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Miss Americana – Crítica

Lana Wilson dirige documentário sobre a cantora norte-americana.

Taylor Swift é uma figura que divide opiniões. Existem pessoas que a amam, assim como outras que a odeiam. Apesar disso, não se pode negar que a cantora norte-americana é uma das maiores artistas da atualidade: são mais de 50 milhões de discos e 150 milhões de singles vendidos na carreira, além de dez Grammys e muitos outros prêmios. E isso tudo nos últimos 13 anos.

O documentário

Em Miss Americana, a diretora Lana Wilson (The Departure, After Tiller) nos mostra uma outra faceta da compositora. Aos 30 anos, ela se encontra em uma nova fase da vida. Foi de garota americana que fazia tudo que se esperava dela, para mulher dona do próprio nariz, mais confiante, que faz o que ela quer e acha que é certo.

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O documentário apresenta Swift em diversos momentos da vida, todos eles com a música envolvida de alguma forma. Apaixonada pela arte desde criança, ela toca violão, piano e compõe as próprias canções. Vemos isso em diversos momentos, seja por meio de gravações caseiras em casa ou no estúdio. Até no período em que viveu a maior crise de sua carreira, entre 2016 e 2017, lá estava ela fazendo música. No caso, o aclamado Reputation, disco mais vendido nos EUA em 2017. A turnê do trabalho arrecadou mais de $ 345 milhões no mundo todo e pode ser vista AQUI.

Transformação

Porém, mais do que revelar, de perto, o processo criativo de Swift e sua paixão pela música, Miss Americana vai além. O filme engloba a transformação pessoal e profissional dela nos últimos anos. E passa por momentos decisivos, que a tornaram quem é hoje.

Quem a acompanha há mais tempo, sabe que Taylor já foi manchete por inúmeros motivos, notadamente relacionamentos e Kanye West. Ela foi alvo de comentários machistas durante muito tempo por causa de namorados e composições feitas sobre eles, como se fosse a única artista do mundo a fazer isso. Afinal, existem diversos homens faturando milhões em cima de músicas que falam sobre amor. Cadê as pessoas pegando no pé deles por isso?

No segundo caso, a compositora teve dois momentos marcantes: o VMA de 2009, quando Kanye West tirou o prêmio de vídeo do ano das mãos dela no palco e fez um discurso sobre como Beyoncé o mereceu mais do que ela; em 2016, foi destaque por causa de uma canção de West em que ele diz que a fez famosa, usando o termo “p***”. Ele gravou o momento em que ela aparentemente autorizou o trecho, mas a cantora alega que não havia ouvido essa parte da música. Enfim, só Deus sabe.

Enquanto, no primeiro caso, Swift viu praticamente todos ao seu lado (com razão), no outro foi bem diferente. As críticas negativas sobre ela foram tão grandes, especialmente nas mídias sociais, que ela desapareceu. Durante um ano, ninguém a viu. Quando reapareceu no fim de 2017, estava com um novo disco pronto e um relacionamento sólido, desta vez longe dos holofotes.

A nova Taylor Swift

O que temos visto nos últimos três anos é uma outra pessoa. Uma mulher mais independente, bem resolvida e empoderada. O marco mais recente , também englobado por Wilson, foi a eleição de 2018 para o Senado dos EUA.

Taylor nunca havia falado sobre política antes, a fim de evitar problemas à la Dixie Chicks. No entanto, natural do Tennessee, muitos pensavam que era republicana. O fato dela ter ficado calada em 2016 meio que sustentou essa imagem. Só que não. Em um post, ela “saiu do armário”: apoiou um candidato democrata e se mostrou totalmente contra Marsha Blackburn. O filme deixa claro o pavor que a artista tem da senadora e de seus valores extremamente conservadores. A eventual vitória dela deixou Swift visivelmente em prantos.

Essa atitude surpreendeu muitos e mostrou o potencial da cantora para mobilizar pessoas. E ela definitivamente percebeu isso. Se, por um lado, ela desagradou os fãs conservadores, por outro, agradou os demais e ainda alcançou um novo grupo de pessoas: mulheres, imigrantes e LGBTs, que sofrem nas mãos de políticas retrógradas. Este ano, Taylor não deve fazer diferente. Deve apoiar o adversário de Donald Trump em novembro.

Zona de conforto

A ressalva que tenho em relação a Miss Americana é pequena, mas importante. Por mais que seja interessante ver a transformação da artista, tive a impressão de que o documentário ficou na zona de conforto. Como diriam em inglês, “it plays too safe”. Sinceramente, acho que faltou um pouco de autocrítica na produção.

Como fã de Swift desde o início da carreira dela – temos a mesma idade -, senti que o filme foi feito de forma calculada, mostrando exatamente o que ela queria revelar sobre si mesma. É como se víssemos a narrativa dela sobre os fatos. Ok que é uma produção sobre sua vida e você abriu as portas para diretora, mas é só isso?

É claro que ela sempre sofreu pressão para ser o que se esperava dela e não quem ela realmente era; já sofreu machismo, incluindo de mulheres, e até abuso sexual. Mas ela é um ser humano e também comete erros. Nem tudo que acontece de ruim nas nossas vidas é provocado pelos outros; às vezes, nós fazemos escolhas erradas ou tomamos atitudes erradas. É uma merda, mas acontece. Não vi isso aqui e fez falta. Amadurecer também é aceitar os seus defeitos.

Veredito

Miss Americana é um documentário de qualidade. Para os fãs de Taylor Swift, um prato cheio. Para quem não gosta dela ou sabe pouco sobre sua vida, creio que seja uma forma de conhecê-la melhor.

Se, antigamente, ela dava a impressão de ser uma jovem talentosa, mas superficial e previsível, hoje, ela soltou suas amarras e mostrou ser uma mulher forte, corajosa e mais do que pronta para usar a música como forma de crítica social. O álbum “Lover” deixou isso bem claro.