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Namorados Para Sempre

Passional, dramático, dócil, por vezes até cômico, sensível ao extremo e indie, acima de tudo muito indie. Esses são os ingredientes do mais novo queridinho de 10 entre 10 casais cult norte-americanos. Blue Valentine (ainda não me acostumei com o título traduzido acima) é esse misto de emoções que faz os mais sensíveis chorarem, os estáveis se questionarem e até os mais durões se derreterem. Afinal são aspectos peculiares, mas fáceis de se encontrar em qualquer casal. O que era lindo no passado que agora já não faz mais diferença, o que era fofo que com o tempo se tornou incomodo… Enfim é uma história pra curtir a dois e refletir também a dois.
O filme narra a história de Dean e Cindy, vividos com maestria pelo casal Ryan Gosling e Michelle Williams. Eles chegaram a um ponto de seu casamento onde as coisas estão muito desgastadas, as cabeças mudaram, rumos diferentes estão sendo tomados… Mas ao invés de sentarem para bater uma DR, vão para um motel, alugam um quarto futurístico (muito engaçado) e tentam se acertar. A partir de então flashes do passado começam a surgir na história, questionamentos e tudo que os levou a chegarem a esse ponto.

Blue Valentine, baseado na linda música homônima do Tom Waits, é uma obra do nem tão novato (mas sem nenhum filme muito conhecido) Derek Cianfrance, que antes disso trabalhava com câmera e fotografia de alguns filmes. O diretor disse que foi um filme feito especialmente para Michelle e Ryan, tanto é que o projeto se engavetou dois anos após a morte de Heath Ledger, na espera da recuperação da atriz. Ele não poderia ter acertado mais. O casal tem daquelas químicas incríveis, só vista antes nas telonas por casais como “Zooey e Joseph” ou “Natalie e Zach”. Enfim, o filme é um “pedacinho de céu” do começo ao fim.
A crise toda começa quando a cachorra da família morre, afetando muito a filha do casal, que por sua vez é muito ligada com o pai. Após deixarem a filha na casa do avó (ótima aparição de John Doman), o casal segue de carro para curtir sua reconciliação, e no caminho o passado já começa à assombra-los. Com os flashes que vão aparecendo, as histórias começam a vir à tona: como Dean caiu de paraquedas em Nova Iorque, a forma romântica como eles se conheceram, como o rapaz comemorava a cada sorriso arrancado de Cindy, e aos poucos também vamos descobrindo qual foi o momento que mudou o rumo da vida dos dois para sempre e porque eles carregam esse fardo tão grande do passado.
Mas o ponto alto do filme, além da grande química entre o casal é a forma como as cenas são dirigidas, uma peculiaridade sem tamanho. A liberdade dada à Michelle e Ryan é muito grande e eles são acompanhados por uma câmera muito divertida que parece acompanhar seus movimentos. Isso tudo proporcionou uma cena que muito provavelmente virá a ser épica no cinema underground que é a cena da porta da loja, já divulgada no trailer, onde Ryan faz uma cute e desafinada performance de “You Always Hurt the Ones You Love” acompanhado de um desengonçado e igualmente fofo número de sapateado da Michelle. Mas não para por aí, o filme tem muitas daquelas cenas memoráveis, como a primeira vez do casal, o casamento dos dois, tudo feito com muito capricho e envolto por uma ótima fotografia com cara de Polaroid acompanhada por uma perfeita trilha sonora de ninguém menos que Grizzly Bear (explica-se aí minha maior ansiedade pra ver o filme).

Blue Valentine é isso, um filme marcante, cheio de personalidade e ao contrário do que pode parecer, muito mais sério do que romântico. É um filme reage de acordo com as emoções do casal, e esse por sua vez dança conforme a música, de uma vida a dois que sempre se transforma ao longo do tempo. O filme fez muito burburinho ao longo do ano conquistando os jurados dos festivais mais bonitos como Sundance, Cannes, Telluride, Toronto, teve indicação do casal pro Globo de Ouro e chega ao fim de sua trajetória com uma bela indicação da Michelle ao Academy Awards. Comercialmente o filme estreou nos países de língua inglesa entre dezembro e esse mês e deve estar pintando por aqui em Junho desse ano. O filme pode não ser lá uma grande obra mas me conquistou e ganha 5 caipirinhas.

Direção: Derek Cianfrance
Roteiro: Derek Cianfrance
Cami Delavigne
Joey Curtis
Elenco: Michelle Williams
Ryan Gosling
Faith Wladyka
Mike Vogel
e John Doman
Ano: 2010
Duração: 1h e 50 min

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