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Ninfomaníaca

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DIVIDIDO EM DOIS VOLUMES, NINFOMANÍACA pode ser pensado como a sinfonia evocada em um dos capítulos narrados por Joe (Stacey Martin e Charlotte Gainsbourg): o primeiro volume era uma sinfonia inacabada, interrompida, a história da formação e validação de um corpo enquanto território de desejo incontido, em busca de constantes realizações. Quando a história é retomada no Volume II, os desdobramentos de uma prática sexual nunca normatizada, a não ser pelos objetivos pragmáticos da protagonista, chegam a um debate ético e político em torno do direito ao poder sobre si – e de como a vida em sociedade exige que os desejos que mobilizamos como sujeitos se escondam sob um manto de hipocrisia e culpa que não nos são naturais.

Terceiro de uma série de filmes que tem em comum a temática das pulsões que o campo do conhecimento racional não consegue conter, Ninfomaníaca problematiza os conceitos de desvio, loucura, ato condenável, ou em um sentido mais sutil (e mais cruel em certa medida) o conceito de comportamento que deve ser evitado em favor da preservação de uma pretensa dignidade. Anticristo, Melancolia, e este último Ninfomaníaca são convites a uma questão colocada de maneira drástica por Lars Von Trier: o que acontece quando um sujeito escolhe não reprimir, quando se entrega integralmente à realidade de seus desejos? Ele se revela, tornando-se inclusive um espelho para o qual todos os outros se recusam a olhar. Olham, mas com aversão, virando os olhos, tentam “corrigir” algo que nem sequer compreendem com uma pretensiosa vontade de correção, limpeza, higienização.

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O Espelho é o nome de um dos capítulos de Ninfomaníaca: objeto que se torna aqui alvo das ações de Joe (a autodiagnosticada ninfomaníaca do título) quando esta tenta, em uma rara intenção de se adaptar, livrar-se de tudo aquilo que provoca vontade de fazer sexo: além de vedar quinas, guardar imagens, contatos telefônicos, Joe guarda ou inutiliza espelhos. Para deixar de ser ninfomaníaca (e não viciada em sexo como acaba insistindo em afirmar, na intenção de impedir que seus desejos possam se enquadrar em um domínio patológico) ela deveria deixar de se tocar, não criar nenhum tipo de situação em que tenha contato com outros homens, com seu próprio corpo e, sobretudo, deveria deixar de se olhar. Quando a visão de si mesma volta em uma cena que mistura poesia e aversão, volta também a certeza de que seu comportamento é legítimo. A luta não deve ser contra o desejo, mas contra tudo aquilo que representa uma possibilidade de destruir as vias de sua realização.

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Portanto quando sua vagina perde a sensibilidade de maneira brusca, Joe tenta restabelecer não uma via que usa para satisfazer seu vício, mas sim a sua própria subjetividade. Não há explicação para o desaparecimento de seu apetite sexual (embora este esteja ligado, de alguma maneira na narrativa, à sua única relação amorosa), mas há uma série de decisões mobilizadas no sentido de apenas reencontrar o sexo. E aqui talvez, como um sinal de esgotamento, há também a busca por novas maneiras de se envolver sexualmente, ou de se expor ao prazer sexual – agora, através da violência. É de certa forma perceptível que, com o amadurecimento, a relação com a própria sexualidade torna-se mais complexa, de certa forma mais refinada. Se quando jovem toda a (auto) educação sexual de Joe se voltava para descolar o uso de seu corpo de qualquer conceito de culpa, aproximando a prática sexual de uma questão de causalidades (algo que é basicamente o tema de todo o primeiro volume), o problema de Joe quando adulta se volta às limitações que seu próprio corpo lhe impõe nesta trajetória. E aqui chegamos a um dos pontos centrais deste último trabalho de Lars Von Trier.

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O limite de Joe é o limite que é sempre aquele criado pelo seu próprio corpo. Mais do que um inconsciente, que um self cujos domínios nunca serão claros, apesar das tentativas da ciência de classificar suas manifestações (e prescrever comportamentos para melhor administrá-lo), é seu corpo que lhe apresenta as únicas fronteiras com as quais genuinamente tem que se confrontar. Mas e quando esse corpo é um corpo feminino? Que impactos, que olhares, que julgamentos ele desperta? Em que situações o corpo feminino se diferencia do masculino para além da anatomia (ou como a anatomia feminina e suas diferenças foram administradas no sentido de demarcar lugares e limites)? As manifestações dos desejos de um ninfomaníaco seriam mais socialmente aceitas? A resposta para esta última pergunta, segundo a sequência final do Volume II, diz que sim.

É aí que Lars Von Trier busca uma legitimação para os atos de Joe, que no começo do filme se autointitulava uma pessoa má. Seligman (Stellan Skarsgard), cujo prazer está na literatura e na erudição (e não deixa de ser interessante pensar que todas as suas falas e comparações são frutos, na verdade, da erudição do realizador por trás das câmeras), evidencia a legitimidade das ações de Joe quando as coloca em um plano de afirmação daquela mulher. Como algo natural na vida de Joe, ela não vê empecilhos para experimentar seus impulsos. Ela não transfere a responsabilidade por desejar a nada ou a ninguém. Ela assume isso como um comportamento, não como um desvio. Uma possibilidade. É por isso que a cena final é tão importante ou tão afirmativa: não se trata de um vício, se trata de uma forma muito singular de desejo.

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Ao fim das quase 5 horas de narrativa, belas sequências e interpretações (destaque para Uma Thurman, Jamie Bell, Mia Goth, e claro, Stacey Martin e Charlotte Gainsbourg), tem-se a sensação de que os dois volumes (ou a duração atípica do conjunto) nada têm de gratuitos. São necessários na medida em que contam a história da vida de Joe, enquanto trazem um ponto de vista extremamente crítico do diretor. Apesar do que se poderia imaginar, Ninfomaníaca é um filme mais sutil que seus predecessores, embora faça coro com eles em temática: a capacidade destruidora deste desejo que quer conter  as nuances do ser humano, de escondê-las embaixo do tapete, um impulso burguês pela autopreservação através da mentira e da hipocrisia. Todas estas questões adquirem outra tônica quando se trata da mulher, e por isso é tão importante que seus personagens principais sejam femininos.

Mais pop e mais crítico do que nunca, Lars Von Trier entrega mais um estudo da cultura e do ser humano com extremo refinamento. Para além de todo o buzz que cada vez mais tem se criado em torno de seus lançamentos, sempre é bom ouvir o que ele tem a dizer, sobretudo observar como ele escolhe dizê-lo.

ninfo

Título original: Nymphomaniac
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Mia Goth, Willem Dafoe, Michael Pass, Jean-Marc Barr, Ananya Berg, Willem Dafoe
Lançamento: 2013
Nota: [quatroemeio]

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