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Edgar Wright homenageia Londres, os anos 60 e as mulheres em seu terror psicológico “Noite Passada em Soho”

Last Night In Soho traduzido para o Brasil como Noite Passada em Soho é o novo filme do diretor britânico Edgar Wright (Em Ritmo de Fuga) e foi exibido em sessões especiais na 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no mês de outubro. 

A produção é estrelada por Thomasin McKenzie (Jojo Rabbit), Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha), Matt Smith (The Crown) e Diana Rigg (Guerra dos Tronos) em seu último trabalho antes do seu falecimento em 2020. 

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 Na história acompanhamos a jovem Eloise (Thomasin) que se muda de uma cidade bem pequena no interior na Inglaterra para a capital Londres a fim de Moda e Design. Eloise é tímida e introspectiva, mas muito determinada a seguir seu sonho de se tornar uma estilista famosa. Na capital, ela começa a ter sonhos e experiências sobrenaturais que a levam ao passado e a conectam com Sandie (Anya). Sandie é aspirante a cantora e vive em Soho dos anos 60. A moça é confiante, elegante, misteriosa e ambiciosa. 

Por falar em Sandie, preciso destacar a primeira aparição dela no filme. Aprendi com meu querido amigo crítico e fundador do Cinema de Buteco, Tullio Dias, sobre a importância de se apresentar um personagem. Aqui, o momento que vemos Sandie em tela é visualmente hipnotizante. É impossível desviar o olhar porque os jogos de câmera e espelhos que o diretor faz são sensacionais. A fotografia e a trilha sonora bem marcada deixaram a cena deslumbrante. Magia cinematográfica! Uma das melhores apresentações de personagens que já vi. Além disso, os figurinos inspirados nas cores psicodélicas dos anos 60 chamam a atenção e realçam a personalidade de Sandie. 

Do mesmo modo, as atuações estão em alto nível.  Sou muito fã da Anya Taylor-Joy e não esperava menos que uma performance muito competente dela. Multitalentosa, as partes em que ela canta foram gravadas ao vivo. Os outros atores coadjuvantes e as participações especiais são muito boas.  Mas para aqueles que como eu, só tinham visto Thomasin MacKenzie em pequenos papéis, terão uma grata surpresa com a atriz. Ela se provou capaz de carregar o peso de ser a protagonista. Thomasin transmitiu as transformações e angústias de Eloise, principalmente nos momentos mais sombrios,  de maneira tão palpável e empática que estamos sempre torcendo para que ela consiga resolver todos os mistérios da trama. 

Edgar Wright contou em uma entrevista que procurou uma colaboração feminina para o roteiro de Noite Passada em Soho com o objetivo de construir melhor as personagens. Foi uma decisão acertada do diretor, que divide o roteiro com Krysty Wilson-Cairns(1917) e juntos criaram personagens complexas e cheias de camadas. O filme prestou diversas homenagens a thrillers de suspense e terror psicológico, e pode ser definido dentro dessas categorias. Entretanto, em essência, ele tem muito de um drama de amadurecimento, perda da inocência  e estudo de personagens. E a dinâmica entre Sandie e Eloise reforça esse turbilhão de emoções e reviravoltas nos quais ele nos proporciona. 

Por fim, de um ponto de vista feminino, o filme é visceral em mostrar como, se associadas a mãos erradas e perversas, os sonhos das mulheres podem se tornar seus maiores pesadelos. A exploração e o abuso de mulheres não são restritos a um período histórico ou fatos isolados.  Principalmente na indústria do entretenimento, por vezes, nos deparamos com histórias de jovens talentosas, cheias de ideais  que apenas buscavam um lugar ao sol. Mas, infelizmente, foram guiadas por homens inescrupulosos sem caráter, diretamente para o inferno. 

 

Karen Lopes

 

2 Comentários
  1. Wesley Moreira Diz

    Crítica muito boa! Ansioso pelo filme.

    1. Karen Lopes Diz

      Vale muito a pena assistir Wes!! Você vai gostar.

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