualquer maneira, mesmo sem conhecer a peça, confesso ter me divertido horrores com a maior parte das piadas. A atuação de Gustavo é hilária e se o roteiro fosse idiota, ele seria capaz de sustentar tudo sozinho sem o menor esforço. A cara de preguiça transmitida pelo personagem diante vizinhos chatos e situações banais (como dividir um elevador com uma senhora peidorreira) é impagável. Somente por isso as risadas seriam garantidas, mas quando o chicote verbal de Dona Hermínia entra em ação tudo fica ainda mais engraçado.

O público brasileiro ainda é, em sua grande maioria, homofóbico e com sérios problemas em saber respeitar as opções pessoais de cada pessoa. Recentemente, no horroroso Assalto ao Banco Central tivemos um personagem gay que servia apenas como alívio “cômico” com piadas imbecis que ridicularizavam a opção sexual do jovem. Em Minha Mãe é Uma Peça também temos um personagem homossexual, o jovem Juliano, que mesmo sendo apresentado de uma maneira um tanto caricatural, acaba funcionando melhor do que em quaisquer outra obra e não soa nada apelativo, já que a produção inteira é uma piada dos primeiros minutos até os créditos finais. A piada acontece pelos atos do personagem em determinado momento, e em hora alguma no que ele é e representa. O politicamente incorreto sempre me divertiu, e o longa-metragem acerta ao deixar o tema gay de lado para investir na quase obesidade de Marcelina, que têm todas as características de uma boa leonina. Se é que isso existe.

O nível escrachado das piadas ofusca a tentativa de incluir um pedaço dramático no roteiro. É compreensível querer mostrar a preocupação materna e o medo de criar um adolescente nos dias de hoje, mas a cena mais séria da produção fica tão sem lugar que uma das personagens até chega a dizer: “Nossa, o papo ficou triste, hein?”, como se fosse a maneira de cortar bruscamente o assunto e retomar ao que Minha Mãe é Uma Peça vinha apresentando tão bem: o humor e a graça de viver todos os dias com uma pessoa tão espirituosa. Outro problema que a sequência acaba criando é um efeito um tanto moralista, como se fosse uma campanha gratuita contra o ato de beber e dirigir. Talvez o melhor fosse deixar de lado o teor dramático, que embora não seja de todo descartável (é até interessante observar que mesmo uma louca como a Hermínia consegue manter a boca fechada quando é preciso), realmente se perde em relação ao restante da obra.

Um mérito de Minha Mãe é Uma Peça é aproximar o público, especialmente quem conhece a cidade de Niterói, de tudo que acontece em cena. Diversas locações são facilmente reconhecíveis e colocando em pauta os valores afetivos de identificação, é realmente difícil não sentir um carinho pelo filme, que independente de ser perfeito ou não funciona muito bem graças ao talento de seus carismáticos protagonistas e de um roteiro ácido e sem firulas. Para quem está atrás de um bom filme sobre mãe, ou simplesmente quer ter um bom motivo para levar a sua para o cinema, é uma opção com garantia de sucesso e diversão.

minhamaeeumapecaposter

Nota:[tres]

 

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Brasileirinhos

Crítica: Vou Rifar Meu Coração

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NÃO SOU DE ESCREVER CRÍTICA EM  PESSOA, mas Vou Rifar Meu Coração tem um toque especial e merece um post assim.

Minha infância foi embalada ao som do cancioneiro popular, que fazia a trilha sonora de uma dona de casa, que no caso é a minha mãe. Antes de se casar com o meu pai, ela veio do Piauí com 18 anos e trabalhou em alguns lugares, inclusive uma gravadora bem famosa nos anos 80, a Discos Copacabana. Ou seja: o acesso à música romântica popular era enorme, ainda mais quando se trabalha diretamente com esses artistas. Essa influência veio à tona quando eu tinha uns três, quatro anos, e é uma das mais gostosas lembranças da minha vida. Fui assumir que tenho um pézinho no brega depois de completar meus 20 e tantos anos. Jamais contaria esse fato durante minha adolescência rock’n’roll! O que era vergonha, agora tornou-se um orgulho.

O filme foi atrás de pessoas da mesma origem que a minha mãe: gente simples, sonhadora, apaixonada e com o sonho de encontrar o amor de sua vida. Essa galera é movida pelo som feito por pessoas cuja vida não foi tão diferente, talvez com um pouco mais de sucesso. O amor pela música denominada brega vem da coincidência da letra com seus sofrimentos e casos amorosos.

No documentário, todos os artistas afirmaram que já sofreram por amor, e isso sempre será a fonte de inspiração de suas composições. Um deles (Lindomar Castilho, autor da canção que intitula o documentário) assassinou a esposa por ciúme. Outros grandes cantores dão seus depoimentos no documentário: Agnaldo Timóteo, Amado Batista, Nelson Ned, Waldick Soriano, Odair José, Evaldo Braga e outros. Chorei quando vi o Wando falando sobre as dores do amor, cuja cena veio seguida de “Moça”.

Um dos pontos legais e até um pouco polêmico é quando falam que são considerados bregas por causa de suas origens simples. O grande Odair José chega a questionar sobre Chico Buarque, já que suas músicas são adoradas pela elite, mas se fosse de origem pobre, seria um cantor brega também. Como Odair disse “a dor do amor atinge a todas as classes sociais, a diferença é que o pedreiro chora em uma casa de merda e o médico sofre num apartamento de frente para o mar”. Esse cara é genial!

O filme é recomendado pra quem já sofreu por amor, pra quem curte um brega, pra quem se interessa pela cultura nacional ou para quem apenas gosta de música. É super divertido, encantador, modesto e a sua trilha sonora é perfeita. Se isso é música ruim, vou dizer as palavras de Tom Zé: o nosso lixo é o melhor do mundo! Viva a verdadeira música popular brasileira!

É claro que lhe darei 5 caipirinhas, com direito a um som de Amado Batista rolando na Juke Box do Buteco.


Nota:

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Bombando!