Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Muito Gelo e Dois Dedos D’água

Quando se trata de um filme nacional, brasileiro olha de rabo de olho (principalmente os mineiros). Se tratando de comédia, então, o preconceito é ainda maior.

Daniel Filho surpreendeu em “Se Eu Fosse Você”, cativando o público com a hilária atuação de Glória Pires e Tony Ramos (eu achei bonzinho, e daí?) e “abrindo” a indústria para o humor. Claro que vários filmes nesse meio foram lançados, mas sem muita repercussão. (Quem aqui se lembra de A Partilha? Muito bom também!)

- Advertisement -

No mesmo ano, 2006, entra em cartaz Muito Gelo e Dois Dedos D’água, também do Daniel. Com o anterior sucesso, sua credibilidade estava em alta, e lá vou eu ao cinema, contrariando alguns pré-conceitos e pagando 5$ em um filme nacional.

A história é a seguinte: duas irmãs, depois de sofrerem na infância nas mãos da avó carrasca, decidem se vingar, agora adultas. Roberta (Mariana Ximenes) é a ovelha-negra da família. Solteirona, bebe, fuma, aplica “golpes” para não pagar a conta, vive no limite. Se tornou o que é, em partes por ser alvo de bolinhas de papel no colégio (quem nunca foi?) e por tudo que a avó obrigava-na a fazer. Traumas psicológicos. Suzana (Paloma Duarte) era a “queridinha” (se é que pode se dizer que houve uma). É casada, e superou melhor tudo que passou na infância.

Juntas, bolam um sequestro para vingarem-se da velha, e de quebra, levam Renato (Ângelo Paes Leme), um ingênuo e caretasso).

Agora, qual a graça do filme?

Ver a Laura Cardoso dopada, falar coisas do tipo “Emílio Garrastazu Médici, um belo homem”, “Médici belo homem, GAÚCHO!” e “Eu te amo, meu Brasil”. Hahahaha, excelente.
Ver Suzana, Roberta e Renato fumarem maconha e ficarem doidassos (com direito a efeitos visuais).
Ver a vingança em andamento, com um diálogo desse tipo:
“- Comprei luvas descartaveis para o teste de virgindade
– Mas ela usava luvas na gente?
– Não, mas eu não boto o dedo na xoxota dessa velha. Você bota?
– Nem morta! Nem de luva!”

Entre outras coisas. Não é uma comédia das melhores, claro que tem muita coisa idiota, mas confesso que me surpreendi. Perca algumas horas da sua vida atoa!

Ah, os roteiristas são os mesmos de “Os Normais”, Fernanda Young e Alexandre Machado, por isso o humor ácido com muito palavrão e sacanagem. (E talvez um espelho da própria Young, que prega a quebra dos conceitos de beleza, na personagem de Mariana Ximenes, cabelo curto, sobrancelhas raspadas, independente.)